domingo, 10 de fevereiro de 2019


CATARINA II, AINDA...

Acho que nem duas conversas sobre Catarina II serão suficientes; porém, decidi contar apenas o que descobri de mais interessante, terminando o assunto por aqui.  Impossível assegurar que foi o que realmente aconteceu. Posso apenas trazer a versão oficial mais aceita, recheada com fofocas que sobreviveram ao tempo.
O período de seu reinado foi classificado como a Era de Ouro do Império, com a marcante expansão das fronteiras russas, conseguida através de conquistas militares e do trabalho de seu habilidoso corpo diplomático.  Anexaram a Crimeia, boa parte do Cáucaso e da Ucrânia, Bielorrússia, Lituânia e Letônia. Com isso, o império aumentou substancialmente sua influência no mundo, naquela segunda metade do século XVIII.
A Grande, como era chamada, tinha muitas ideias, algumas bem polêmicas, convenhamos,  mas recebia sempre sugestões e orientações de seus favoritos, generais e almirantes que conseguiam exercer algum controle sobre ela. Trocava constantemente correspondência com importantes intelectuais pelo mundo.  Criar a Universidade de Moscou, permitir a liberdade de culto e dividir o enorme território em províncias foram algumas de suas muitas ações.  A Carta Régia da Nobreza que conferiu aos nobres garantiu a eles isenção de impostos, como também os liberou do serviço militar compulsório.  Conto isso para confirmar que o corporativismo vem de longe...
Inspirando-se em Pedro, o Grande, um louco dotado de grandes habilidades como governante, continuou a revitalizar o império, seguindo os modelos da Europa do Oeste.  A oposição não lhe dava sossego, mas conseguiu superar os adversários.  Quando subiu ao trono, havia outros pretendentes que se consideravam com direito a assumir. Na verdade, Catarina não correu grandes riscos, pois seus assessores trataram de resolver os problemas.  Havia um mais perigoso.   Ivan VI fora nomeado Czar por sua tia-avó Ana Romanov, em 1740, quando tinha seis meses de idade. Mas Elizabeth II (Isabel II), também uma Romanov, através de um golpe de estado em 1741, assumiu o poder, aprisionando o menino, de um ano e pouco apenas, com toda sua família, procurando evitar dificuldades.  Era filha de Pedro, o Grande, e se achava com mais direito ao trono do que o pequeno.  Bom lembrar que foi ela foi quem deixou o trono para Pedro, que assumiu como Pedro III quando ela faleceu, como também havia escolhido Sofia/Catarina II para se casar com ele.
  O pobrezinho do Ivan VI tentou resgatar o direito ao Império quando  Pedro III foi assassinado.  Doce ilusão - os aliados de Catarina não permitiram. As ordens dela foram claras -  perante qualquer tentativa de fuga, deveria ser fuzilado. E isso realmente aconteceu dois anos depois.  Foi eliminado, sob a desculpa de que enlouquecera ao ficar enclausurado por toda a vida, e de que não seria um bom governante.  Dizem que ele estava mesmo fora do juízo normal, o que não seria de se estranhar depois de ter passado praticamente os vinte e três anos de vida como prisioneiro do império.
 Catarina, como sabemos, adorava os homens; isso, no entanto, nunca a impediu de ser uma feminista.  A primeira instituição financiada por um estado europeu para educação superior de mulheres foi criada por ela.   Outro fato a ser comentado é que não descendia dos Romanov, e sim da dinastia que os antecedera.  Por isso, até hoje existe uma questão polêmica.  Qual seu verdadeiro status?  Regente ou usurpadora? Muitos entendem que seria tolerada apenas como regente durante a minoridade de seu filho Paulo.
Mas nem seu herdeiro, com seus seguidores, tiveram êxito nas tentativas de tirar-lhe a coroa.  Afirmava que o filho era um fraco, garantindo-se no trono enquanto viveu.  Se não deu espaço para o próprio filho, imagine como lidou com os estranhos.  Ele somente assumiu após a morte da mãe, como Paulo I, mas reinou apenas por quatro anos e quatro meses.  Ao recusar-se a abdicar, foi morto e sucedido por seu filho Alexandre I.  E ainda tem gente que gostaria de pertencer à nobreza.  Em compensação, com a numerosa família que constituiu com a segunda esposa, garantiu que quase todas as famílias reais da Europa sejam seus descendentes diretos.  Dentre eles, temos o Príncipe Charles, da Inglaterra, por parte de pai, o Rei da Suécia, casado com a brasileira Silvia, a Rainha Margarida II, da Dinamarca, Felipe IV, da Espanha, por parte da mãe, e muitos outros.  
Na verdade, nem tudo realizado por Catarina pode ser aplaudido.  Logo que subiu ao trono, fez uma grande reforma no Senado, tirando parte do poder do órgão, como também assumiu terras da Igreja e dos camponeses, sem a menor cerimônia.  Embora tenha até mesmo pensado em abolir a escravatura, não o fez, ao perceber que os nobres não iriam gostar: ou seja, aos nobres, tudo, ao povo, quase nada.  Para sermos justos, algumas medidas beneficiaram os servos, classe numerosa na Rússia, mas absurdos continuaram a ser cometidos.  Por todo o descontentamento que despertou, precisou enfrentar várias rebeliões também dessa classe de súditos, pois nunca aceitaram que houvesse destronado Pedro III, esse, sim, autor de decreto que libertava aqueles que eram ligados à Igreja Ortodoxa.  Venceu a todos.
Em razão de sua ligação intelectual com Voltaire, Diderot e outros iluministas franceses, foi considerada uma déspota esclarecida.  Escreveu comédias, novelas moralizantes, imaginem, e até mesmo uma autobiografia.  Adorava arte, e sua coleção particular deu origem ao monumental Museu Hermitage, que agora ocupa todo o Palácio de Inverno de São Petersburgo.  Fiquei impressionada com a grandeza.  Catarina trouxe para a corte russa um sem número de intelectuais e procurou aplicar princípios do Iluminismo em suas ações.  Na verdade, precisou imprimir um ritmo mais lento à adoção de tais princípios, ao perceber que seus conselheiros mais moderados e experientes não concordavam com muitos deles.  Acreditava na Educação como modo de modernizar o espírito e as ideias russas, o que me faz olhar para sua história com um pouco mais de simpatia. Entretanto, seus esforços na área não renderam tantos frutos quando imaginou, e o universo das crianças atendidas por seus projetos foi pequeno quando se leva em conta a população russa.  Justiça seja feita – tentou!
Voltando ao tema amoroso - um de seus inúmeros amantes foi Grigory Potemkin. Fácil de lembrar, pois o encouraçado de mesmo nome ficou para sempre na História e na nossa memória.  A revolta de seus marinheiros foi o prenúncio da revolução russa de 1917 e o filme de Eisenstein é um dos grandes clássicos de todos os tempos.  Tive a sorte de assistir, em Paris, o ballet de Kiev encenando a história do navio e da revolta em uma coreografia moderna.  Inesquecível.  Voltando ao amante.  Esse oficial, um exímio marechal de campo, pelo que se sabe, foi das pessoas mais ligadas a ela. Muitos historiadores os consideram dois dos maiores estadistas da Rússia.  Recordando as fofocas da época, vale dizer que ambos eram conhecidos pela insaciável disposição para o sexo.  Com isso, teriam formado fantástica parceria na política, no campo militar e na cama. Adoraria ler as picantes cartas trocadas entre eles, que foram muitas.
Catarina teve outro Grigory como amante, este da família Orlov. Eu já havia falado nele na outra crônica, quando contei que seu irmão caçula foi um dos suspeitos do assassinato de Pedro III.  Marcou muito a vida dela, e chegaram a ter um filho, Alexei Bobrinskoy, que ela criou bem longe da corte.  Na verdade, filhos não foram prioridade.
Embora eu não vá perder tempo listando os muitos amantes de Catarina, já que não interessa mesmo, vale comentar que, ao final de seus romances, costumava oferecer uma boa vida para os que mandava ir adiante.  Não sei se para todos, mas não foram poucos os que receberam títulos e postos importantes e, junto, bons rendimentos.  Um deles chegou a receber o trono da Polônia como recompensa. 
Dizem que ela chegou a ter vinte e três amantes.  O último teria vinte anos, enquanto ela acabara de completar sessenta. Também contam que vários deles realmente se apaixonaram por ela.  Imagino como era sedutora! A fama de amante incontrolável e sedenta por experiências tórridas não perdeu força com a passagem dos séculos.  Há fofocas até mesmo de que fazia sexo com animais.  Encontrei uma história de que não teria morrido em consequência de um AVC, e sim quando o cavalo com quem estava pintando e bordando teria caído em cima dela.  Prefiro achar que foram os inimigos, com ódio dela, que inventaram isso; entretanto, não há como saber.  Vamos valorizar a versão oficial de que morreu mesmo de um derrame cerebral.
Antes de encerrar a conversa sobre a vida amorosa de Catarina II, devo repassar a história contada pelo guia que me acompanhou na Rússia.  Era, como sabemos, uma observadora da “paisagem”.  Olhava, encontrava o alvo perfeito e prontamente recomendava a uma determinada condessa, de sua total confiança, que fizesse uma entrevista com o tal objeto do desejo.  Essa entrevista, na verdade, não se resumia a uma conversa franca, onde eram repassadas ao rapaz as preferências da madame.  Era também realizada uma prova prática.  Caso a entrevistadora o aprovasse nesse vestibular amoroso, poderia, então, frequentar os aposentos imperiais.   Pois é, e há quem diga que a atual liberdade sexual ultrapassa todos os limites. Em tempo, Catarina II jamais admitiu ser traída por esses amantes. Por outro lado, o marido podia fazer o que quisesse, e ela até adorava saber que ele estava entretido com as amantes.  Queria distância!
Um detalhe interessante – embora fã dos Iluministas, depois da Revolução Francesa, Catarina rejeitou muitos daqueles princípios.  Claro que os movimentos democráticos que se espalhavam pelo mundo iam contra seus interesses, e ela, esperta, ficou preocupada.   
Outra coisa que impressiona até hoje é como ela, de baixa estatura, conseguia exercer um domínio sobre praticamente todos que dela se aproximavam.  A pintora Vigée Le Brun, que havia sido a pintora da corte de Maria Antonieta, descreveu com precisão um de seus encontros com ela: “As duas portas se abriram e a Imperatriz apareceu. Como havia dito, ela era bem pequena, mas quando ela fazia aparições públicas, mantinha a cabeça erguida, apurava seu olhar aquilino e mostrava um semblante acostumado ao comando; tudo isso lhe dava tal ar de majestade que ela poderia ser a Rainha do Mundo”.  Essa era Catarina.
Esclarecida, mas era uma déspota e, podemos enumerar outros tantos “atributos”, por assim dizer. Nunca saberemos como era realmente.  Refletindo sobre isso, tento imaginar se ela seria quem foi se tivesse ficado na Prússia e se casado, por exemplo, com um príncipe alemão prepotente?  Ou entrado em um convento?  Pois é, concordo com Ortega y Gasset.  Nós somos nós e as nossas circunstâncias... circunstâncias essas que são nosso dilema, sempre novo, e diante do qual temos que decidir.  E o que ao final decide é o nosso caráter.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019


