CATARINA II, AINDA...
Acho que nem duas conversas sobre Catarina II serão
suficientes; porém, decidi contar apenas o que descobri de mais interessante,
terminando o assunto por aqui. Impossível
assegurar que foi o que realmente aconteceu. Posso apenas trazer a versão
oficial mais aceita, recheada com fofocas que sobreviveram ao tempo.
O período de seu reinado foi classificado como a Era
de Ouro do Império, com a marcante expansão das fronteiras russas, conseguida através
de conquistas militares e do trabalho de seu habilidoso corpo diplomático. Anexaram a Crimeia, boa parte do Cáucaso e da
Ucrânia, Bielorrússia, Lituânia e Letônia. Com isso, o império aumentou
substancialmente sua influência no mundo, naquela segunda metade do século
XVIII.
A Grande, como era chamada, tinha muitas ideias,
algumas bem polêmicas, convenhamos, mas recebia
sempre sugestões e orientações de seus favoritos, generais e almirantes que conseguiam
exercer algum controle sobre ela. Trocava constantemente correspondência com
importantes intelectuais pelo mundo.
Criar a Universidade de Moscou, permitir a liberdade de culto e dividir o
enorme território em províncias foram algumas de suas muitas ações. A Carta Régia da Nobreza que conferiu aos
nobres garantiu a eles isenção de impostos, como também os liberou do serviço
militar compulsório. Conto isso para
confirmar que o corporativismo vem de longe...
Inspirando-se em Pedro, o Grande, um louco dotado de
grandes habilidades como governante, continuou a revitalizar o império,
seguindo os modelos da Europa do Oeste.
A oposição não lhe dava sossego, mas conseguiu superar os
adversários. Quando subiu ao trono,
havia outros pretendentes que se consideravam com direito a assumir. Na
verdade, Catarina não correu grandes riscos, pois seus assessores trataram de
resolver os problemas. Havia um mais perigoso. Ivan VI fora nomeado Czar por sua tia-avó
Ana Romanov, em 1740, quando tinha seis meses de idade. Mas Elizabeth II
(Isabel II), também uma Romanov, através de um golpe de estado em 1741, assumiu
o poder, aprisionando o menino, de um ano e pouco apenas, com toda sua família,
procurando evitar dificuldades. Era
filha de Pedro, o Grande, e se achava com mais direito ao trono do que o
pequeno. Bom lembrar que foi ela foi
quem deixou o trono para Pedro, que assumiu como Pedro III quando ela faleceu,
como também havia escolhido Sofia/Catarina II para se casar com ele.
O pobrezinho
do Ivan VI tentou resgatar o direito ao Império quando Pedro III foi assassinado. Doce ilusão - os aliados de Catarina não
permitiram. As ordens dela foram claras - perante qualquer tentativa de fuga, deveria
ser fuzilado. E isso realmente aconteceu dois anos depois. Foi eliminado, sob a desculpa de que
enlouquecera ao ficar enclausurado por toda a vida, e de que não seria um bom
governante. Dizem que ele estava mesmo
fora do juízo normal, o que não seria de se estranhar depois de ter passado
praticamente os vinte e três anos de vida como prisioneiro do império.
Catarina, como
sabemos, adorava os homens; isso, no entanto, nunca a impediu de ser uma
feminista. A primeira instituição
financiada por um estado europeu para educação superior de mulheres foi criada
por ela. Outro fato a ser comentado é
que não descendia dos Romanov, e sim da dinastia que os antecedera. Por isso, até hoje existe uma questão
polêmica. Qual seu verdadeiro
status? Regente ou usurpadora? Muitos
entendem que seria tolerada apenas como regente durante a minoridade de seu
filho Paulo.
Mas nem
seu herdeiro, com seus seguidores, tiveram êxito nas tentativas de tirar-lhe a
coroa. Afirmava que o filho era um
fraco, garantindo-se no trono enquanto viveu.
