quinta-feira, 2 de agosto de 2018


SÃO PETERSBURGO

             Chamada pelos íntimos de Peter, às margens do Rio Neva, a belíssima cidade conseguiu me conquistar no primeiro minuto.  Tem a honra de ter tido dois grandes personagens da História da Rússia ligados a ela: Pedro, o Grande e Catarina, a Grande.   Guardadas todas as ressalvas possíveis em relação a cada um deles, foram considerados grandes estadistas.
                   A Rússia, esse país de dimensões espantosas, só não é maior do que minha vontade de conhecer o mundo; seu povo, culturalmente diversificado, apresenta profundos contrastes, com mais ou menos 200 culturas convivendo. Isso é fascinante, mas deve trazer muita dificuldade para agradar tantos grupos diferentes.  Um dos guias afirmou que o povo, como um todo, gosta de governantes fortes, que sejam capazes de lidar com tanta diversidade.  Há controvérsias.
                   Fundada por Pedro, o Grande, em 1703, no Mar Báltico, São Petersburgo só perde em tamanho para Moscou.  Pedro era muito desequilibrado, sabemos, mas tinha profunda visão de administrador.  Percebeu que a Rússia precisava de uma saída para o mar como alternativa para o principal porto utilizado, junto ao Mar Branco, sempre congelando nos invernos rigorosos.  Tratou de tirar dos suecos a pequena cidade que eles haviam fundado ali junto ao Mar Báltico, noventa anos antes.  Construiu logo o Forte Pedro e Paulo e foi em frente.  Os operários eram camponeses de todo o país e prisioneiros suecos.   No final, foram cerca de cem mil servos mortos.  Na história do homem, não foi a primeira, nem a última vez.
                   Em 10 anos, Pedro transferiu a capital do império para lá.  Somente depois da Revolução Socialista, em 1918, São Petersburgo, que passara a se chamar Petrogrado, perdeu de vez para Moscou o posto de capital.   E, com Lenin no auge, Petrogrado virou Leningrado logo em 1924.  Só voltou a ser São Petersburgo em 1991, por escolha da população mesmo.  Mesmo sem ser o centro administrativo do país, com seus cinco milhões de habitantes, é a preferida de muitos turistas.  Seu fantátisco centro histórico e os inúmeros monumentos são considerados patrimônio mundial da Unesco. E o Hermitage é deslumbrante, com mais de três milhões de peças em seu acervo, embora só vinte por cento estejam expostos.  Que museu! Vale uma visita atenta.  Dos cinco maiores do mundo, ainda preciso conhecer o de Atenas.  Mas como a Grécia está na minha agenda para o próximo ano, acho que logo resolvo essa lacuna cultural.
                   O grande poder militar russo, durante quase duzentos anos no período dos czares, não trouxe uma vida mais digna para a população.  Como sempre, só os nobres aproveitavam.  Tudo começou a mudar no início do século XX, com a Primeira Guerra Mundial, mas as brigas internas castigavam ainda mais a vida dos russos.  Em 1918, os Romanov tiveram o destino que conhecemos.  Eu me lembro que, durante um bom tempo, muitos acreditavam que a Princesa Anastácia havia se salvado e, por causa disso, algumas “candidatas”  ao cargo apareceram... mas como se diz hoje – eram fake news.  Em 2007, encontraram seus restos mortais e de seu irmão Alexei, que estavam em lugar diferente do resto da família, que foram descobertos em 1991.  Bem, essa é a história oficial.
                   A luta pelo poder entre os diferentes grupos fez grandes estragos, e a fome de 1921 matou cinco milhões de russos além dos que morreram na luta fraticida.  Para termos uma ideia, a Croácia, na moda agora, tem dois milhões e meio de habitantes.  No Brasil, seria o equivalente à população inteira de Sergipe somada à do Mato Grosso do Sul, cada uma com cerca de dois milhões e meio também.
                   Na Segunda Guerra, ainda com o nome de Leningrado, os quase novecentos dias do cerco sofrido custaram um milhão de vidas, em razão do frio, da fome, de muitas doenças e da guerra, mesmo.  Recebeu, então, com mais 3 cidades russas, o título de cidade heróica.  Os livros e filmes a respeito desse longo episódio mostram os horrores do mais longo e terrível cerco da história moderna.