CATARINA II, A GRANDE
        Realmente, uma figura marcante. Se por obra do acaso eu tivesse vivido naquela corte russa, ia dar um jeito de ser amiga dela.  Inimiga, nunca !  Dos seus sessenta e sete anos, foi imperatriz por trinta e quatro. A metade de sua vida! Nenhuma outra mulher reinou por tanto tempo naquele país.
            Nasceu em 1729 na Pomerânia, região ao norte da Polônia e da Alemanha que pertencia ao império da Prússia e que foi dividida entre esses dois países depois da Segunda Grande Guerra. A princesa Sofia Frederica Augusta era de família nobre, mas sem grandes recursos, e foram os parentes ricos de sua mãe que lhe proporcionaram a chance de chegar ao poder. Como sempre, através de relações com as pessoas “certas”.  Justiça seja feita – era muito inteligente, fora educada por uma governanta francesa e por ótimos tutores; essa combinação lhe rendeu competência para um futuro marcante. 
            Foram tortuosos os caminhos que a levaram ao poder. Cá entre nós, muitos nada ortodoxos.  Sua escolha para casar-se com o Grão-Duque Pedro, aspirante ao trono russo e seu primo em segundo grau, deu-se em razão de interesses de estado, como sempre. Para enfraquecer a Áustria, os nobre russos planejaram a aproximação da Prússia com eles.  O desespero de Sofia foi, ainda muito jovem, perceber que o príncipe, um pouco mais velho, era um bobo que ainda brincava com soldadinhos de chumbo, fraco em muitos aspectos e já viciado em álcool.
            Chegou à Rússia aos quinze anos e, sem dúvida, já uma estrategista; esforçou-se ao máximo para conquistar a tia, Imperatriz Elizabeth, o povo russo e mesmo o futuro marido.  Aprendeu a falar a língua com perfeição e decidiu abandonar a fé luterana, tornando-se ortodoxa.  Foi com essa conversão que recebeu o nome de Ekaterina Alexeienva. Devemos reconhecer que fez de tudo para honrar o título que ganharia.  O sacrifício foi grande, e chegou a ficar à beira da morte em razão de problemas pulmonares.  Com dezesseis, em 1745, casou-se.  O pai, furioso por ela ter renegado a religião da família, nem apareceu.
            Importante esclarecer como Pedro chegou a imperador da Rússia.  Sua tia, a imperatriz Elizabeth, filha de Pedro, o Grande, não teve filhos, e por isso o indicou, como seu herdeiro presuntivo, quando estava com quatorze anos. Era o único filho de sua irmã Ana. Interessante é que estava sendo indicado, na mesma época, a Rei da Finlândia e, também da Suécia.  Em razão da possibilidade russa, alguém em seu nome renunciou a esses outros reinos. Como era menor, precisava ser representado. O problema é que, por ser apenas presuntivo em relação à Rússia, correu o risco de aparecer um herdeiro com mais direitos, ou sua tia indicar outra pessoa... No final das contas, considero que ter chegado ao trono não foi um bom negócio para ele.
            Sobre o casamento.  Pedro, pelo que Catarina entendia, era um bobo; ela, sabemos, já se mostrava uma “águia”. Não tinha futuro aquele casal. O herdeiro do trono logo arranjou uma amante, ao passo que ela não se contentou com poucos... longa lista de homens frequentando seus lençóis.  Mas o interessante é que ela realmente se apaixonava por cada um deles, mesmo que fosse por pouco tempo.  Era uma serial lover.  Em tempo – alguns desses favoritos foram apresentados pela própria irmã da amante do marido, e eram justamente homens que não eram gostavam de Pedro. Uma rede de intrigas de fazer inveja a Hollywood. 
O guia turístico confidenciou que Pedro tinha um probleminha no seu “instrumento”, e que a própria czarina havia aconselhado Catarina a trair o futuro czar para garantir filhos.   E Paulo nasceu.  A sorte do menino foi ser parecido com o pai, mesmo que alguns nobres continuassem a dizer que era filho de um oficial, Saltykov. Muita gente suspeita também da paternidade do Príncipe Harry, da Inglaterra, embora essa história já tenha sido desmentida com veemência por Ken Wharfe, guarda-costas e confidente de Diana.  Voltando à Rússia – a própria Catarina alegava que Pedro não seria o pai, mas isso não foi levado em conta.  Muitos acreditavam que ela tinha como objetivo fazer com que o filho não fosse considerado herdeiro legítimo, para que não atrapalhasse seus planos de permanecer no poder. 
Pedro III, quando assumiu o trono, conseguiu aumentar o número de desafetos, não só em razão de suas políticas interna e externa, mas também por causa de suas excentricidades.  Desagradava à maioria, e muitos desses importantes personagens estavam ao lado de Catarina há tempos.  Na verdade, essa é uma das versões sobre o czar.   Há historiadores que o classificam como um governante com visões modernas, atribuindo a ele decisões e realizações que são, em outros livros, atribuídos a ela. Se os próprios estudiosos não se entendem, vou apresentar apenas a versão mais aceita. E como a história oficial é contada pelos vencedores, neste caso pela vencedora, ficaremos sem saber ao certo. Pois é, danem-se os fatos, o que vale é a versão!
Na verdade, o pobrezinho nem esquentou o lugar.  Antes de completar seis meses no poder, teve a má ideia de viajar com alguns amigos, deixando Catarina no palácio.  Poucos dias depois, enquanto jantava, ela recebeu a notícia de que um de seus aliados fora preso pelo czar.  Não perdeu tempo e colocou em prática seus planos, contando com a ajuda de seus fiéis seguidores.  Na manhã seguinte, seguiu para o principal regimento do império para conseguir ajuda dos militares, pedindo proteção contra o marido.  Como poucos gostavam dele, não foi difícil.  De lá, partiu para onde o clero aguardava para ordená-la única ocupante do trono russo.  Tinha trinta e três anos, era estrangeira... Não se pode negar que foi uma mulher muito hábil, inteligente e corajosa.  Na verdade, não dava ponto sem nó.
Seis dias depois desse acontecimento, segundo uma das versões que temos sobre o fato, Pedro III foi morto pelas mãos do irmão caçula de um dos favoritos de Catarina, Orlov. Outra suspeita é de que, bêbado, o czar teria se desentendido com seu guarda-costas, sendo por ele assassinado.  Nem a KGB da época conseguiu atribuir à Catarina qualquer participação no crime. Mas, indiscutivelmente, sua morte caiu como uma luva para seus planos de czarina!
Voltando um pouco na História da Rússia, temos Pedro, o Grande, avô de Pedro III, casando-se secretamente com a amante de ascendência sueca que, quando se converteu à Igreja Ortodoxa Russa, recebeu o nome de Catarina.   Eram muito ligados, tiveram 12 filhos e acabaram se casando oficialmente anos depois, o que a transformou em Imperatriz Consorte.  Pedro não parou por aí e, um ano antes de morrer, coroou-a co-governante do Império Russo. E quando ele morreu, tornou-se a primeira mulher na história a governar a Rússia. Morreu dois anos depois, aos 43 anos, de tuberculose.
Essa foi a deixa para Catarina II considerar-se legítima sucessora.   A avó de seu recém falecido marido havia assumido o império quando o marido se foi... Por que não poderia ela fazer o mesmo?  Essas Catarinas eram muito espertas!
Nunca se sabe se o que contam tem fundamento.  Hoje em dia, há mais facilidade em apurar-se qualquer coisa que aconteça, mesmo que, muitas vezes, continuemos sem saber a verdade por inteiro.  Naquele tempo, então, poderia se dizer o que quisesse que não haveria muita chance de se chegar à realidade.  De qualquer modo, aqui vai uma história muito louca que se encontra em um respeitado livro escrito sobre o reinado de Catarina.  Se verdadeira, confirmaria o desequilíbrio e a mente infantilizada de Pedro.
 Certa vez, ao entrar no quarto do marido, deparou-se com um rato morto pregado na parede.  Assustou-se mais ainda ao ouvi-lo explicar que o bicho, por haver cometido um crime, merecera a pena de morte, em conformidade com as leis de guerra vigentes. 
É fato que Pedro mantinha, embaixo da cama, uma grande coleção de brinquedos, a maioria deles soldadinhos e apetrechos militares.  Aproveitava a ausência da esposa, provavelmente enquanto ela estava com os amantes, e montava cenas de batalhas.  Acontece que o tal rato, inadvertidamente, invadiu o cenário de guerra e rapidamente devorou dois soldadinhos.  O desespero de Pedro, segundo Catarina, foi como se ele tivesse perdido um membro da família.  Assim, o pobre bichinho foi sumariamente condenado à forca, sem direito à defesa. E a sentença foi executada em um pequeno patíbulo, especialmente construído para esse enforcamento.  Talvez seja prudente dar um desconto, pois esse relato pode ser um pouco exagerado. Embora onde haja fumaça, pode haver fogo, nunca saberemos.
Outra coisa interessante sobre esse czar que reinou por apenas seis meses – apareceram, depois, pelo menos cinco homens afirmando ser ele, alegando que não teria sido morto e, sim, sido feito prisioneiro em segredo por Catarina.  Mas nenhum desses logrou êxito com suas mentiras, pois a czarina acabou com as pretensões de todos eles.
Há algumas histórias envolvendo o “fantasma” dele. Uma das mais famosas é que seu espírito que teria parado o exército de Hitler perto de Leningrado, em 1944.  Não se pode comprovar, claro, mas ficou no imaginário popular. O que é verdade - ele não recebeu grandes honras ao morrer, já que a esposa estava mesmo era aliviada e feliz. Seu filho Paulo I, que sucedeu a mãe e de quem não gostava nem um pouco, finalmente mandou exumar os restos mortais de Pedro III e o sepultou, com todas as honras, junto aos outros czares. 
Seria uma injustiça não falar mais sobre Catarina, a Grande. E seria cansativo para quem lê ficar tudo em uma só crônica.  Em breve, mais indiscrições e fatos sobre a déspota esclarecida que marcou, profundamente, a história da Rússia.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019


