sábado, 22 de julho de 2017

COMO HAVIA IMAGINADO
Julho 2017
                        Estocolmo é, realmente, do jeitinho que eu sempre imaginei.  Uma cidade limpa, com prédios imponentes, e o finalzinho da primavera deixa o céu deslumbrante, com uma temperatura parecida com a do inverno no Rio de Janeiro.  As pessoas se mostram simpáticas e risonhas.  Acredito que seja assim no país todo.  Só não reparei nas lindas louras suecas, com pele bronzeada, cabelos maravilhosos... Por isso, nem me perguntem o que achei.
                        Confesso que a Escandinávia nunca fez parte de minha agenda de viagens, e somente me lembrava da Suécia quando falavam no premio Nobel. Só descobri agora que o Nobel da Paz, sempre tão badalado, é entregue em Oslo, e os outros todos é que são em Estocolmo!  A primeira premiação foi em 1901, ano em que a Suécia e a Noruega ainda formavam uma união.  Quando se separaram com razoável tranquilidade em 1905, ficou decidido que o da Paz seria atribuição da Noruega.  Os outros, da Fisiologia ou Medicina, Literatura, Física, Química e, depois, o de Economia, somente atribuído a partir de 1968, ficaram sob a responsabilidade da Suécia.   Em tempo, dentre os que receberam o da Paz, há nomes que não são unanimidade.  Por isso, não vou entrar no assunto. Gosto é gosto, não se discute.  Apenas, lamenta-se.
                        Em tempo – fiquei surpresa em saber que foi Alfred Nobel quem inventou a dinamite!  Anos depois, desolado com o uso de explosivos para fins nada nobres, decidiu criar o famoso premio para os que realmente atuam em prol da humanidade.  Há quem diga que Santos Dumont teria dado cabo da própria vida pelo fato de o avião estar sendo usado como arma de guerra.  Fácil imaginar a frustração e arrependimento desses inventores.
                        O que mais me interessa é o de Literatura, e já li vários dos laureados. O último a receber, o americano Bob Dylan, despertou muitas discussões, e fiquei um pouco desconfortável com a escolha.    Dos mais recentes, sou leitora assídua de dois – Saramago e Coetzee. .óbvio que nem sempre caio de amores, mas sempre vale a pena ler o que eles escrevem  E os nossos latinos Gabriel Garcia Marques, Neruda e Mario Vargas Llosa também ocupam lugar especial na alma desta leitora inveterada.   Embora tenhamos vários escritores brasileiros com excelentes obras, nenhum foi agraciado.  Enfim, nada a fazer.
                        Voltando à Suécia, devo reconhecer que a viagem me ajudou a descobrir um pouco mais desse país, sobre o qual nós pouco sabemos além do fato de ser o rei casado com a filha de uma brasileira.  Cá entre nós, ouvi dizer que ela nem mesmo fala nossa língua. E o rei só tem poderes e funções meramente oficiais e cerimoniais.  Portanto...
                        Até o século XVII, a Suécia não tinha qualquer expressão politica.  A partir de então, alguns monarcas visionários e capazes trouxeram grande desenvolvimento ao pequeno país, com ênfase no poderio militar.  Saíram conquistando os territórios vizinhos, com razoável sucesso. Com o tempo, tiveram que devolver grande parte deles, e hoje essa monarquia constitucional apresenta excelentes índices de desenvolvimento humano e de democracia, sendo uma sociedade que se caracteriza por invejável justiça social.  Tem menos de 10 milhões de habitantes, com um milhão e quatrocentos mil morando em Estocolmo.  Para se ter uma ideia, o Estado do Rio de Janeiro, em 2014, tinha um pouco mais de 16 milhões de cidadãos.  
                        O governo é parlamentarista, e o interessante é que os ministros, somente através de decisões políticas, podem influenciar as agências governamentais, que são os órgãos executores de cada ministério.  Não podem se meter muito.  Talvez seja uma boa ideia.
                        O prédio da Prefeitura de Estocolmo é muito interessante, e um de seus destaques é o Salão Azul que, na verdade, tem as paredes de tijolinhos vermelhos. Só que, junto ao teto, as paredes são substituídas por vidros, e o azul do céu fica sempre à vista... na verdade, nem sempre.