Se não deu espaço para o próprio filho, imagine como lidou com os
estranhos. Ele somente assumiu após a
morte da mãe, como Paulo I, mas reinou apenas por quatro anos e quatro
meses. Ao recusar-se a abdicar, foi
morto e sucedido por seu filho Alexandre I.
E ainda tem gente que gostaria de pertencer à nobreza. Em compensação, com a numerosa família que
constituiu com a segunda esposa, garantiu que quase todas as famílias reais da
Europa sejam seus descendentes diretos.
Dentre eles, temos o Príncipe Charles, da Inglaterra, por parte de pai,
o Rei da Suécia, casado com a brasileira Silvia, a Rainha Margarida II, da
Dinamarca, Felipe IV, da Espanha, por parte da mãe, e muitos outros.
Na
verdade, nem tudo realizado por Catarina pode ser aplaudido. Logo que subiu ao trono, fez uma grande
reforma no Senado, tirando parte do poder do órgão, como também assumiu terras
da Igreja e dos camponeses, sem a menor cerimônia. Embora tenha até mesmo pensado em abolir a
escravatura, não o fez, ao perceber que os nobres não iriam gostar: ou seja,
aos nobres, tudo, ao povo, quase nada.
Para sermos justos, algumas medidas beneficiaram os servos, classe
numerosa na Rússia, mas absurdos continuaram a ser cometidos. Por todo o descontentamento que despertou,
precisou enfrentar várias rebeliões também dessa classe de súditos, pois nunca
aceitaram que houvesse destronado Pedro III, esse, sim, autor de decreto que
libertava aqueles que eram ligados à Igreja Ortodoxa. Venceu a todos.
Em razão
de sua ligação intelectual com Voltaire, Diderot e outros iluministas
franceses, foi considerada uma déspota esclarecida. Escreveu comédias, novelas moralizantes,
imaginem, e até mesmo uma autobiografia.
Adorava arte, e sua coleção particular deu origem ao monumental Museu
Hermitage, que agora ocupa todo o Palácio de Inverno de São Petersburgo. Fiquei impressionada com a grandeza. Catarina trouxe para a corte russa um sem
número de intelectuais e procurou aplicar princípios do Iluminismo em suas
ações. Na verdade, precisou imprimir um
ritmo mais lento à adoção de tais princípios, ao perceber que seus conselheiros
mais moderados e experientes não concordavam com muitos deles. Acreditava na Educação como modo de modernizar
o espírito e as ideias russas, o que me faz olhar para sua história com um
pouco mais de simpatia. Entretanto, seus esforços na área não renderam tantos
frutos quando imaginou, e o universo das crianças atendidas por seus projetos
foi pequeno quando se leva em conta a população russa. Justiça seja feita – tentou!
Voltando
ao tema amoroso - um de seus inúmeros amantes foi Grigory Potemkin. Fácil de
lembrar, pois o encouraçado de mesmo nome ficou para sempre na História e na
nossa memória. A revolta de seus
marinheiros foi o prenúncio da revolução russa de 1917 e o filme de Eisenstein
é um dos grandes clássicos de todos os tempos.
Tive a sorte de assistir, em Paris, o ballet de Kiev encenando a
história do navio e da revolta em uma coreografia moderna. Inesquecível.
Voltando ao amante. Esse oficial,
um exímio marechal de campo, pelo que se sabe, foi das pessoas mais ligadas a
ela. Muitos historiadores os consideram dois dos maiores estadistas da
Rússia. Recordando as fofocas da época,
vale dizer que ambos eram conhecidos pela insaciável disposição para o sexo. Com isso, teriam formado fantástica parceria
na política, no campo militar e na cama. Adoraria ler as picantes cartas
trocadas entre eles, que foram muitas.