NUDISMO, QUEM DIRIA...

          Tantas viagens pelo mundo e somente quando estive em Cancun fui conhecer uma praia onde praticam o nudismo. Claro que isso nunca fez parte de minha Bucket List, por sinal, uma lista bem longa, mas foi bem interessante.  E o engraçado é que não precisaria ter ido tão longe, pois aqui mesmo no Rio tem uma! No Brasil, são oito oficiais. Em Copacabana ou nas outras praias, quem imitar Adão provavelmente será detido, acusado de ato obsceno. 
Em geral, a gente imagina que seja um ambiente de pura liberdade, para não dizer libertinagem, e onde se pode fazer o que vier à cabeça.  Não é generalizada essa permissividade e, sem dúvida, ainda há lugares em que a tônica é somente a vontade de estar livre das roupas. 
Há regras para os frequentadores em todas elas e, muitas vezes, são bem rígidas. Quem quiser ir deve, antes de qualquer coisa, inteirar-se do regulamento de cada um desses espaços. E tentar descobrir como é na prática, pois tudo pode ser bem diferente!  Acho engraçado que nem todas exijam que você tire a roupa toda para frequentar alguns de seus espaços, ou em determinados dias da semana.  Em outras, mal se entra, o despir-se por completo é obrigatório.  Porém, caso a temperatura baixe, é óbvio que você poderá se vestir-se: são nudistas, não masoquistas.
Em algumas das praias, homens sozinhos não são aceitos! Em Santa Catarina, em uma das três que temos lá, eles podem entrar e, há algum tempo, tornou-se um ponto de azaração LGBT. Enquanto isso, outra separa os nudistas desacompanhados dos casais e das famílias. O interessante é que, na mais badalada de Santa Catarina, todos os empregados apresentam-se pelados, inclusive os seguranças e os garçons.  Nesse restaurante, nem água eu beberia. Exagero?  Talvez, mas jamais iria arriscar.
Os engraçadinhos devem ser informados de que paquerar mulher alheia é proibido na maioria delas!  Nem mesmo ficar olhando muito é aceitável.  Caso alguém se “anime” demais, é aconselhado imediatamente a se cobrir com uma toalha e se “acalmar” entrando na água fria do mar. Eu mostraria a foto da esposa do Príncipe Charles, Camila Parker, para que o assanhadinho voltasse ao normal. Falando sério - recomendo, mais uma vez, prestar atenção às regras - nem todas as praias de nudismo são do jeito que muitos imaginam. Ou secretamente desejam...
Na Alemanha, a ilha de Amrum, com cerca de 80 mil metros quadrados, abriga um campo de nudismo e oferece, além da praia, mais de um museu, uma igreja e um farol que podem ser visitados.  Em 2014, em Berlin foi permitido o nudismo urbano em seis parques da cidade.  Pois é, o tempo passa e os costumes mudam.
Fiquei sabendo que já tivemos, mundo afora, alguns restaurantes que aderiram ao nudismo. Em Paris, em 2017, O’Naturel abriu suas portas, mais ou menos na mesma época que, na Espanha, o Innato, iniciava seus trabalhos. Esse já fechou, e o francês sai de cena agora em fevereiro. Algo não saiu como esperado.  No tal do Innato, era oferecida uma sobremesa, a “Happy Ending”, feita de chocolate derretido com morangos servidos em um modelo nu. Pois é, nem essa iguaria sustentou a ideia.
No Caribe, já está sendo programado um cruzeiro que autoriza o “topless” em suas dependências.  Boa dica para quem ainda não se liberou completamente - vai ajudar a pessoa a se acostumar por etapas. Quem está organizando é a Temptation Cancun Resort, aquela franquia de hotéis com praias de nudismo que eu visitei na cidade mexicana.  Para possíveis interessados, a saída da Flórida está marcada para fevereiro de 2020. Ainda há tempo para aderir!
Saí pesquisando e vi que a pioneira nesse ramo é a Original Group.  Em seus cruzeiros, pela Europa, podemos tirar a roupa toda, sem restrições. E a história não para por aí. Há outra empresa que organiza cruzeiros direcionados aos casais adeptos de swing.  Assim, ninguém vai se sentir discriminado, pois tem para tudo que é gosto... e desgosto.  
No Rio, são duas as áreas reservadas, uma em Búzios e a outra em Grumari, a Praia de Abricó, que fica a mais ou menos uma hora daqui do Leblon. Em 2016, foram várias as denúncias de sexo explícito na de Grumari. Muitos vídeos dessas orgias foram divulgados na internet.  Mesmo que uma enorme placa traga o regulamento por inteiro e determine que se deve “evitar comportamento sexualmente abusivo e atos de caráter sexual ou obsceno”, a farra estava comendo solta... literalmente. Não havia fiscalização. Com isso, os verdadeiros adeptos da filosofia naturista e que respeitam o código de ética estabelecido deixaram de frequentar o local, contrários a essas “práticas”. Não consegui saber se algo mudou, mas não acredito. 
 Um naturista comentou que, no Caribe, viu até prostituição em algumas praias. Aprendi que o nudismo é apenas uma das práticas do naturismo, que é um modo de viver baseado no retorno à natureza, com o consumo de alimentos naturais, vida ao ar livre... Admito que confundia naturismo com nudismo.
Como prometi, vou satisfazer a curiosidade de muitos amigos. Não foi uma visita programada ao tal espaço nudista em Cancun. Era a praia contígua ao Resort em que fiquei com meu filho Vinicius, minha nora Mônica, Jade, neta já adulta e minha consogra, Alice.  Foi ela que, passeando à beira d’água, descobriu a história.  E, curiosos, fomos todos, tentando disfarçar o constrangimento e mostrando uma naturalidade pouco sincera.  Lá, na areia, a nudez não era exigida, tanto que passeamos tranquilamente. Com sunga, biquínis, cangas...  Eu, na verdade, estava de calça capri.
Aviso aos navegantes de primeira viagem: não vão encontrar apenas lindas mulheres de corpos encantadores, ou rapazes glamorosos, ostentando abdômen tanquinho... há gente de tudo que é idade e tipo físico.  Como a lei da gravidade é madrasta, vão ver de tudo!  Os frequentadores tinham mais de 40 anos... nenhum abaixo disso. Concluí que é uma das mais liberadas dessas praias. Esses olhos que já viram de A a Z testemunharam cenas de fazer corar até mesmo os mais assanhadinhos. Fiquei surpresa. Sexo para quem quisesse ver e também para os que não quisessem. 
Pois é, a moda está se espalhando... Só espero já ter partido para outro planeta quando o nudismo, que antes era proibido e agora é permitido, tornar-se obrigatório.  Se fosse exigida a nudez, confesso que teria recuado e não teria me aventurado. Não que eu seja contra nos apresentarmos como a Natureza nos criou.  Muito pelo contrário!  O problema é que li muito Nelson Rodrigues e aprendi que Toda Nudez Será Castigada. Na verdade, cá entre nós, nudismo, para mim, somente entre quatro paredes!  