                        Nesse salão, realiza-se o banquete anual do Premio Nobel, e há um fato interessante a se comentar sobre a escada que dá acesso aos outros salões.   Os degraus foram milimetricamente construídos, após estudo feito pelo arquiteto responsável. Cá entre nós, foi um estudo prático - pediu à esposa que subisse e descesse diversas escadas, com degraus de diferentes dimensões, usando um vestido longo e saltos bem altos.  A cobaia deu conta do recado, e a escada e degraus por ela escolhidos me pareceram apropriados para nós, mulheres, em nossos trajes de gala. 
                        Fiquei encantada com o belíssimo trabalho no teto do Salão do Conselho, onde se reúnem uma vez por mês os 101 vereadores de Estocolmo, atualmente com as mulheres em maioria.  Lá, as sessões começam às 4 da tarde, pois os vereadores são cidadãos comuns que trabalham como todos os outros.  Não recebem salário! Recebem uma ajuda de custo de cerca de 250 dólares por mês.  Se for muito longa, e saírem depois das 10 da noite, o gasto com o taxi é reembolsado.  Estabelecem a pauta da sessão, com os assuntos que realmente interessam, e não ficam de conchavos e fofoquinhas políticas, fingindo que trabalham. 
                        O deslumbramento visual veio quando entrei no Salão Dourado, revestido de mosaicos belíssimos, preparados com mais de 18 milhões de pastilhas.  Vi uma representação da Torre Eiffel com o 14Bis voando em volta.  De novo, penso no Santos Dumont.  Realmente, vale a visita.
                        O clima.   Chove pouco, mas o frio, sobretudo na Lapônia, é para ninguém botar defeito.  Um amigo que morou lá, dos 18 aos 25, disse que é muito difícil.  Em Estocolmo, a temperatura máxima no verão, em média, é de 22 graus... No inverno, a média é de menos 5!  Assim, o melhor período para ir é no final da primavera e no verão. 
                        Mas nem tudo é sempre tão perfeitinho... o VASA, um dos pontos de maior interesse turístico daquele país, traz de volta um vexame do século XVII.   Em sua viagem inaugural, em 1628, aquele que seria o mais possante navio de guerra sueco afundou a menos de 2 quilômetros do ponto de partida!   Com as técnicas da época, nem mesmo foi possível retirar do fundo do golfo os poderosos canhões que o guarneciam.  E ficou esquecido no tempo.
                        Mais de 300 anos depois, a tecnologia avançadíssima possibilitou a recuperação dos destroços, e em 1961 trouxeram o VASA de volta à superfície.   O casco estava quase intacto, o que foi uma enorme surpresa.  O guia disse que a água do Golfo da Finlândia, naquele local, apresenta um grau bem leve de salinidade, e a madeira não foi muito afetada.  Visitei o museu onde está exposto, e vi que é realmente impressionante a imponência do tal vaso de guerra.  Dois fatos contribuíram para o insucesso: primeiro, foi o grave erro de projeto, que previu um lastro incompatível com a altura do navio e, depois, a pressa em colocá-lo em uso - o Rei Gustavo Adolfo voltava de uma viagem e não admitia adiamento. Um inquérito aberto para descobrir os responsáveis acabou em pizza... pois é, até lá, às vezes, pode acontecer.
                        Deixando de lado esse fato desastroso, a Suécia é mesmo do jeitinho que tinha imaginado, onde nada está fora do lugar, bem arrumado e limpo.  Papel no chão?  Não vi.  Assaltos?  Raríssimos, com uns poucos batedores de carteira, e o que eventualmente pode acontecer não tem a menor possibilidade de violência.   A vida parece mais fácil, e a cidade fica mais bonita.  Além disso, é um país socialmente igualitário, sem luxo e privilégios para os políticos, que não são bajulados nem considerados superiores a qualquer outro cidadão.  Salários vitalícios?  Nunca!  Imunidade?  Nem pensar.   Carros oficiais?  Claro que não!

