COMO HAVIA IMAGINADO
Julho 2017
Estocolmo é, realmente,
do jeitinho que eu sempre imaginei. Uma
cidade limpa, com prédios imponentes, e o finalzinho da primavera deixa o céu
deslumbrante, com uma temperatura parecida com a do inverno no Rio de Janeiro. As pessoas se mostram simpáticas e risonhas. Acredito que seja assim no país todo. Só não reparei nas lindas louras suecas, com
pele bronzeada, cabelos maravilhosos... Por isso, nem me perguntem o que achei.
Confesso que a
Escandinávia nunca fez parte de minha agenda de viagens, e somente me lembrava
da Suécia quando falavam no premio Nobel. Só descobri agora que o Nobel da Paz,
sempre tão badalado, é entregue em Oslo, e os outros todos é que são em
Estocolmo! A primeira premiação foi em
1901, ano em que a Suécia e a Noruega ainda formavam uma união. Quando se separaram com razoável
tranquilidade em 1905, ficou decidido que o da Paz seria atribuição da Noruega. Os outros, da Fisiologia ou Medicina,
Literatura, Física, Química e, depois, o de Economia, somente atribuído a
partir de 1968, ficaram sob a responsabilidade da Suécia. Em tempo, dentre os que receberam o da Paz,
há nomes que não são unanimidade. Por
isso, não vou entrar no assunto. Gosto é gosto, não se discute. Apenas, lamenta-se.
Em tempo – fiquei surpresa
em saber que foi Alfred Nobel quem inventou a dinamite! Anos depois, desolado com o uso de explosivos
para fins nada nobres, decidiu criar o famoso premio para os que realmente
atuam em prol da humanidade. Há quem
diga que Santos Dumont teria dado cabo da própria vida pelo fato de o avião
estar sendo usado como arma de guerra. Fácil
imaginar a frustração e arrependimento desses inventores.
O que mais me interessa
é o de Literatura, e já li vários dos laureados. O último a receber, o
americano Bob Dylan, despertou muitas discussões, e fiquei um pouco desconfortável
com a escolha. Dos mais recentes, sou leitora assídua de dois – Saramago e
Coetzee. .óbvio que nem sempre caio de amores, mas sempre vale a pena ler o que
eles escrevem E os nossos latinos
Gabriel Garcia Marques, Neruda e Mario Vargas Llosa também ocupam lugar
especial na alma desta leitora inveterada.
Embora tenhamos vários escritores brasileiros com excelentes obras, nenhum
foi agraciado. Enfim, nada a fazer.
Voltando à Suécia, devo
reconhecer que a viagem me ajudou a descobrir um pouco mais desse país, sobre o
qual nós pouco sabemos além do fato de ser o rei casado com a filha de uma
brasileira. Cá entre nós, ouvi dizer que
ela nem mesmo fala nossa língua. E o rei só tem poderes e funções meramente
oficiais e cerimoniais. Portanto...
Até o século XVII, a
Suécia não tinha qualquer expressão politica.
A partir de então, alguns monarcas visionários e capazes trouxeram
grande desenvolvimento ao pequeno país, com ênfase no poderio militar. Saíram conquistando os territórios vizinhos,
com razoável sucesso. Com o tempo, tiveram que devolver grande parte deles, e hoje
essa monarquia constitucional apresenta excelentes índices de desenvolvimento
humano e de democracia, sendo uma sociedade que se caracteriza por invejável
justiça social. Tem menos de 10 milhões
de habitantes, com um milhão e quatrocentos mil morando em Estocolmo. Para se ter uma ideia, o Estado do Rio de
Janeiro, em 2014, tinha um pouco mais de 16 milhões de cidadãos.
O governo é
parlamentarista, e o interessante é que os ministros, somente através de
decisões políticas, podem influenciar as agências governamentais, que são os
órgãos executores de cada ministério. Não
podem se meter muito. Talvez seja uma
boa ideia.
O prédio da Prefeitura
de Estocolmo é muito interessante, e um de seus destaques é o Salão Azul que,
na verdade, tem as paredes de tijolinhos vermelhos. Só que, junto ao teto, as
paredes são substituídas por vidros, e o azul do céu fica sempre à vista... na
verdade, nem sempre.