quinta-feira, 2 de agosto de 2018


SÃO PETERSBURGO

             Chamada pelos íntimos de Peter, às margens do Rio Neva, a belíssima cidade conseguiu me conquistar no primeiro minuto.  Tem a honra de ter tido dois grandes personagens da História da Rússia ligados a ela: Pedro, o Grande e Catarina, a Grande.   Guardadas todas as ressalvas possíveis em relação a cada um deles, foram considerados grandes estadistas.
                   A Rússia, esse país de dimensões espantosas, só não é maior do que minha vontade de conhecer o mundo; seu povo, culturalmente diversificado, apresenta profundos contrastes, com mais ou menos 200 culturas convivendo. Isso é fascinante, mas deve trazer muita dificuldade para agradar tantos grupos diferentes.  Um dos guias afirmou que o povo, como um todo, gosta de governantes fortes, que sejam capazes de lidar com tanta diversidade.  Há controvérsias.
                   Fundada por Pedro, o Grande, em 1703, no Mar Báltico, São Petersburgo só perde em tamanho para Moscou.  Pedro era muito desequilibrado, sabemos, mas tinha profunda visão de administrador.  Percebeu que a Rússia precisava de uma saída para o mar como alternativa para o principal porto utilizado, junto ao Mar Branco, sempre congelando nos invernos rigorosos.  Tratou de tirar dos suecos a pequena cidade que eles haviam fundado ali junto ao Mar Báltico, noventa anos antes.  Construiu logo o Forte Pedro e Paulo e foi em frente.  Os operários eram camponeses de todo o país e prisioneiros suecos.   No final, foram cerca de cem mil servos mortos.  Na história do homem, não foi a primeira, nem a última vez.
                   Em 10 anos, Pedro transferiu a capital do império para lá.  Somente depois da Revolução Socialista, em 1918, São Petersburgo, que passara a se chamar Petrogrado, perdeu de vez para Moscou o posto de capital.   E, com Lenin no auge, Petrogrado virou Leningrado logo em 1924.  Só voltou a ser São Petersburgo em 1991, por escolha da população mesmo.  Mesmo sem ser o centro administrativo do país, com seus cinco milhões de habitantes, é a preferida de muitos turistas.  Seu fantátisco centro histórico e os inúmeros monumentos são considerados patrimônio mundial da Unesco. E o Hermitage é deslumbrante, com mais de três milhões de peças em seu acervo, embora só vinte por cento estejam expostos.  Que museu! Vale uma visita atenta.  Dos cinco maiores do mundo, ainda preciso conhecer o de Atenas.  Mas como a Grécia está na minha agenda para o próximo ano, acho que logo resolvo essa lacuna cultural.
                   O grande poder militar russo, durante quase duzentos anos no período dos czares, não trouxe uma vida mais digna para a população.  Como sempre, só os nobres aproveitavam.  Tudo começou a mudar no início do século XX, com a Primeira Guerra Mundial, mas as brigas internas castigavam ainda mais a vida dos russos.  Em 1918, os Romanov tiveram o destino que conhecemos.  Eu me lembro que, durante um bom tempo, muitos acreditavam que a Princesa Anastácia havia se salvado e, por causa disso, algumas “candidatas”  ao cargo apareceram... mas como se diz hoje – eram fake news.  Em 2007, encontraram seus restos mortais e de seu irmão Alexei, que estavam em lugar diferente do resto da família, que foram descobertos em 1991.  Bem, essa é a história oficial.
                   A luta pelo poder entre os diferentes grupos fez grandes estragos, e a fome de 1921 matou cinco milhões de russos além dos que morreram na luta fraticida.  Para termos uma ideia, a Croácia, na moda agora, tem dois milhões e meio de habitantes.  No Brasil, seria o equivalente à população inteira de Sergipe somada à do Mato Grosso do Sul, cada uma com cerca de dois milhões e meio também.
                   Na Segunda Guerra, ainda com o nome de Leningrado, os quase novecentos dias do cerco sofrido custaram um milhão de vidas, em razão do frio, da fome, de muitas doenças e da guerra, mesmo.  Recebeu, então, com mais 3 cidades russas, o título de cidade heróica.  Os livros e filmes a respeito desse longo episódio mostram os horrores do mais longo e terrível cerco da história moderna.
                   Fui no verão, é claro, já que é uma das cidades mais frias do mundo.  A média no verão, sempre curto, é de 23 graus, enquanto no inverno, longo, escuro e úmido, é de 5 graus.  Mas pode chegar a menos 35 graus! Com neve são, geralmente, cerca de 120 dias... Eu tive sorte de nascer no Rio de Janeiro, nesse clima tão ameno.  Quando os termômetros marcam 20 graus, já estou procurando casaco. 
                   Para sobreviver a esse período gelado e, sem dúvida, menos alegre, a companhia mais procurada é o álcool.  Lembro que eu e Ana Miniati andávamos pelas ruas de São Petersburgo em uma sexta à noite, com as ruas cheias de jovens e velhos comemorando o verão, e sentíamos, no ar, o forte cheiro característico de destilados fortes.  Impressionante!  Se eu ainda fumasse, provavelmente provocaria um incêndio se usasse o isqueiro, pois o ar não tinha só nitrogênio e oxigênio.  Levava etanol em alto grau!!! 
                   Parti para as pesquisas.  Qual o consumo anual de vodka na Rússia?  80 litros por pessoa ao ano!  São diagnosticados alcóolatras cerca de seis milhões de pessoas. E vinte milhões bebem vodca todos os dias!  Os czares se preocupavam com isso, os líderes comunistas também... mesmo assim, atualmente, temos o mesmo nível de ressaca nas estatísticas.
                   A cidade, considerada a capital da cerveja da Rússia, produz trinta por cento do total nacional.  A água por lá é abundante e de ótima qualidade para a preparação da bebida.    E produzem vodca, também... mas disso, já sabemos.
                   Pelos filmes que retratam a máfia russa, temos noção da violência que impera pelo país todo. E São Petersburgo não escapa, com altos índices de suborno e crimes de rua. Nos anos 90, era conhecida como o quartel desses criminosos. E a intolerância racial tem crescido consideravelmente, infelizmente, como no mundo todo.  Uma gangue de supremacia branca tem assassinado estudantes universitários estrangeiros com frequência.  Como digo e repito - O homem é o lobo do homem.  
                   Trazendo temas mais leves à tona, nossa capital gaúcha é uma das muitas cidades irmãs de São Petersburgo, mas a da Rússia, pois existe uma com o mesmo nome na Flórida.   
                   Sinto uma inveja enorme.  São 221 museus, duas mil bibliotecas, mais de 80 cinemas, cem organizações de concerto, e outros tantos centros de cultura. Pois é, se não fosse tão fria e não tivesse aquele presidente, talvez eu quisesse ficar lá por um tempo.  A Veneza do Norte, com suas pontes, rios e canais, tem tanto para ser visto que, realmente, acho que tenho que voltar.
                   Comi o famoso estrogonofe.  Uma delícia!  Mas só cheguei até a porta do Palácio Stroganov, com “a”, mesmo.   O Barão que o mandou construir, Sergei Stroganov, era um excêntrico, dono de minas de sal e um gourmand daqueles, no sentido usado atualmente.  Outros, o chamariam de gourmet.  Bebia e comia com vontade, mas somente alta gastronomia.  Tive duas explicações sobre o famoso prato.  Uns me disseram que ele tinha um problema de dentes, e seu cozinheiro passou a picar a carne do prato que ganhou seu nome.   Outros me disseram que ele, uma vez, ao receber um hóspede ilustre, descobriu que este tinha um problema nas mãos e não podia cortar o escalopinho.  Mandou cortar em pedacinhos e misturar no molho.   Foi tão grande o sucesso que ficou para a posteridade.
                   O palácio está aberto à visitação, tendo um restaurante que serve, claro, o famoso prato no original, sem ser cortado.  Preciso experimentar.  No subsolo, tem um lugar especial, tipo esconderijo, para os ilustres.  Com um quarto que pode servir de hotel!  Deve ser o máximo.  Arranjei mais um motivo para eu voltar.
                   Falar de Catarina, a Grande, exige espaço e, por isso, vai ficar para outra crônica.   São muitas histórias, algumas picantes, outras assustadoras... Mandou matar o marido!  Enfim, só daqui a alguns dias. Até lá, espero que a curiosidade fique bem aguçada.