                   Fui no verão, é claro, já que é uma das cidades mais frias do mundo.  A média no verão, sempre curto, é de 23 graus, enquanto no inverno, longo, escuro e úmido, é de 5 graus.  Mas pode chegar a menos 35 graus! Com neve são, geralmente, cerca de 120 dias... Eu tive sorte de nascer no Rio de Janeiro, nesse clima tão ameno.  Quando os termômetros marcam 20 graus, já estou procurando casaco. 
                   Para sobreviver a esse período gelado e, sem dúvida, menos alegre, a companhia mais procurada é o álcool.  Lembro que eu e Ana Miniati andávamos pelas ruas de São Petersburgo em uma sexta à noite, com as ruas cheias de jovens e velhos comemorando o verão, e sentíamos, no ar, o forte cheiro característico de destilados fortes.  Impressionante!  Se eu ainda fumasse, provavelmente provocaria um incêndio se usasse o isqueiro, pois o ar não tinha só nitrogênio e oxigênio.  Levava etanol em alto grau!!! 
                   Parti para as pesquisas.  Qual o consumo anual de vodka na Rússia?  80 litros por pessoa ao ano!  São diagnosticados alcóolatras cerca de seis milhões de pessoas. E vinte milhões bebem vodca todos os dias!  Os czares se preocupavam com isso, os líderes comunistas também... mesmo assim, atualmente, temos o mesmo nível de ressaca nas estatísticas.
                   A cidade, considerada a capital da cerveja da Rússia, produz trinta por cento do total nacional.  A água por lá é abundante e de ótima qualidade para a preparação da bebida.    E produzem vodca, também... mas disso, já sabemos.
                   Pelos filmes que retratam a máfia russa, temos noção da violência que impera pelo país todo. E São Petersburgo não escapa, com altos índices de suborno e crimes de rua. Nos anos 90, era conhecida como o quartel desses criminosos. E a intolerância racial tem crescido consideravelmente, infelizmente, como no mundo todo.  Uma gangue de supremacia branca tem assassinado estudantes universitários estrangeiros com frequência.  Como digo e repito - O homem é o lobo do homem.  
                   Trazendo temas mais leves à tona, nossa capital gaúcha é uma das muitas cidades irmãs de São Petersburgo, mas a da Rússia, pois existe uma com o mesmo nome na Flórida.   
                   Sinto uma inveja enorme.  São 221 museus, duas mil bibliotecas, mais de 80 cinemas, cem organizações de concerto, e outros tantos centros de cultura. Pois é, se não fosse tão fria e não tivesse aquele presidente, talvez eu quisesse ficar lá por um tempo.  A Veneza do Norte, com suas pontes, rios e canais, tem tanto para ser visto que, realmente, acho que tenho que voltar.
                   Comi o famoso estrogonofe.  Uma delícia!  Mas só cheguei até a porta do Palácio Stroganov, com “a”, mesmo.   O Barão que o mandou construir, Sergei Stroganov, era um excêntrico, dono de minas de sal e um gourmand daqueles, no sentido usado atualmente.  Outros, o chamariam de gourmet.  Bebia e comia com vontade, mas somente alta gastronomia.  Tive duas explicações sobre o famoso prato.  Uns me disseram que ele tinha um problema de dentes, e seu cozinheiro passou a picar a carne do prato que ganhou seu nome.   Outros me disseram que ele, uma vez, ao receber um hóspede ilustre, descobriu que este tinha um problema nas mãos e não podia cortar o escalopinho.  Mandou cortar em pedacinhos e misturar no molho.   Foi tão grande o sucesso que ficou para a posteridade.
                   O palácio está aberto à visitação, tendo um restaurante que serve, claro, o famoso prato no original, sem ser cortado.  Preciso experimentar.  No subsolo, tem um lugar especial, tipo esconderijo, para os ilustres.  Com um quarto que pode servir de hotel!  Deve ser o máximo.  Arranjei mais um motivo para eu voltar.