Nesse salão, realiza-se
o banquete anual do Premio Nobel, e há um fato interessante a se comentar sobre
a escada que dá acesso aos outros salões.
Os degraus foram milimetricamente construídos, após estudo feito pelo
arquiteto responsável. Cá entre nós, foi um estudo prático - pediu à esposa que
subisse e descesse diversas escadas, com degraus de diferentes dimensões, usando
um vestido longo e saltos bem altos. A
cobaia deu conta do recado, e a escada e degraus por ela escolhidos me pareceram
apropriados para nós, mulheres, em nossos trajes de gala.
Fiquei encantada com o belíssimo
trabalho no teto do Salão do Conselho, onde se reúnem uma vez por mês os 101 vereadores
de Estocolmo, atualmente com as mulheres em maioria. Lá, as sessões começam às 4 da tarde, pois os
vereadores são cidadãos comuns que trabalham como todos os outros. Não recebem salário! Recebem uma ajuda de
custo de cerca de 250 dólares por mês.
Se for muito longa, e saírem depois das 10 da noite, o gasto com o taxi
é reembolsado. Estabelecem a pauta da
sessão, com os assuntos que realmente interessam, e não ficam de conchavos e
fofoquinhas políticas, fingindo que trabalham.
O deslumbramento visual
veio quando entrei no Salão Dourado, revestido de mosaicos belíssimos, preparados
com mais de 18 milhões de pastilhas. Vi
uma representação da Torre Eiffel com o 14Bis voando em volta. De novo, penso no Santos Dumont. Realmente, vale a visita.
O clima. Chove pouco, mas o frio, sobretudo na
Lapônia, é para ninguém botar defeito.
Um amigo que morou lá, dos 18 aos 25, disse que é muito difícil. Em Estocolmo, a temperatura máxima no verão,
em média, é de 22 graus... No inverno, a média é de menos 5! Assim, o melhor período para ir é no final da
primavera e no verão.
Mas nem tudo é sempre
tão perfeitinho... o VASA, um dos pontos de maior interesse turístico daquele
país, traz de volta um vexame do século XVII.
Em sua viagem inaugural, em 1628,
aquele que seria o mais possante navio de guerra sueco afundou a menos de 2
quilômetros do ponto de partida! Com as
técnicas da época, nem mesmo foi possível retirar do fundo do golfo os poderosos
canhões que o guarneciam. E ficou
esquecido no tempo.
Mais de 300 anos depois,
a tecnologia avançadíssima possibilitou a recuperação dos destroços, e em 1961
trouxeram o VASA de volta à superfície.
O casco estava quase intacto, o que foi uma enorme surpresa. O guia disse que a água do Golfo da
Finlândia, naquele local, apresenta um grau bem leve de salinidade, e a madeira
não foi muito afetada. Visitei o museu
onde está exposto, e vi que é realmente impressionante a imponência do tal vaso
de guerra. Dois fatos contribuíram para
o insucesso: primeiro, foi o grave erro de projeto, que previu um lastro incompatível
com a altura do navio e, depois, a pressa em colocá-lo em uso - o Rei Gustavo
Adolfo voltava de uma viagem e não admitia adiamento. Um inquérito aberto para
descobrir os responsáveis acabou em pizza... pois é, até lá, às vezes, pode
acontecer.
Deixando de lado esse
fato desastroso, a Suécia é mesmo do jeitinho que tinha imaginado, onde nada
está fora do lugar, bem arrumado e limpo.
Papel no chão? Não vi. Assaltos?
Raríssimos, com uns poucos batedores de carteira, e o que eventualmente
pode acontecer não tem a menor possibilidade de violência. A vida
parece mais fácil, e a cidade fica mais bonita. Além disso, é um país socialmente igualitário,
sem luxo e privilégios para os políticos, que não são bajulados nem
considerados superiores a qualquer outro cidadão. Salários vitalícios? Nunca!
Imunidade? Nem pensar. Carros oficiais? Claro que não!
Não penso em voltar por
aqueles lados, apesar de todos os aspectos positivos... isso sem falar na pele
dourada das belíssimas louras. E eu,
branca amarelada, vendo aquilo tudo. A
inveja é considerada um tremendo pecado capital, embora eu saiba que a inveja
branca seja menos reprovável. Mesmo com
um atenuado, não quero sentir isso de novo. Suécia, nunca mais!