segunda-feira, 2 de julho de 2018



MÉXICO, UM PAÍS ENCANTADOR

                   Que eu iria gostar muito, tinha certeza, mas foi muito além do que imaginei.   História, cultura, o povo... já estou pensando em voltar, com muitos planos para ver o tanto que ficou no desejo. 
É o quinto país em tamanho nas Américas e, com sua consistente economia, consegue exportar mais produtos manufaturados do que todos os países latinos juntos! Não imaginava isso! Quanto à cachaça e a tequila, os dados da exportação são impressionantes – em 2015, foram 7 milhões de litros de nossa caçhaca que foram para 61 países.  E foram 180 milhões de tequila para 120 países.  Nossa...
São mais de cento e vinte milhões de habitantes e recebem, por ano, cerca de 30 milhões de turistas; parece que é o nono país mais visitado no mundo.   Nós, aqui, recebemos em 2016 um pouco menos de sete milhões. 
                   Foram muitas as civilizações que viveram na região, dentre as mais conhecidas as dos maias, dos astecas, dos olmecas e dos zapotecas.  Algumas, que duraram cerca de quatro mil anos, muito desenvolvidas, deixaram um grande legado, como observatórios, pirâmides, aquedutos, cidades planejadas, grandes avanços em astronomia, matemática... E o calendário com 365 dias!  Só que, quando Hernán Cortez apareceu, as coisas mudaram. 
                   A versão mais famosa sobre a chegada dos espanhóis diz que Montezuma, quando soube que “torres andantes” se aproximavam da praia, acreditou que se cumpria a lenda de que o deus Quetzalcatl voltaria, em forma de homem branco, com barba, amante da paz e contra os sacrifícios humanos, inaugurando uma nova era para seu povo...  Ao ver Cortez, teve certeza disso, recebendo o espanhol com todas as honras, presenteando-o e a seus homens com muitos objetos de ouro.   Não precisamos de muita imaginação para saber o que aconteceu depois, independentemente das versões que temos sobre o contato inicial.
                   Entre 1519 e 1521, as grandes civilizações daquele pedaço do Novo Mundo foram praticamente dizimadas, suas cidades destruídas, e sobre a cidade de Montezuma foi iniciada a construção da Cidade do México.  E a religião católica foi ganhando espaço - até a filha do imperador asteca ganhou o nome cristão de Isabel.
Mas não só os confrontos com os espanhóis foram danosos para os povos pré-hispânicos.   As doenças trazidas pelos europeus, como gripe, varíola e sarampo, fizeram uma grande parte do “trabalho”.  Estudiosos afirmam que morreram entre 7 e 8 milhões nesse período.  Anos mais tarde, outra epidemia matou 15 milhões de pessoas.  Essas doenças surgiram após a chegada dos europeus.  Enfim, foram várias as causas, e essas duas pesaram significativamente para o fim dessas civilizações.  Uma pena.
Da chegada dos espanhóis, transformando essa região no Vice-Reino da Espanha, até a declaração da independência em 1810, os povos que ali habitavam foram dominados e explorados pelos espanhóis, obrigados a seguir a lei da Espanha.  O povo nunca se conformou com as injustiças e exploração, mas somente com a inspiração vinda dos iluministas e da Revolução Francesa, a luta se instalou. E seus principais chefes foram dois padres católicos.
Como em qualquer processo desse tipo, não foi fácil... Em 1821, já com os espanhóis afastados do poder, o país ganhou o nome de México.  Foi monarquia independente, foi república, os franceses andaram por lá, voltou a ser monarquia, e o último imperador foi fuzilado... Eu não me lembrava de que Maximiliano era primo de nosso Pedro II.
Para as coisas ficarem ainda mais difíceis, enquanto se estabeleciam como independentes, envolveram-se em uma guerra contra os Estados Unidos, na tentativa de manter o território ocupado pela recém proclamada República do Texas.  Na verdade, um pouco antes de 1850, os mexicanos perderam, além do Texas, praticamente a metade de seu território,
Os protagonistas da história mexicana do complicado período pós-independência foram Benito Juárez, General Porfirio Dias, Emiliano Zapata, que lutou contra a ditadura de três décadas do General, mas foi traído e morto antes de conseguir libertar o país, e Pancho Villa.  Este, por muitos considerado um perigoso guerrilheiro, é aclamado pela maioria dos mexicanos como um defensor dos pobres, um verdadeiro herói popular.  Como sempre, cada um vê e analisa do jeito que melhor lhe interessa.  E a História é contada pelo vencedor.  Nessa luta do início do século XX, dez por cento da população foi morta.
Mesmo encantada com o México, devo confessar que sua culinária, com sabores fortes e picantes, não me cai nada bem.   Por isso, seus burritos, as enchiladas, os tacos, as tortillas não fizeram parte de meu cardápio.  O guacamole, dependendo dos temperos acrescentados, pode até me agradar.   A UNESCO declarou a gastronomia mexicana Patrimônio Imaterial da Humanidade.  Lamento não ter bom gosto.
Depois de assistir “Coco”, no Brasil intitulada A Vida É Uma Festa, animação premiada com o Oscar de 2018, fiquei fascinada com a festa do Dia dos Mortos que, no México, é uma das mais populares comemorações.  Pesquisei um pouco e adorei o que descobri.  Trouxe alguns enfeites para, esse ano, em dois de novembro, fazer aqui em casa uma versão brasileira desse evento.  Para eles, a morte representa a libertação, e nessa festa os mortos devem ser recebidos com alegria, para que tenham a vida eterna e feliz no reino deles.  A eles, são oferecidas as comidas, bebidas e músicas preferidas,