                   Falar de Catarina, a Grande, exige espaço e, por isso, vai ficar para outra crônica.   São muitas histórias, algumas picantes, outras assustadoras... Mandou matar o marido!  Enfim, só daqui a alguns dias. Até lá, espero que a curiosidade fique bem aguçada.

segunda-feira, 2 de julho de 2018



MÉXICO, UM PAÍS ENCANTADOR

                   Que eu iria gostar muito, tinha certeza, mas foi muito além do que imaginei.   História, cultura, o povo... já estou pensando em voltar, com muitos planos para ver o tanto que ficou no desejo. 
É o quinto país em tamanho nas Américas e, com sua consistente economia, consegue exportar mais produtos manufaturados do que todos os países latinos juntos! Não imaginava isso! Quanto à cachaça e a tequila, os dados da exportação são impressionantes – em 2015, foram 7 milhões de litros de nossa caçhaca que foram para 61 países.  E foram 180 milhões de tequila para 120 países.  Nossa...
São mais de cento e vinte milhões de habitantes e recebem, por ano, cerca de 30 milhões de turistas; parece que é o nono país mais visitado no mundo.   Nós, aqui, recebemos em 2016 um pouco menos de sete milhões. 
                   Foram muitas as civilizações que viveram na região, dentre as mais conhecidas as dos maias, dos astecas, dos olmecas e dos zapotecas.  Algumas, que duraram cerca de quatro mil anos, muito desenvolvidas, deixaram um grande legado, como observatórios, pirâmides, aquedutos, cidades planejadas, grandes avanços em astronomia, matemática... E o calendário com 365 dias!  Só que, quando Hernán Cortez apareceu, as coisas mudaram. 
                   A versão mais famosa sobre a chegada dos espanhóis diz que Montezuma, quando soube que “torres andantes” se aproximavam da praia, acreditou que se cumpria a lenda de que o deus Quetzalcatl voltaria, em forma de homem branco, com barba, amante da paz e contra os sacrifícios humanos, inaugurando uma nova era para seu povo...  Ao ver Cortez, teve certeza disso, recebendo o espanhol com todas as honras, presenteando-o e a seus homens com muitos objetos de ouro.   Não precisamos de muita imaginação para saber o que aconteceu depois, independentemente das versões que temos sobre o contato inicial.
                   Entre 1519 e 1521, as grandes civilizações daquele pedaço do Novo Mundo foram praticamente dizimadas, suas cidades destruídas, e sobre a cidade de Montezuma foi iniciada a construção da Cidade do México.  E a religião católica foi ganhando espaço - até a filha do imperador asteca ganhou o nome cristão de Isabel.
Mas não só os confrontos com os espanhóis foram danosos para os povos pré-hispânicos.   As doenças trazidas pelos europeus, como gripe, varíola e sarampo, fizeram uma grande parte do “trabalho”.  Estudiosos afirmam que morreram entre 7 e 8 milhões nesse período.  Anos mais tarde, outra epidemia matou 15 milhões de pessoas.  Essas doenças surgiram após a chegada dos europeus.  Enfim, foram várias as causas, e essas duas pesaram significativamente para o fim dessas civilizações.  Uma pena.
Da chegada dos espanhóis, transformando essa região no Vice-Reino da Espanha, até a declaração da independência em 1810, os povos que ali habitavam foram dominados e explorados pelos espanhóis, obrigados a seguir a lei da Espanha.  O povo nunca se conformou com as injustiças e exploração, mas somente com a inspiração vinda dos iluministas e da Revolução Francesa, a luta se instalou. E seus principais chefes foram dois padres católicos.
Como em qualquer processo desse tipo, não foi fácil... Em 1821, já com os espanhóis afastados do poder, o país ganhou o nome de México.  Foi monarquia independente, foi república, os franceses andaram por lá, voltou a ser monarquia, e o último imperador foi fuzilado... Eu não me lembrava de que Maximiliano era primo de nosso Pedro II.