Catarina
teve outro Grigory como amante, este da família Orlov. Eu já havia falado nele
na outra crônica, quando contei que seu irmão caçula foi um dos suspeitos do
assassinato de Pedro III. Marcou muito a
vida dela, e chegaram a ter um filho, Alexei Bobrinskoy, que ela criou bem
longe da corte. Na verdade, filhos não foram
prioridade.
Embora
eu não vá perder tempo listando os muitos amantes de Catarina, já que não interessa
mesmo, vale comentar que, ao final de seus romances, costumava oferecer uma boa
vida para os que mandava ir adiante. Não
sei se para todos, mas não foram poucos os que receberam títulos e postos
importantes e, junto, bons rendimentos.
Um deles chegou a receber o trono da Polônia como recompensa.
Dizem
que ela chegou a ter vinte e três amantes.
O último teria vinte anos, enquanto ela acabara de completar sessenta.
Também contam que vários deles realmente se apaixonaram por ela. Imagino como era sedutora! A fama de amante
incontrolável e sedenta por experiências tórridas não perdeu força com a
passagem dos séculos. Há fofocas até
mesmo de que fazia sexo com animais.
Encontrei uma história de que não teria morrido em consequência de um
AVC, e sim quando o cavalo com quem estava pintando e bordando teria caído em
cima dela. Prefiro achar que foram os
inimigos, com ódio dela, que inventaram isso; entretanto, não há como
saber. Vamos valorizar a versão oficial
de que morreu mesmo de um derrame cerebral.
Antes de
encerrar a conversa sobre a vida amorosa de Catarina II, devo repassar a
história contada pelo guia que me acompanhou na Rússia. Era, como sabemos, uma observadora da “paisagem”. Olhava, encontrava o alvo perfeito e
prontamente recomendava a uma determinada condessa, de sua total confiança, que
fizesse uma entrevista com o tal objeto do desejo. Essa entrevista, na verdade, não se resumia a
uma conversa franca, onde eram repassadas ao rapaz as preferências da
madame. Era também realizada uma prova
prática. Caso a entrevistadora o
aprovasse nesse vestibular amoroso, poderia, então, frequentar os aposentos
imperiais. Pois é, e há quem diga que a atual liberdade
sexual ultrapassa todos os limites. Em tempo, Catarina II jamais admitiu ser
traída por esses amantes. Por outro lado, o marido podia fazer o que quisesse,
e ela até adorava saber que ele estava entretido com as amantes. Queria distância!
Um
detalhe interessante – embora fã dos Iluministas, depois da Revolução Francesa,
Catarina rejeitou muitos daqueles princípios.
Claro que os movimentos democráticos que se espalhavam pelo mundo iam
contra seus interesses, e ela, esperta, ficou preocupada.
Outra
coisa que impressiona até hoje é como ela, de baixa estatura, conseguia exercer
um domínio sobre praticamente todos que dela se aproximavam. A pintora Vigée Le Brun, que havia sido a
pintora da corte de Maria Antonieta, descreveu com precisão um de seus
encontros com ela: “As duas portas se abriram
e a Imperatriz apareceu. Como havia dito, ela era bem pequena, mas quando ela
fazia aparições públicas, mantinha a cabeça erguida, apurava seu olhar aquilino
e mostrava um semblante acostumado ao comando; tudo isso lhe dava tal ar de
majestade que ela poderia ser a Rainha do Mundo”. Essa era Catarina.
Esclarecida,
mas era uma déspota e, podemos enumerar outros tantos “atributos”, por assim
dizer. Nunca saberemos como era realmente.
Refletindo sobre isso, tento imaginar se ela seria quem foi se tivesse
ficado na Prússia e se casado, por exemplo, com um príncipe alemão prepotente? Ou entrado em um convento? Pois é, concordo com Ortega y Gasset. Nós somos nós e as nossas circunstâncias... circunstâncias
essas que são nosso dilema, sempre novo, e diante do qual temos que decidir. E o que ao final decide é o nosso caráter.