Adorei conhecer melhor a Virgem de Guadalupe que, em 1910, foi proclamada Padroeira da América Latina.  Poucos brasileiros sabem disso... eu não tinha ideia! Fui visitar sua basílica na Cidade do México, com seu impressionante movimento de devotos e visitantes.  Lembrei-me de nossa padroeira, em Aparecida, com sua basílica que me parece um pouco maior.
O que é dito é que, em 1531, o indígena Juan Diego teria tido a visão da Virgem, que se identificou como mãe de Deus, pedindo-lhe que instruísse o bispo a construir uma igreja em sua honra ali mesmo, ao pé do Monte Tepeyac, no norte da cidade.  O Bispo do México, é óbvio, não acreditou na história do jovem.  Juan Diego teria recebido dela, então, a instrução de recolher algumas flores cortadas daquele monte e as levasse ao bispo.  Assim o fez. 
E, naquele doze de dezembro, na frente do representante do Vaticano, ao desdobrar a tilma, todos viram estampada a imagem de N. Sa. de Guadalupe, morena, com traços mestiços!  A respeito da tilma, que era o manto que os homens da região usavam naquele período, afirmam os especialistas que o tecido com que era feita tinha pouca qualidade, com duração de apenas 20 anos; essa, com a santa imagem, tem quase 500 e continua perfeita!  Não vi, confesso, pois o guia não nos levou para ver.  Só me dei conta depois.
Voltando ao fato - impressionado, o Bispo mandou construir, naquele mesmo ano, a primeira igreja em honra da Virgem, inaugurada apenas em 1709!  O dia 12 de dezembro é a ela consagrado, e cerca de três milhões de devotos visitam o santuário nesse dia.  Não pretendo estar lá nesse dia.
Atualmente, no México, o culto à Virgem é muito amplo, e sua força se fez muito presente em toda a sua história.  O interessante é que, dentre seus milhões de fiéis, muitos que professam o guadalupanismo não se consideram necessariamente católicos.
Com o tempo, alguns milagres foram atribuídos a ela, e o manto de Juan Diego tornou-se o símbolo religioso e cultural mais popular do país.  Entretanto, alguns estudiosos duvidaram publicamente da existência desse indígena.  Mesmo assim, ele foi canonizado em 2002, sob o nome de São Juan Diego Cuauhtlatoatzin. Foi o primeiro indígena americano a ser tornar um santo católico.  
São duas basílicas no complexo de Guadalupe, a primeira do século XVI e a nova, concluída em 1976.  Como a Cidade do México foi construída em cima de um lago aterrado, essa nova basílica foi necessária em razão do afundamento daquela original. Foi recuperada, entretanto, e desde 2000 missas são rezadas todos os dias.  Achei muito bonita.
Na nova, bem moderna, cabem 10 mil pessoas, mas nas grandes celebrações, temos 40 mil lugares.  A de Aparecida comporta 43 mil fiéis, embora tenha menos visitantes por ano, com 13 milhões em 2017.  A de Guadalupe recebe, em média, 20 milhões anualmente.  Algumas vezes, supera as visitas à de São Pedro do Vaticano. 
Encantada com a Virgem de Guadalupe, trouxe sua imagem para proteger minha casa, junto com N.Sa. de Aparecida.  As duas poderão revezar-se na tarefa.  Terão tempo para atender a outros devotos, pois eu não darei muito trabalho.  Prometo esforçar-me... Se terei êxito ou não nessa tarefa hercúlea, isso já é uma outra história.
Como não poderia deixar de ser, tem uma história de rainha, que não sei se podemos acreditar.  Carlota, esposa de Maximiliano do México, era belga, e parente de um sem número de reis e rainhas do mundo.  Teve vários pretendentes, inclusive Pedro V, de Portugal, mas estava apaixonada pelo austríaco.  E com ele se casou.  Foram para o México quando a França andou por lá, e Napoleão III quis um aliado para manter seu domínio no Novo Mundo.  Visitei o bonito palácio de Chapultepec, onde viveram durante o curto período de reinado.  Diz a história que, em 1867, quando os franceses tiraram o apoio ao imperador mexicano, ela partiu para a Europa, procurando apoio para o marido.   Ao perceber que não tivera sucesso, teve um colapso nervoso, acabando por enlouquecer de vez quando o marido foi executado pelos revoltosos mexicanos. Essa a história oficial.
Na verdade, ouvi uma história bem apimentada.  Ligando o palácio onde o casal vivia a outro ponto do bosque de mesmo nome, foi construído, a pedido dela, um “paseo”, que ganhou o nome de Paseo de la Emperatriz.  Contam as más línguas que ela saía em carruagem fechada e, no meio do caminho, entrava um capitão mexicano que, depois de um tempo, saía ao final do caminho. Dizem, inclusive, que ela estaria grávida desse capitão e que por isso teria partido para a Europa.  Estou contando o que o guia mexicano relatou para nós, turistas curiosos.  Enfim, tem sempre uma história a ser contada, mas que acaba virando folclore.
Acaba de ser eleito o novo Presidente do México.  Falou-se na violência que existe por lá.  Fui verificar – foram 21.5 mortes por 100 mil habitantes em 2016.  Nós, aqui no Brasil, temos uma taxa pior... Foram 25.2 em 2017.  Infelizmente, ambas as taxas são muito altas, mas não temos como dizer que estamos em melhores condições.  Porém, no futebol, estamos na frente.   Conseguimos ultrapassar o ataque do primeiro tempo, para fechar o jogo com uma vantagem bem confortável. Aquela pisada no Neymar foi desprezível, ato indigno de um atleta. Vamos em frente, jogando o melhor possível.  Prefiro lembrar-me de como os mexicanos nos acolheram em 1970, torcendo por nós depois que o time do país foi eliminado... Éramos a segunda opção deles.  
México, aguarde-me!  Voltarei para poder conhecer mais de sua capital, com mais de 20 milhões de habitantes... e que, apesar de tanta gente, é uma cidade muito limpa!  Quero curtir seus maravilhosos museus e monumentos, e conhecer melhor esse povo hospitaleiro, alegre, colorido, e, sem dúvida, com uma bela história de luta, de amor à arte, à tradição e à liberdade.



