domingo, 24 de agosto de 2014

CRÔNICA  DE UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA
                   Tenho ficado calada e sem escrever as croniquetas que me divertem tanto, por uma razão muito simples - está difícil.  Adoro falar sobre assuntos interessantes, às vezes sérios, outras nem tanto, mas sempre com uma boa dose de humor. O drama é que não estou conseguindo me divertir fazendo isso, pois o que vejo por aí é desanimador. Porém, ficar ruminando o que incomoda é prejudicial à saúde, decidi organizar meu mal estar, colocar um pouco de esperança na alma e escrever alguma coisa.  Mas está difícil.
                  É fato que, de 2003 a 2013, morreram mais de quinhentos mil brasileiros em acidentes de trânsito e, no mesmo período, outras quinhentas mil de pessoas foram assassinadas.  Feitas as contas, perdemos, nesses 10 anos, um milhão de pessoas somente em razão dessas duas causas!  
                    Para se ter uma idéia mais concreta sobre esses números, podemos dizer que perdemos praticamente uma vez e meia a população do Acre, ou um pouco menos da metade dos sergipanos... se preferirmos, podemos dizer que morreu o equivalente a um sexto de possíveis eleitores da família Sarney no Maranhão.  Se quisermos falar em termos de países, teríamos acabado com a Islândia, Mônaco, Ilhas Seychelles e mais as 10 ilhas de Cabo Verde, tudo junto!  Será possível?!
                   Fiz algumas outras comparações e fiquei chocada - na guerra  entre Irã e Iraque, nos anos 80, considerada uma das mais sangrentas, morreram um milhão e cem mil.  Já na Chechênia, de 1999 a 2004, morreram cerca de 6.500 pessoas.  Não posso afirmar que os números estão certos, mas foram os que encontrei. E até onde eu sei, não estamos em guerra no Brasil!
                   Não estou chocada somente com os números desse genocídio disfarçado que, infelizmente, testemunhamos aqui na nossa terra.  Se discutirmos Educação, igualmente me estarreço, e não preciso tecer qualquer comentário, pois todos sabemos o que anda acontecendo nos mais variados rincões desse país. Somos somente 26% de alfabetizados plenamente, 46% de nós apresentam apenas habilidades básicas, outros 20% são considerados com nível rudimentar de aprendizado e temos 8% de analfabetos. Somos o oitavo país entre os dez com maior número de analfabetos.  O resultado desse descalabro é a morte da possibilidade de futuro de milhões de crianças e jovens. 
                   E,  na Saúde, tampouco as coisas vão bem.  E quando ela vai desse jeito, morrem milhares de cidadãos, sejam crianças, jovens, adultos ou idosos.  Mas como disse o ex- secretário de saúde do Distrito Federal (foi demitido há poucos dias), tudo isso é culpa da população, que tem a mania de ir ao hospital à noite.  Imaginem só, que gente mais desorganizada... provavelmente, ficam no shopping o dia inteiro, ou fazendo fofoca com as vizinhas e, depois, reclamam por não conseguirem atendimento médico à noite. 
                   Outro ponto nevrálgico - a água.   O mundo inteiro sabe que as condições climáticas estão de pernas para o ar.  Por que nossos governantes, percebendo que o índice pluviométrico não estava ajudando, e que os reservatórios chegaram a um limite perigoso, não admitiram logo o problema e tomaram as providências cabíveis.? Ficaram adiando, disfarçando, para evitar eventuais prejuízos eleitorais.   E o povo que arque com as consequências.  Nossos técnicos deveriam aprender com especialistas de países onde a água é escassa, mas onde não se sente a falta dela, pois conseguem otimizar seu uso.
                   Temos, no Brasil, 13,5% das reservas mundiais de água doce.  Parece bom!  Entretanto, na região Centro-Oeste, há um enorme desperdício com a agricultura, e por causa desse mau uso,  73% do total da água usada no país inteiro são consumidos lá!  No Sul e no Sudeste, temos tanta poluição que, às vezes, as companhias simplesmente desistem de tratar a água, tal a sua imundice.  E jogam fora!  Será isso mesmo?  Está difícil.
                   Tento organizar as ideias, mas vejo tudo muito mal parado.  Educação, Saúde, Saneamento Básico, Transportes, Obras Públicas, Energia...  Sobre a Justiça, nem queria falar, para não ficar taquicárdica.   Os juízes no Estado do Rio de Janeiro julgam, por ano, cinco vezes mais processos do que é recomendado pelos estudiosos.  Temos quase cem milhões de processos em tramitação no país.  São 17 mil juízes, pelo que andei lendo, ficando, cada um, com cerca de 55.900 processos.  Impossível analisá-los com atenção e critério, pois não são mágicos.
                   Como cidadãos, estamos sempre nos queixando da polícia, do prefeito, do governador, dos parlamentares, do presidente; enfim, reclamamos dos Três Poderes e de muitos outros adminsitradores públicos.  Dizemos que são incompetentes, irresponsáveis, corruptos, negligentes, enfim, não faltam adjetivos para os qualificarmos.  Mas e nós?  Será que fazemos a nossa parte quando os problemas começam a aparecer?  Quantos de nós agimos com responsabilidade?  Não sei a resposta, mas vale refletir sobre a questão.
                   E quanto aos acidentes de trânsito?  Respeitamos os limites de velocidade?  Observamos as regras básicas de segurança? Estamos descuidados com a vida em grupo?   Atiramos pedras neles e nos esquecemos do nosso próprio “telhado”?
                   Parece que estamos presos em um círculo vicioso.  Eles erram, a gente reclama, mas também faz as nossas besteiras... talvez achando que estamos desculpados já que os que nos representam estão fazendo grandes bobagens.  E, colocando a culpa neles, acabamos nos sentindo “perdoados”, tipo “ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão”.  Será que cometemos nossos pecadilhos para “compensar” os pecados capitais deles?  Será que, com essa vida tão atribulada, estamos perdendo a sensibilidade com os outros, e esquecendo de valores que nos eram caros?  Os torcedores dos times que se saem mal nas partidas tentam agredir seus jogadores, e os de torcidas diferentes precisam ser controladas pela polícia para não se matarem uns aos outros. 
                   Minha primeira versão dessa crônica era menor, bem menor.  Pensei, então, que a única vantagem de me encontrar nesse profundo desânimo cívico seria a de que meu texto estaria bem mais curto do que os que geralmente escrevo.  E fiquei satisfeita, pois ficar se lamentando em formato “romance” é muito chato... e não correria o risco de perder meus leitores fiéis escrevendo no formato “short story”.

         Mas, como o escorpião, minha natureza me traiu e não me deixou ser suscinta.   Continuei escrevendo, escrevendo, e aqui estou.  Assunto não me falta, mas consegui controlar-me  para não fazer disso uma tese de mestrado. Por outro lado, tem ainda espaço para que eu afirme que continuo me esforçando para fazer a minha parte, independentemente do que esses nossos representantes andam fazendo.  É um trabalho de formiguinha, com um dedal tentando apagar um incêndio enorme... mas espero pelo menos melhorar a vida em sociedade aqui no meu andar. Nem me atrevo a dizer no prédio, apenas no andar.  E fico com a esperança de que esse período complicado não dure muito, para que não se confirme como crônica de uma tragédia anunciada.