                        Não penso em voltar por aqueles lados, apesar de todos os aspectos positivos... isso sem falar na pele dourada das belíssimas louras.  E eu, branca amarelada, vendo aquilo tudo.  A inveja é considerada um tremendo pecado capital, embora eu saiba que a inveja branca seja menos reprovável.  Mesmo com um atenuado, não quero sentir isso de novo. Suécia, nunca mais!

terça-feira, 4 de julho de 2017

ALGUNS BICHOS, EU DISPENSO
Julho de 2017

                        Sempre detestei acampar, não vou mais à praia, nunca me convide para ir ao Pantanal ou à Floresta Amazônica... Por outro lado, declaro meu infinito amor pela Natureza e procuro ter uma vida sustentável, como manda o figurino.  Para compensar a distância do verde, escolho documentários que mostram tanto a beleza desse planeta, como também os que nos advertem que estamos destruindo tudo em volta.   O “Extermínio do Marfim” traz notícia dos elefantes.   Como não os temos por aqui, confesso que não sabia que o comércio ilegal de suas presas está levando a espécie à extinção.  Dizem que, dentro de poucos anos, não teremos mais nenhum vivo.  As projeções vão de quinze a cinquenta anos.  De 2011 a 2016, foram mortos cerca de cento e cinqüenta mil elefantes.  Hoje, restam apenas quinhentos mil na África inteira; no início do século XX, eram dez milhões.  Como não há predadores naturais, seremos os únicos responsáveis.

                        A pobreza nos países africanos contribui para essa matança.   Cada presa pesa, em média, quinze quilos, e um nativo consegue vender o quilo a sete dólares para os atravessadores.   Se considerarmos trinta quilos por cada animal abatido, esse caçador consegue algo em torno de duzentos e dez dólares.  Em países miseráveis, é uma atividade muito rentável e, falando francamente, a salvação para muitas famílias.  Fica difícil coibir e controlar.   Logo depois, o atravessador leva esse marfim para a China, onde o comércio ainda é legalizado, e consegue obter, por quilo, cerca de dois mil e quinhentos dólares.  Assustador.  

                        Embora a legislação chinesa estabeleça a cota anual em cinco toneladas para serem distribuídas às oficinas registradas que produzem objetos de marfim, o comércio ilegal movimenta centenas de toneladas.  Políticos de alto escalão, agentes da alfândega e da polícia estão envolvidos.  O governo começou a tratar do problema, certo de que não fica bem para a imagem do país a responsabilidade por tudo isso. Só nos resta torcer.

                        Impressionantes os preços dos tais objetos.  Uma espada feita com uma presa de 15 quilos chega a ser vendida a 200 mil dólares.  Outra, pintada com motivos chineses, pode valer 330 mil dólares!  É um comércio tão lucrativo e sangrento quanto o do tráfico de drogas.  Além dos elefantes, morrem muitos agentes fiscalizadores e policiais, como também vários traficantes eliminados pela concorrência; enfim, o homem é o lobo do homem e das demais espécies.

                        Falando de coisas bonitas - os elefantes são muito sensíveis.   Quando encontram a carcaça de outro elefante, procuram juntar os pedaços, em sinal de respeito;  ficam juntos,  passando a tromba carinhosamente...  E se um do próprio grupo morre, fazem a mesma coisa; o parente mais próximo desse morto caminha solitário durante alguns dias, um pouco mais atrás dos outros, em sinal de luto.  Cuidam de cada membro que esteja frágil, respeitam os filhotes, e o melhor - os grupos, com trinta indivíduos em média, são geralmente comandados pela fêmea mais velha!  É a chefe da manada!  Assim, comprovam a inteligência que os especialistas atribuem a esses animais. 

                        Não me lembrava de que apenas os machos dos elefantes indianos possuem presas.  Não sei se podemos acreditar, mas ouvi relatos de que alguns deles reconheceram caçadores que tentaram matá-los muitos anos antes.   Os entendidos afirmam que, enquanto os africanos são perigosos, os indianos são dóceis, obedientes e bem mais inteligentes.   São essas qualidades que os tornam “apropriados” para exibição pública, nos circos.  Atualmente, no continente asiático, vivem entre vinte e oito mil e quarenta e dois mil exemplares.  Triste saber que, desde o início do século XX, a população encolheu noventa e sete por cento!  Seus únicos predadores são os tigres, que raramente atacam elefantes adultos.  Ou seja... somos nós os monstros.