Para as coisas ficarem ainda mais difíceis, enquanto se estabeleciam como independentes, envolveram-se em uma guerra contra os Estados Unidos, na tentativa de manter o território ocupado pela recém proclamada República do Texas.  Na verdade, um pouco antes de 1850, os mexicanos perderam, além do Texas, praticamente a metade de seu território,
Os protagonistas da história mexicana do complicado período pós-independência foram Benito Juárez, General Porfirio Dias, Emiliano Zapata, que lutou contra a ditadura de três décadas do General, mas foi traído e morto antes de conseguir libertar o país, e Pancho Villa.  Este, por muitos considerado um perigoso guerrilheiro, é aclamado pela maioria dos mexicanos como um defensor dos pobres, um verdadeiro herói popular.  Como sempre, cada um vê e analisa do jeito que melhor lhe interessa.  E a História é contada pelo vencedor.  Nessa luta do início do século XX, dez por cento da população foi morta.
Mesmo encantada com o México, devo confessar que sua culinária, com sabores fortes e picantes, não me cai nada bem.   Por isso, seus burritos, as enchiladas, os tacos, as tortillas não fizeram parte de meu cardápio.  O guacamole, dependendo dos temperos acrescentados, pode até me agradar.   A UNESCO declarou a gastronomia mexicana Patrimônio Imaterial da Humanidade.  Lamento não ter bom gosto.
Depois de assistir “Coco”, no Brasil intitulada A Vida É Uma Festa, animação premiada com o Oscar de 2018, fiquei fascinada com a festa do Dia dos Mortos que, no México, é uma das mais populares comemorações.  Pesquisei um pouco e adorei o que descobri.  Trouxe alguns enfeites para, esse ano, em dois de novembro, fazer aqui em casa uma versão brasileira desse evento.  Para eles, a morte representa a libertação, e nessa festa os mortos devem ser recebidos com alegria, para que tenham a vida eterna e feliz no reino deles.  A eles, são oferecidas as comidas, bebidas e músicas preferidas,
Adorei conhecer melhor a Virgem de Guadalupe que, em 1910, foi proclamada Padroeira da América Latina.  Poucos brasileiros sabem disso... eu não tinha ideia! Fui visitar sua basílica na Cidade do México, com seu impressionante movimento de devotos e visitantes.  Lembrei-me de nossa padroeira, em Aparecida, com sua basílica que me parece um pouco maior.
O que é dito é que, em 1531, o indígena Juan Diego teria tido a visão da Virgem, que se identificou como mãe de Deus, pedindo-lhe que instruísse o bispo a construir uma igreja em sua honra ali mesmo, ao pé do Monte Tepeyac, no norte da cidade.  O Bispo do México, é óbvio, não acreditou na história do jovem.  Juan Diego teria recebido dela, então, a instrução de recolher algumas flores cortadas daquele monte e as levasse ao bispo.  Assim o fez. 
E, naquele doze de dezembro, na frente do representante do Vaticano, ao desdobrar a tilma, todos viram estampada a imagem de N. Sa. de Guadalupe, morena, com traços mestiços!  A respeito da tilma, que era o manto que os homens da região usavam naquele período, afirmam os especialistas que o tecido com que era feita tinha pouca qualidade, com duração de apenas 20 anos; essa, com a santa imagem, tem quase 500 e continua perfeita!  Não vi, confesso, pois o guia não nos levou para ver.  Só me dei conta depois.
Voltando ao fato - impressionado, o Bispo mandou construir, naquele mesmo ano, a primeira igreja em honra da Virgem, inaugurada apenas em 1709!  O dia 12 de dezembro é a ela consagrado, e cerca de três milhões de devotos visitam o santuário nesse dia.  Não pretendo estar lá nesse dia.
Atualmente, no México, o culto à Virgem é muito amplo, e sua força se fez muito presente em toda a sua história.  O interessante é que, dentre seus milhões de fiéis, muitos que professam o guadalupanismo não se consideram necessariamente católicos.
Com o tempo, alguns milagres foram atribuídos a ela, e o manto de Juan Diego tornou-se o símbolo religioso e cultural mais popular do país.  Entretanto, alguns estudiosos duvidaram publicamente da existência desse indígena.  Mesmo assim, ele foi canonizado em 2002, sob o nome de São Juan Diego Cuauhtlatoatzin. Foi o primeiro indígena americano a ser tornar um santo católico.  