quinta-feira, 14 de junho de 2018


COMO SELECIONAR E SEGURAR UM MARIDO

                        Minha paixão por livros faz das suas, vez por outra.  Sempre saio com um, são muitos momentos deliciosos mergulhada nas palavras de excelentes escritores, seja na viagem de metrô, na fila do banco, na sala de espera do médico...
                        Outro dia, apressada, esqueci. Na viagem de ida ao Centro, resolvi assuntos pendentes por celular; na volta, na estação Carioca, por sorte, há uma ”geladeira” com títulos para muitos gostos e desgostos.  Um deles, de Anatole France, só tinha o segundo volume.  Os outros, na verdade, não me atraíam nem um pouco. Porém, tive um “estalo de Vieira ao me deparar com TÉCNICAS DE RH PARA SELECIONAR E SEGURAR MARIDO”. Não resisti. Quem sabe uma divertida crônica?  Entrei no vagão superlotado, pensando em Santo Antonio.   Será que está perdendo terreno para a técnica?  Será que vai ter, finalmente, um descanso?
                        Comecei a ler na hora!  Tratei de esconder a capa, para que os ilustres passageiros não imaginassem estar diante de uma desesperada velhinha à procura de um marido.  Seria um mico tamanho gorila, mas arrisquei e lá fui eu, rindo sozinha. João José da Costa é carioca, advogado e administrador, com longa experiência em RH de grandes empresas, segundo a orelha.  Escreveu também “Como enrolar seu chefe e progredir na empresa”, título que já diz tudo, e “Afrodite S.A”, sobre as consequências de relacionamentos amorosos nas empresas. 
                        Fui direto ao terceiro capítulo, interessada nas técnicas de recursos humanos para a seleção de um marido, ou companheiro.  Horas tantas, o autor afirma:

