CRÔNICA DE UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA
Tenho ficado calada e sem
escrever as croniquetas que me divertem tanto, por uma razão muito simples - está
difícil. Adoro falar sobre assuntos
interessantes, às vezes sérios, outras nem tanto, mas sempre com uma boa dose
de humor. O drama é que não estou conseguindo me divertir fazendo isso, pois o
que vejo por aí é desanimador. Porém, ficar ruminando o que incomoda é
prejudicial à saúde, decidi organizar meu mal estar, colocar um pouco de
esperança na alma e escrever alguma coisa.
Mas está difícil.
É fato que, de 2003 a 2013,
morreram mais de quinhentos mil brasileiros em acidentes de trânsito e, no
mesmo período, outras quinhentas mil de pessoas foram assassinadas. Feitas as contas, perdemos, nesses 10 anos,
um milhão de pessoas somente em razão dessas duas causas!
Para se ter uma idéia mais concreta sobre
esses números, podemos dizer que perdemos praticamente uma vez e meia a
população do Acre, ou um pouco menos da metade dos sergipanos... se
preferirmos, podemos dizer que morreu o equivalente a um sexto de possíveis
eleitores da família Sarney no Maranhão.
Se quisermos falar em termos de países, teríamos acabado com a Islândia,
Mônaco, Ilhas Seychelles e mais as 10 ilhas de Cabo Verde, tudo junto! Será possível?!
Fiz algumas outras comparações
e fiquei chocada - na guerra entre Irã e
Iraque, nos anos 80, considerada uma das mais sangrentas, morreram um milhão e
cem mil. Já na Chechênia, de 1999 a
2004, morreram cerca de 6.500 pessoas. Não
posso afirmar que os números estão certos, mas foram os que encontrei. E até
onde eu sei, não estamos em guerra no Brasil!
Não estou chocada somente com
os números desse genocídio disfarçado que, infelizmente, testemunhamos aqui na
nossa terra. Se discutirmos Educação,
igualmente me estarreço, e não preciso tecer qualquer comentário, pois todos
sabemos o que anda acontecendo nos mais variados rincões desse país. Somos somente
26% de alfabetizados plenamente, 46% de nós apresentam apenas habilidades
básicas, outros 20% são considerados com nível rudimentar de aprendizado e
temos 8% de analfabetos. Somos o oitavo país entre os dez com maior número de
analfabetos. O resultado desse
descalabro é a morte da possibilidade de futuro de milhões de crianças e
jovens.
E, na Saúde, tampouco as coisas vão bem. E quando ela vai desse jeito, morrem milhares
de cidadãos, sejam crianças, jovens, adultos ou idosos. Mas como disse o ex- secretário de saúde do
Distrito Federal (foi demitido há poucos dias), tudo isso é culpa da população,
que tem a mania de ir ao hospital à noite.
Imaginem só, que gente mais desorganizada... provavelmente, ficam no
shopping o dia inteiro, ou fazendo fofoca com as vizinhas e, depois, reclamam
por não conseguirem atendimento médico à noite.
Outro ponto nevrálgico - a
água. O mundo inteiro sabe que as
condições climáticas estão de pernas para o ar.
Por que nossos governantes, percebendo que o índice pluviométrico não estava
ajudando, e que os reservatórios chegaram a um limite perigoso, não admitiram logo
o problema e tomaram as providências cabíveis.? Ficaram adiando, disfarçando, para
evitar eventuais prejuízos eleitorais.
E o povo que arque com as consequências.
Nossos técnicos deveriam aprender com especialistas de países onde a água
é escassa, mas onde não se sente a falta dela, pois conseguem otimizar seu uso.
Temos, no Brasil, 13,5% das
reservas mundiais de água doce. Parece
bom! Entretanto, na região Centro-Oeste,
há um enorme desperdício com a agricultura, e por causa desse mau uso, 73% do total da água usada no país inteiro são
consumidos lá! No Sul e no Sudeste, temos
tanta poluição que, às vezes, as companhias simplesmente desistem de tratar a
água, tal a sua imundice. E jogam
fora! Será isso mesmo? Está difícil.
Tento organizar as ideias,
mas vejo tudo muito mal parado.
Educação, Saúde, Saneamento Básico, Transportes, Obras Públicas,
Energia... Sobre a Justiça, nem queria
falar, para não ficar taquicárdica. Os
juízes no Estado do Rio de Janeiro julgam, por ano, cinco vezes mais processos
do que é recomendado pelos estudiosos.
Temos quase cem milhões de processos em tramitação no país. São 17 mil juízes, pelo que andei lendo,
ficando, cada um, com cerca de 55.900 processos. Impossível analisá-los com atenção e critério,
pois não são mágicos.
Como cidadãos, estamos sempre
nos queixando da polícia, do prefeito, do governador, dos parlamentares, do
presidente; enfim, reclamamos dos Três Poderes e de muitos outros
adminsitradores públicos. Dizemos que
são incompetentes, irresponsáveis, corruptos, negligentes, enfim, não faltam
adjetivos para os qualificarmos. Mas e
nós? Será que fazemos a nossa parte
quando os problemas começam a aparecer? Quantos
de nós agimos com responsabilidade? Não
sei a resposta, mas vale refletir sobre a questão.
E quanto aos acidentes de
trânsito? Respeitamos os limites de
velocidade? Observamos as regras básicas
de segurança? Estamos descuidados com a vida em grupo? Atiramos pedras neles e nos esquecemos do
nosso próprio “telhado”?
Parece que estamos presos em
um círculo vicioso. Eles erram, a gente
reclama, mas também faz as nossas besteiras... talvez achando que estamos
desculpados já que os que nos representam estão fazendo grandes bobagens. E, colocando a culpa neles, acabamos nos
sentindo “perdoados”, tipo “ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão”. Será que cometemos nossos pecadilhos para
“compensar” os pecados capitais deles? Será
que, com essa vida tão atribulada, estamos perdendo a sensibilidade com os
outros, e esquecendo de valores que nos eram caros? Os torcedores dos times que se saem mal nas
partidas tentam agredir seus jogadores, e os de torcidas diferentes precisam
ser controladas pela polícia para não se matarem uns aos outros.
Minha primeira versão dessa
crônica era menor, bem menor. Pensei,
então, que a única vantagem de me encontrar nesse profundo desânimo cívico seria
a de que meu texto estaria bem mais curto do que os que geralmente escrevo. E fiquei satisfeita, pois ficar se lamentando
em formato “romance” é muito chato... e não correria o risco de perder meus
leitores fiéis escrevendo no formato “short story”.
Mas,
como o escorpião, minha natureza me traiu e não me deixou ser suscinta. Continuei escrevendo, escrevendo, e aqui
estou. Assunto não me falta, mas
consegui controlar-me para não fazer
disso uma tese de mestrado. Por outro lado, tem ainda espaço para que eu afirme
que continuo me esforçando para fazer a minha parte, independentemente do que
esses nossos representantes andam fazendo.
É um trabalho de formiguinha, com um dedal tentando apagar um incêndio
enorme... mas espero pelo menos melhorar a vida em sociedade aqui no meu andar.
Nem me atrevo a dizer no prédio, apenas no andar. E fico com a esperança de que esse período complicado
não dure muito, para que não se confirme como crônica de uma tragédia
anunciada.