São duas basílicas no complexo de Guadalupe, a primeira do século XVI e a nova, concluída em 1976.  Como a Cidade do México foi construída em cima de um lago aterrado, essa nova basílica foi necessária em razão do afundamento daquela original. Foi recuperada, entretanto, e desde 2000 missas são rezadas todos os dias.  Achei muito bonita.
Na nova, bem moderna, cabem 10 mil pessoas, mas nas grandes celebrações, temos 40 mil lugares.  A de Aparecida comporta 43 mil fiéis, embora tenha menos visitantes por ano, com 13 milhões em 2017.  A de Guadalupe recebe, em média, 20 milhões anualmente.  Algumas vezes, supera as visitas à de São Pedro do Vaticano. 
Encantada com a Virgem de Guadalupe, trouxe sua imagem para proteger minha casa, junto com N.Sa. de Aparecida.  As duas poderão revezar-se na tarefa.  Terão tempo para atender a outros devotos, pois eu não darei muito trabalho.  Prometo esforçar-me... Se terei êxito ou não nessa tarefa hercúlea, isso já é uma outra história.
Como não poderia deixar de ser, tem uma história de rainha, que não sei se podemos acreditar.  Carlota, esposa de Maximiliano do México, era belga, e parente de um sem número de reis e rainhas do mundo.  Teve vários pretendentes, inclusive Pedro V, de Portugal, mas estava apaixonada pelo austríaco.  E com ele se casou.  Foram para o México quando a França andou por lá, e Napoleão III quis um aliado para manter seu domínio no Novo Mundo.  Visitei o bonito palácio de Chapultepec, onde viveram durante o curto período de reinado.  Diz a história que, em 1867, quando os franceses tiraram o apoio ao imperador mexicano, ela partiu para a Europa, procurando apoio para o marido.   Ao perceber que não tivera sucesso, teve um colapso nervoso, acabando por enlouquecer de vez quando o marido foi executado pelos revoltosos mexicanos. Essa a história oficial.
Na verdade, ouvi uma história bem apimentada.  Ligando o palácio onde o casal vivia a outro ponto do bosque de mesmo nome, foi construído, a pedido dela, um “paseo”, que ganhou o nome de Paseo de la Emperatriz.  Contam as más línguas que ela saía em carruagem fechada e, no meio do caminho, entrava um capitão mexicano que, depois de um tempo, saía ao final do caminho. Dizem, inclusive, que ela estaria grávida desse capitão e que por isso teria partido para a Europa.  Estou contando o que o guia mexicano relatou para nós, turistas curiosos.  Enfim, tem sempre uma história a ser contada, mas que acaba virando folclore.
Acaba de ser eleito o novo Presidente do México.  Falou-se na violência que existe por lá.  Fui verificar – foram 21.5 mortes por 100 mil habitantes em 2016.  Nós, aqui no Brasil, temos uma taxa pior... Foram 25.2 em 2017.  Infelizmente, ambas as taxas são muito altas, mas não temos como dizer que estamos em melhores condições.  Porém, no futebol, estamos na frente.   Conseguimos ultrapassar o ataque do primeiro tempo, para fechar o jogo com uma vantagem bem confortável. Aquela pisada no Neymar foi desprezível, ato indigno de um atleta. Vamos em frente, jogando o melhor possível.  Prefiro lembrar-me de como os mexicanos nos acolheram em 1970, torcendo por nós depois que o time do país foi eliminado... Éramos a segunda opção deles.  
México, aguarde-me!  Voltarei para poder conhecer mais de sua capital, com mais de 20 milhões de habitantes... e que, apesar de tanta gente, é uma cidade muito limpa!  Quero curtir seus maravilhosos museus e monumentos, e conhecer melhor esse povo hospitaleiro, alegre, colorido, e, sem dúvida, com uma bela história de luta, de amor à arte, à tradição e à liberdade.



quinta-feira, 14 de junho de 2018


COMO SELECIONAR E SEGURAR UM MARIDO

                        Minha paixão por livros faz das suas, vez por outra.  Sempre saio com um, são muitos momentos deliciosos mergulhada nas palavras de excelentes escritores, seja na viagem de metrô, na fila do banco, na sala de espera do médico...