“Essas técnicas são perfeitamente aplicáveis à seleção e retenção de um marido, e você pode adotá-las na certeza de que estará imprimindo uma racionalidade à decisão na hora do SIM. Avalie essa sugestão com o carinho que ela merece. A seleção de um marido é talvez a ação mais importante de toda a sua vida”.
Senti calafrios... era mesmo o que estava escrito: talvez a ação mais importante de toda a sua vida.  Fui em frente, apesar disso. O autor estabelece passos a serem seguidos, indicando, primeiramente, o que as empresas fazem para contratar um funcionário. Logo a seguir, traz questionamentos, sugere atividades e atitudes com o foco marido, para a casadoira determinar o que realmente quer. No prefácio, disse que aos homens o assunto igualmente interessa, mas que são mais mulheres a fazer escolhas erradas.  Será?
O passo seguinte é estabelecer requisitos e competências. Encontro enumerados cerca de cinquenta para a escolha de um funcionário.  Para marido, não consegui contar, mas sei que nem mesmo um príncipe dos contos de fadas seria capaz de atender a tantas exigências.  As primeiras classificadas causaram novos calafrios – bonito e rico.  Inteligente ficou em terceiro lugar.  E por aí vai.  Vi coisas do arco-da-velha.
Segundo o autor, os pré-requisitos estabelecidos servem de base a um guia de entrevistas para selecionar eventuais candidatos.  A entrevista, nunca rígida e formal, deverá vir encaixada em conversas aparentemente descompromissadas e em diferentes oportunidades.  Eu traduzo: seja bem dissimulada, conversando como quem não quer nada, mas preparando a armadilha para, se valer a pena, levá-lo ao altar.
Muito divertido foi ver as instruções para escolher as fontes de recrutamento.  Vai depender, segundo ele, dos requisitos que a pessoa estabeleceu.  Por exemplo, se estiver atrás de um médico, vale frequentar congressos, seminários, pedir a algum amigo médico que a leve a eventos onde possa encontrar “o marido certo”.  Se quiser um estrangeiro, o melhor é ir atrás de algum conhecido da área de turismo... ou seja, uma verdadeira caçada, com planejamento e táticas de guerra! Pobre “caça”.
Sugeriu, como alternativa, agências de casamento, bares e boates de boa reputação, bem como sites de relacionamento.  Chegou a comentar que nas atividades religiosas também podem ser encontrados “bons partidos”.  E termina o conselho – use o máximo de sua criatividade!  Enquanto leio, peço aos céus forças para continuar analisando todas essas “instruções”.
Sobre as condições de contratação, levanta uma questão importante. Tendo em vista que a mulher estabeleceu requisitos e competências para o seu escolhido, ela deve perguntar a sim mesma: - Sou competitiva em um mercado com tantas mulheres em busca de um marido?  O que tenho realmente a oferecer? Em poucas palavras: Você está mesmo com essa bola toda?  Tem algo de bom a oferecer em troca?  Perguntinha danada, essa.  Deve pegar algumas pelo pé.
O Passo 6 – triagem para determinar os três melhores candidatos - provavelmente tem mais sentido no foco empresarial.  Já no foco marido, se acontecer, tal moça deveria ser objeto de programa Globo Repórter.  Os três melhores?  Quantos eram? O autor deve ter pensado na Gisele Bundchen.  Simples mortais teriam tantos assim? Vamos ao que interessa – as mulheres, segundo o que li, estão em vantagem em relação às empresas, pois o período de namoro oferece um número bem maior de oportunidades para que se descubra o candidato “certo”.  Na empresa, são poucas horas de entrevistas. 
No entanto, se nem assim for possível ter certeza de que aquele é o homem para dividir o resto de sua vida, temos, no livro, a solução, que transcrevo para que ninguém fique em dúvida se estou inventando: “Leve-o para uma “entrevista” com seus pais e ouça, principalmente, sua mãe. Coração de mãe nunca falha!” Com ponto de exclamação e tudo.  Só cortando os pulsos.
Respiro fundo e prossigo.  Próxima etapa – tomada de referências. Sobre o  foco profissional, já sabemos o que deve ser feito.  Foco marido: pegue referências, descubra seus hábitos e comportamentos, ética, eventuais vícios, que conceito desfruta no trabalho, como se relacionou com as namoradas anteriores, o que faz na vida quando não está com você. Ter certeza do que faz ou onde está quando você não está de olho é difícil. Não vi escrito, mas acho que talvez seja necessário contratar um detetive particular. 
Essa próxima etapa é interessante – negociação final para efetivação da contratação.  Direto ao que interessa – foco marido!  Recomenda, nessa altura, exames médicos, embora admita não ser uma questão simples.  Inclui, nessa conversa séria, assuntos como regime de bens a ser estabelecido, tipo de moradia, bairro escolhido, divisão de despesas, organização do ambiente doméstico, responsabilidades de cada um na administração da casa, estilo de educação da prole que virá, filosofia de relacionamento com sogros e cunhados... lembro-me de ter lido algures que cunhado não é parente, mas acidente.
Relutante, consigo avançar e chego ao Passo 9 – Formalização legal da contratação.  Pulo a parte empresarial.  Marido - diz apenas que se formaliza através da certidão de casamento.  E afirma que a fase de contratação do marido “certo” se encerra nesse ponto e que há que se tratar agora de COMO SEGURAR SEU MARIDO.
Para não perdermos mais tempo, trago um resumo do tema através das pérolas encontradas no texto.  É bom respirar fundo antes de começar.
- O seu trabalho não deve parar por aí.  Novos esforços de sua parte são necessários para mantê-lo motivado, retê-lo em casa na condição de marido, melhorar sua atuação e desempenho e assegurar um ambiente doméstico agradável para que ele se sinta bem.
- É igualmente importante manter e aprimorar suas condições de competitividade como esposa em um mercado em que a disputa por homens de valor estende-se também aos homens bem casados!
- Você pode programar um evento depois de seis meses do casamento, para uma conversa franca e aberta sobre a realidade constatada por você versus os requisitos e competências estabelecidas. E repetir isso anualmente, no aniversário de casamento.
Obs – Seria o que chamamos de uma oportunidade para discutir a relação – DR. O autor inclui uma lista de questões que podem/devem ser abordadas.  Desisti de contar, mas cabe trazer essas que parecem de 1940 – “que você está sentindo falta de receber aconchego e proteção, sentir-se bem amparada, que gostaria que ele passasse mais segurança...” Em tempo, alerta que o marido também pode vir com a lista dele!  Claro que vai haver um toma lá, dá cá.  Confesso - um livro de 2011 apresentando isso causa em mim profunda aflição.  
- Em algum momento, se o desempenho e o comportamento dele sofrerem desvios graves e sérios que, caso continuem, podem levar você a pedir divórcio, aplique uma “probation evaluation”.  Seja enfática e firme, dando ao seu marido uma última oportunidade.   Findo o prazo concedido, se não houver progressos importantes e convincentes, siga com o processo de divórcio.
Obs: Tipo – ou dá, ou desce!
- Sendo importante que seu marido se sinta bem em casa, permita que ele crie alguns ambientes personalizados.  Nesses “territórios particulares”, não se preocupe muito com excesso de organização, ordem e limpeza.  Mas, como regra geral, a mulher deve manter e inovar para assegurar boas condições domésticas....
Obs – nesse ponto, a lista das “tarefas” femininas aparece. Impublicáveis.   O autor mesmo se pergunta: ”Visão machista? Não foi minha intenção.”
- O desafio após o casamento é desenvolver todos os esforços para manter e aprimorar suas condições de competitividade no mercado de maridos certos, aprimorando suas condições de contratação originais.
- A paciência, a calma e a disposição de vencer todos os desafios serão atributos importantes, para os dois... Mantenha uma expectativa realista a respeito do casamento, abrindo mão ou minimizando a importância dos requisitos e condições de contratação.  
Obs – ele mesmo se pergunta: “Conclusão paradoxal, não? A felicidade do casal está relacionada à flexibilidade e à tolerância que ambos demostrarem. Não há como esperar que o marido certo seja exatamente como as condições de contratação estabeleceram”.  Ou seja, deve ser elaborada uma lista de requisitos e competências, mas não será levada ao pé da letra!
Depois disso tudo, será que as mulheres não vão preferir ficar mesmo com Santo Antonio?  Não será mais fácil contar com o santo casamenteiro do que aplicar todas essas técnicas?  O que seria mais eficaz - sobrecarregar o Santo ou envolver-se nessa loucura técnica?
Na dúvida, aqui vão simpatias para conseguir um marido.  Antes, uma curiosidade.  Reza a lenda que uma jovem que desejava se casar armou um altar para o santo em sua casa.  Rezava todos os dias... nada!  Depois de alguns meses, desesperada, pegou a santa imagem e atirou-a pela janela.  Não é que atingiu a cabeça de um jovem que passava por ali naquele momento?  Conversa vai, conversa vem, apaixonaram-se e, com isso, a fama cresceu.   Além disso, como naquele século XII, as famílias das moças eram responsáveis pelo dote a ser oferecido ao noivo, famílias pobres foram ajudadas por ele, protetor dos menos afortunados.  Sem dúvida, ajudava as moçoilas a casar.  Daí para a frente, não teve mais sossego.
Voltando às simpatias.  Pegue uma vela e escreva nela o nome de seu amado.  Espalhe mel por toda a vela (menos no pavio, claro).  Acenda em um recipiente branco.  Em alguns dias, essa pessoa dará notícias.  Espero que não seja para avisar que casou com outra.
Mais algumas. Amarre um fio de seu cabelo no do seu namorado e coloque aos pés da imagem dele. Do Santo.  Outra: Enterre a imagem do santo de cabeça para baixo em um poço.  Acho essa de um mau gosto incrível.   Uma bastante curiosa é a que se deve rezar o Pai Nosso pela metade, já que a tradição afirma que ele não gosta de orações incompletas; assim, o santo vai atender logo o pedido para que a parte final seja rezada. É possível também doar pães aos pobres no seu dia, 13 de junho.  O difícil é que tem que ser o seu peso em pães.  
Considero a última simpatia que trago igualmente reprovável.  Compra-se a imagem dele em madeira de guiné.  No dia dele, separa-se o Menino Jesus e roga-se: “Santo Antonio, Santo Antonio, faça o (....) casar comigo que devolvo seu menino.” Eu considero tratar-se de um sequestro com pedido de resgate.  No lugar do Santo, deixava ficar para titia.
Pois é. Alguém me disse que temos que beijar muitos sapos para conseguir encontrar um príncipe.  Falando sério: técnicas de Recursos Humanos?  Simpatias para o Santo?  Há uma terceira via - deixar o destino dar conta do recado.  Podem aparecer belas surpresas.