                        Enfim, vários países africanos se esforçam para coibir essa matança.  Mas ainda há muito trabalho a fazer.  Esperamos que ainda haja esperança, pois não gostaria que os netos dos meus netos só os vissem em livros.    Se pensarmos como é possível que o ser humano seja tão insensível a ponto de matar por dinheiro, acabamos vendo que, desde sempre, homens são capazes das coisas mais sublimes, enquanto outros fazem coisas abomináveis.   E achei menos difícil falar sobre o homem como matador de animais do que como assassino de outros seres humanos.   Menos difícil, mas nunca é fácil. 

                        Uma amiga ficou sem entender a razão de meu interesse repentino por elefantes.  Duas são as razões.  A primeira, por ter sido o animal cuja extinção era o tema do documentário que escolhi, dentre tantos outros sobre a Natureza.  Decidi, então, que esse animal representaria todos os outros que estão sofrendo com nossas ações! 

                        A segunda razão - um santuário de elefantes que estão preparando na Chapada dos Guimarães.  A iniciativa é de uma instituição que se preocupa em oferecer um refúgio que possa restaurar e/ou manter a saúde e o bem estar dos elefantes cativos da América do Sul.  Os especialistas procuram reconhecer, entender e explicar plenamente a história “pessoal” de cada um dos elefantes e suas necessidades individuais.  Assim, os animais poderão ser ajudados a alcançar seu potencial total para levar uma vida natural, preservando as interações sociais positivas entre os de sua espécie. Em tempo – não será aberto à visitação pública. 

                        Vamos falar um pouco sobre os cães  Contato direto com eles, apenas quando já tinha meus filhos.  Foi quando comecei a me encantar com eles, e agora confesso que poderia escrever várias crônicas para dizer o quanto gosto deles agora.   Assim, vou terminar essa dos elefantes com a história de uma cadelinha especial.  Confesso que me surpreendi ao saber que há mais animais de estimação do que crianças até 14 anos nos lares brasileiros.  E mais - encontraram registros de cães convivendo com nossos índios há mais ou menos 1.700 anos.   Na verdade, há registros dos humanos em outras partes do mundo começando a domesticar cães há mais ou menos 32 mil anos, inclusive com o cruzamento de raças para criação de novos cães! Ou seja, eles estão conosco desde sempre!  E nós nos metendo na evolução das espécies desde sempre.

                        Cléo, de três anos, digna representante dos “vira-latas”, foi adotada por Jade, minha neta, quando já tinha mais de um ano.    Logo se viu que trazia lembranças bem difíceis; era arredia, assustada, com medo de sair de casa, pavor das pessoas desconhecidas, e tremia muito quando se deparava com essas situações.  Por sorte, uma veterinária, após o diagnóstico de síndrome do pânico, receitou PROZAC!  É outra “pessoa” agora, muito mais sociável, alegre.  Sofrem como nós!  E tomam os mesmos remédios!

                        Outra descoberta interessante: os macacos apresentam o DNA apenas com 1% de diferença do nosso.  Quase a mesma coisa...  Estou certa que eles, como nós, são felizes em seus amores, sofrem com suas dores, dentro de outras medidas, é claro, mas com muito sentimento. Gosto deles.  Agora, em se tratando de baratas e cupins... esses, eu dispenso! Não me preocupo com o sentimento deles. E afirmo, mesmo sob o risco de ser apedrejada, que não vou levantar bandeiras para salvá-los. Um dos meus maiores pecados é ser parcial! Politicamente incorreta, sem dúvida...     

                        Como nos últimos tempos as conversas envolvem sempre algo relacionado aos maus políticos, aproveito para confirmar que igualmente dispenso uns tantos exemplares dessa espécie animal.  Precisaríamos interferir no DNA deles, pois estão corrompidos, e a diferença entre o DNA do cidadão honesto e o de um político “defeituoso” já passa de 90%.  Por isso, sinto-me mais próxima dos chimpanzés!  Provavelmente, vocês também se sentem assim.