                        Outro dia, apressada, esqueci. Na viagem de ida ao Centro, resolvi assuntos pendentes por celular; na volta, na estação Carioca, por sorte, há uma ”geladeira” com títulos para muitos gostos e desgostos.  Um deles, de Anatole France, só tinha o segundo volume.  Os outros, na verdade, não me atraíam nem um pouco. Porém, tive um “estalo de Vieira ao me deparar com TÉCNICAS DE RH PARA SELECIONAR E SEGURAR MARIDO”. Não resisti. Quem sabe uma divertida crônica?  Entrei no vagão superlotado, pensando em Santo Antonio.   Será que está perdendo terreno para a técnica?  Será que vai ter, finalmente, um descanso?
                        Comecei a ler na hora!  Tratei de esconder a capa, para que os ilustres passageiros não imaginassem estar diante de uma desesperada velhinha à procura de um marido.  Seria um mico tamanho gorila, mas arrisquei e lá fui eu, rindo sozinha. João José da Costa é carioca, advogado e administrador, com longa experiência em RH de grandes empresas, segundo a orelha.  Escreveu também “Como enrolar seu chefe e progredir na empresa”, título que já diz tudo, e “Afrodite S.A”, sobre as consequências de relacionamentos amorosos nas empresas. 
                        Fui direto ao terceiro capítulo, interessada nas técnicas de recursos humanos para a seleção de um marido, ou companheiro.  Horas tantas, o autor afirma:

“Essas técnicas são perfeitamente aplicáveis à seleção e retenção de um marido, e você pode adotá-las na certeza de que estará imprimindo uma racionalidade à decisão na hora do SIM. Avalie essa sugestão com o carinho que ela merece. A seleção de um marido é talvez a ação mais importante de toda a sua vida”.
Senti calafrios... era mesmo o que estava escrito: talvez a ação mais importante de toda a sua vida.  Fui em frente, apesar disso. O autor estabelece passos a serem seguidos, indicando, primeiramente, o que as empresas fazem para contratar um funcionário. Logo a seguir, traz questionamentos, sugere atividades e atitudes com o foco marido, para a casadoira determinar o que realmente quer. No prefácio, disse que aos homens o assunto igualmente interessa, mas que são mais mulheres a fazer escolhas erradas.  Será?
O passo seguinte é estabelecer requisitos e competências. Encontro enumerados cerca de cinquenta para a escolha de um funcionário.  Para marido, não consegui contar, mas sei que nem mesmo um príncipe dos contos de fadas seria capaz de atender a tantas exigências.  As primeiras classificadas causaram novos calafrios – bonito e rico.  Inteligente ficou em terceiro lugar.  E por aí vai.  Vi coisas do arco-da-velha.
Segundo o autor, os pré-requisitos estabelecidos servem de base a um guia de entrevistas para selecionar eventuais candidatos.  A entrevista, nunca rígida e formal, deverá vir encaixada em conversas aparentemente descompromissadas e em diferentes oportunidades.  Eu traduzo: seja bem dissimulada, conversando como quem não quer nada, mas preparando a armadilha para, se valer a pena, levá-lo ao altar.
Muito divertido foi ver as instruções para escolher as fontes de recrutamento.  Vai depender, segundo ele, dos requisitos que a pessoa estabeleceu.  Por exemplo, se estiver atrás de um médico, vale frequentar congressos, seminários, pedir a algum amigo médico que a leve a eventos onde possa encontrar “o marido certo”.  Se quiser um estrangeiro, o melhor é ir atrás de algum conhecido da área de turismo... ou seja, uma verdadeira caçada, com planejamento e táticas de guerra! Pobre “caça”.
Sugeriu, como alternativa, agências de casamento, bares e boates de boa reputação, bem como sites de relacionamento.  Chegou a comentar que nas atividades religiosas também podem ser encontrados “bons partidos”.  E termina o conselho – use o máximo de sua criatividade!  Enquanto leio, peço aos céus forças para continuar analisando todas essas “instruções”.
Sobre as condições de contratação, levanta uma questão importante. Tendo em vista que a mulher estabeleceu requisitos e competências para o seu escolhido, ela deve perguntar a sim mesma: - Sou competitiva em um mercado com tantas mulheres em busca de um marido?  O que tenho realmente a oferecer? Em poucas palavras: Você está mesmo com essa bola toda?  Tem algo de bom a oferecer em troca?  Perguntinha danada, essa.  Deve pegar algumas pelo pé.
O Passo 6 – triagem para determinar os três melhores candidatos - provavelmente tem mais sentido no foco empresarial.  Já no foco marido, se acontecer, tal moça deveria ser objeto de programa Globo Repórter.  Os três melhores?  Quantos eram? O autor deve ter pensado na Gisele Bundchen.  Simples mortais teriam tantos assim? Vamos ao que interessa – as mulheres, segundo o que li, estão em vantagem em relação às empresas, pois o período de namoro oferece um número bem maior de oportunidades para que se descubra o candidato “certo”.  Na empresa, são poucas horas de entrevistas. 
No entanto, se nem assim for possível ter certeza de que aquele é o homem para dividir o resto de sua vida, temos, no livro, a solução, que transcrevo para que ninguém fique em dúvida se estou inventando: “Leve-o para uma “entrevista” com seus pais e ouça, principalmente, sua mãe. Coração de mãe nunca falha!” Com ponto de exclamação e tudo.  Só cortando os pulsos.
Respiro fundo e prossigo.  Próxima etapa – tomada de referências. Sobre o  foco profissional, já sabemos o que deve ser feito.  Foco marido: pegue referências, descubra seus hábitos e comportamentos, ética, eventuais vícios, que conceito desfruta no trabalho, como se relacionou com as namoradas anteriores, o que faz na vida quando não está com você. Ter certeza do que faz ou onde está quando você não está de olho é difícil. Não vi escrito, mas acho que talvez seja necessário contratar um detetive particular. 
Essa próxima etapa é interessante – negociação final para efetivação da contratação.  Direto ao que interessa – foco marido!  Recomenda, nessa altura, exames médicos, embora admita não ser uma questão simples.  Inclui, nessa conversa séria, assuntos como regime de bens a ser estabelecido, tipo de moradia, bairro escolhido, divisão de despesas, organização do ambiente doméstico, responsabilidades de cada um na administração da casa, estilo de educação da prole que virá, filosofia de relacionamento com sogros e cunhados... lembro-me de ter lido algures que cunhado não é parente, mas acidente.
Relutante, consigo avançar e chego ao Passo 9 – Formalização legal da contratação.  Pulo a parte empresarial.  Marido - diz apenas que se formaliza através da certidão de casamento.  E afirma que a fase de contratação do marido “certo” se encerra nesse ponto e que há que se tratar agora de COMO SEGURAR SEU MARIDO.
Para não perdermos mais tempo, trago um resumo do tema através das pérolas encontradas no texto.  É bom respirar fundo antes de começar.
- O seu trabalho não deve parar por aí.  Novos esforços de sua parte são necessários para mantê-lo motivado, retê-lo em casa na condição de marido, melhorar sua atuação e desempenho e assegurar um ambiente doméstico agradável para que ele se sinta bem.
- É igualmente importante manter e aprimorar suas condições de competitividade como esposa em um mercado em que a disputa por homens de valor estende-se também aos homens bem casados!
- Você pode programar um evento depois de seis meses do casamento, para uma conversa franca e aberta sobre a realidade constatada por você versus os requisitos e competências estabelecidas. E repetir isso anualmente, no aniversário de casamento.
Obs – Seria o que chamamos de uma oportunidade para discutir a relação – DR. O autor inclui uma lista de questões que podem/devem ser abordadas.  Desisti de contar, mas cabe trazer essas que parecem de 1940 – “que você está sentindo falta de receber aconchego e proteção, sentir-se bem amparada, que gostaria que ele passasse mais segurança...” Em tempo, alerta que o marido também pode vir com a lista dele!  Claro que vai haver um toma lá, dá cá.  Confesso - um livro de 2011 apresentando isso causa em mim profunda aflição.  
- Em algum momento, se o desempenho e o comportamento dele sofrerem desvios graves e sérios que, caso continuem, podem levar você a pedir divórcio, aplique uma “probation evaluation”.  Seja enfática e firme, dando ao seu marido uma última oportunidade.   Findo o prazo concedido, se não houver progressos importantes e convincentes, siga com o processo de divórcio.
Obs: Tipo – ou dá, ou desce!
- Sendo importante que seu marido se sinta bem em casa, permita que ele crie alguns ambientes personalizados.  Nesses “territórios particulares”, não se preocupe muito com excesso de organização, ordem e limpeza.  Mas, como regra geral, a mulher deve manter e inovar para assegurar boas condições domésticas....
Obs – nesse ponto, a lista das “tarefas” femininas aparece. Impublicáveis.   O autor mesmo se pergunta: ”Visão machista? Não foi minha intenção.”
- O desafio após o casamento é desenvolver todos os esforços para manter e aprimorar suas condições de competitividade no mercado de maridos certos, aprimorando suas condições de contratação originais.
- A paciência, a calma e a disposição de vencer todos os desafios serão atributos importantes, para os dois... Mantenha uma expectativa realista a respeito do casamento, abrindo mão ou minimizando a importância dos requisitos e condições de contratação.  
Obs – ele mesmo se pergunta: “Conclusão paradoxal, não? A felicidade do casal está relacionada à flexibilidade e à tolerância que ambos demostrarem. Não há como esperar que o marido certo seja exatamente como as condições de contratação estabeleceram”.  Ou seja, deve ser elaborada uma lista de requisitos e competências, mas não será levada ao pé da letra!
Depois disso tudo, será que as mulheres não vão preferir ficar mesmo com Santo Antonio?  Não será mais fácil contar com o santo casamenteiro do que aplicar todas essas técnicas?  O que seria mais eficaz - sobrecarregar o Santo ou envolver-se nessa loucura técnica?
Na dúvida, aqui vão simpatias para conseguir um marido.  Antes, uma curiosidade.  Reza a lenda que uma jovem que desejava se casar armou um altar para o santo em sua casa.  Rezava todos os dias... nada!  Depois de alguns meses, desesperada, pegou a santa imagem e atirou-a pela janela.  Não é que atingiu a cabeça de um jovem que passava por ali naquele momento?  Conversa vai, conversa vem, apaixonaram-se e, com isso, a fama cresceu.   Além disso, como naquele século XII, as famílias das moças eram responsáveis pelo dote a ser oferecido ao noivo, famílias pobres foram ajudadas por ele, protetor dos menos afortunados.  Sem dúvida, ajudava as moçoilas a casar.  Daí para a frente, não teve mais sossego.
Voltando às simpatias.  Pegue uma vela e escreva nela o nome de seu amado.  Espalhe mel por toda a vela (menos no pavio, claro).  Acenda em um recipiente branco.  Em alguns dias, essa pessoa dará notícias.  Espero que não seja para avisar que casou com outra.
Mais algumas. Amarre um fio de seu cabelo no do seu namorado e coloque aos pés da imagem dele. Do Santo.  Outra: Enterre a imagem do santo de cabeça para baixo em um poço.  Acho essa de um mau gosto incrível.   Uma bastante curiosa é a que se deve rezar o Pai Nosso pela metade, já que a tradição afirma que ele não gosta de orações incompletas; assim, o santo vai atender logo o pedido para que a parte final seja rezada. É possível também doar pães aos pobres no seu dia, 13 de junho.  O difícil é que tem que ser o seu peso em pães.  
Considero a última simpatia que trago igualmente reprovável.  Compra-se a imagem dele em madeira de guiné.  No dia dele, separa-se o Menino Jesus e roga-se: “Santo Antonio, Santo Antonio, faça o (....) casar comigo que devolvo seu menino.” Eu considero tratar-se de um sequestro com pedido de resgate.  No lugar do Santo, deixava ficar para titia.
Pois é. Alguém me disse que temos que beijar muitos sapos para conseguir encontrar um príncipe.  Falando sério: técnicas de Recursos Humanos?  Simpatias para o Santo?  Há uma terceira via - deixar o destino dar conta do recado.  Podem aparecer belas surpresas.