quinta-feira, 14 de junho de 2018


COMO SELECIONAR E SEGURAR UM MARIDO

                        Minha paixão por livros faz das suas, vez por outra.  Sempre saio com um, são muitos momentos deliciosos mergulhada nas palavras de excelentes escritores, seja na viagem de metrô, na fila do banco, na sala de espera do médico...
                        Outro dia, apressada, esqueci. Na viagem de ida ao Centro, resolvi assuntos pendentes por celular; na volta, na estação Carioca, por sorte, há uma ”geladeira” com títulos para muitos gostos e desgostos.  Um deles, de Anatole France, só tinha o segundo volume.  Os outros, na verdade, não me atraíam nem um pouco. Porém, tive um “estalo de Vieira ao me deparar com TÉCNICAS DE RH PARA SELECIONAR E SEGURAR MARIDO”. Não resisti. Quem sabe uma divertida crônica?  Entrei no vagão superlotado, pensando em Santo Antonio.   Será que está perdendo terreno para a técnica?  Será que vai ter, finalmente, um descanso?
                        Comecei a ler na hora!  Tratei de esconder a capa, para que os ilustres passageiros não imaginassem estar diante de uma desesperada velhinha à procura de um marido.  Seria um mico tamanho gorila, mas arrisquei e lá fui eu, rindo sozinha. João José da Costa é carioca, advogado e administrador, com longa experiência em RH de grandes empresas, segundo a orelha.  Escreveu também “Como enrolar seu chefe e progredir na empresa”, título que já diz tudo, e “Afrodite S.A”, sobre as consequências de relacionamentos amorosos nas empresas. 
                        Fui direto ao terceiro capítulo, interessada nas técnicas de recursos humanos para a seleção de um marido, ou companheiro.  Horas tantas, o autor afirma:

“Essas técnicas são perfeitamente aplicáveis à seleção e retenção de um marido, e você pode adotá-las na certeza de que estará imprimindo uma racionalidade à decisão na hora do SIM. Avalie essa sugestão com o carinho que ela merece. A seleção de um marido é talvez a ação mais importante de toda a sua vida”.
Senti calafrios... era mesmo o que estava escrito: talvez a ação mais importante de toda a sua vida.  Fui em frente, apesar disso. O autor estabelece passos a serem seguidos, indicando, primeiramente, o que as empresas fazem para contratar um funcionário. Logo a seguir, traz questionamentos, sugere atividades e atitudes com o foco marido, para a casadoira determinar o que realmente quer. No prefácio, disse que aos homens o assunto igualmente interessa, mas que são mais mulheres a fazer escolhas erradas.  Será?
O passo seguinte é estabelecer requisitos e competências. Encontro enumerados cerca de cinquenta para a escolha de um funcionário.  Para marido, não consegui contar, mas sei que nem mesmo um príncipe dos contos de fadas seria capaz de atender a tantas exigências.  As primeiras classificadas causaram novos calafrios – bonito e rico.  Inteligente ficou em terceiro lugar.  E por aí vai.  Vi coisas do arco-da-velha.
Segundo o autor, os pré-requisitos estabelecidos servem de base a um guia de entrevistas para selecionar eventuais candidatos.  A entrevista, nunca rígida e formal, deverá vir encaixada em conversas aparentemente descompromissadas e em diferentes oportunidades.  Eu traduzo: seja bem dissimulada, conversando como quem não quer nada, mas preparando a armadilha para, se valer a pena, levá-lo ao altar.
Muito divertido foi ver as instruções para escolher as fontes de recrutamento.  Vai depender, segundo ele, dos requisitos que a pessoa estabeleceu.  Por exemplo, se estiver atrás de um médico, vale frequentar congressos, seminários, pedir a algum amigo médico que a leve a eventos onde possa encontrar “o marido certo”.  Se quiser um estrangeiro, o melhor é ir atrás de algum conhecido da área de turismo... ou seja, uma verdadeira caçada, com planejamento e táticas de guerra! Pobre “caça”.
Sugeriu, como alternativa, agências de casamento, bares e boates de boa reputação, bem como sites de relacionamento.  Chegou a comentar que nas atividades religiosas também podem ser encontrados “bons partidos”.  E termina o conselho – use o máximo de sua criatividade!  Enquanto leio, peço aos céus forças para continuar analisando todas essas “instruções”.
Sobre as condições de contratação, levanta uma questão importante. Tendo em vista que a mulher estabeleceu requisitos e competências para o seu escolhido, ela deve perguntar a sim mesma: - Sou competitiva em um mercado com tantas mulheres em busca de um marido?  O que tenho realmente a oferecer? Em poucas palavras: Você está mesmo com essa bola toda?  Tem algo de bom a oferecer em troca?  Perguntinha danada, essa.  Deve pegar algumas pelo pé.
O Passo 6 – triagem para determinar os três melhores candidatos - provavelmente tem mais sentido no foco empresarial.  Já no foco marido, se acontecer, tal moça deveria ser objeto de programa Globo Repórter.  Os três melhores?  Quantos eram? O autor deve ter pensado na Gisele Bundchen.  Simples mortais teriam tantos assim? Vamos ao que interessa – as mulheres, segundo o que li, estão em vantagem em relação às empresas, pois o período de namoro oferece um número bem maior de oportunidades para que se descubra o candidato “certo”.  Na empresa, são poucas horas de entrevistas. 
No entanto, se nem assim for possível ter certeza de que aquele é o homem para dividir o resto de sua vida, temos, no livro, a solução, que transcrevo para que ninguém fique em dúvida se estou inventando: “Leve-o para uma “entrevista” com seus pais e ouça, principalmente, sua mãe. Coração de mãe nunca falha!” Com ponto de exclamação e tudo.  Só cortando os pulsos.
Respiro fundo e prossigo.  Próxima etapa – tomada de referências. Sobre o  foco profissional, já sabemos o que deve ser feito.  Foco marido: pegue referências, descubra seus hábitos e comportamentos, ética, eventuais vícios, que conceito desfruta no trabalho, como se relacionou com as namoradas anteriores, o que faz na vida quando não está com você. Ter certeza do que faz ou onde está quando você não está de olho é difícil. Não vi escrito, mas acho que talvez seja necessário contratar um detetive particular. 
Essa próxima etapa é interessante – negociação final para efetivação da contratação.  Direto ao que interessa – foco marido!  Recomenda, nessa altura, exames médicos, embora admita não ser uma questão simples.  Inclui, nessa conversa séria, assuntos como regime de bens a ser estabelecido, tipo de moradia, bairro escolhido, divisão de despesas, organização do ambiente doméstico, responsabilidades de cada um na administração da casa, estilo de educação da prole que virá, filosofia de relacionamento com sogros e cunhados... lembro-me de ter lido algures que cunhado não é parente, mas acidente.
Relutante, consigo avançar e chego ao Passo 9 – Formalização legal da contratação.  Pulo a parte empresarial.  Marido - diz apenas que se formaliza através da certidão de casamento.  E afirma que a fase de contratação do marido “certo” se encerra nesse ponto e que há que se tratar agora de COMO SEGURAR SEU MARIDO.
Para não perdermos mais tempo, trago um resumo do tema através das pérolas encontradas no texto.  É bom respirar fundo antes de começar.
- O seu trabalho não deve parar por aí.  Novos esforços de sua parte são necessários para mantê-lo motivado, retê-lo em casa na condição de marido, melhorar sua atuação e desempenho e assegurar um ambiente doméstico agradável para que ele se sinta bem.
- É igualmente importante manter e aprimorar suas condições de competitividade como esposa em um mercado em que a disputa por homens de valor estende-se também aos homens bem casados!
- Você pode programar um evento depois de seis meses do casamento, para uma conversa franca e aberta sobre a realidade constatada por você versus os requisitos e competências estabelecidas. E repetir isso anualmente, no aniversário de casamento.
Obs – Seria o que chamamos de uma oportunidade para discutir a relação – DR. O autor inclui uma lista de questões que podem/devem ser abordadas.  Desisti de contar, mas cabe trazer essas que parecem de 1940 – “que você está sentindo falta de receber aconchego e proteção, sentir-se bem amparada, que gostaria que ele passasse mais segurança...” Em tempo, alerta que o marido também pode vir com a lista dele!  Claro que vai haver um toma lá, dá cá.  Confesso - um livro de 2011 apresentando isso causa em mim profunda aflição.  
- Em algum momento, se o desempenho e o comportamento dele sofrerem desvios graves e sérios que, caso continuem, podem levar você a pedir divórcio, aplique uma “probation evaluation”.  Seja enfática e firme, dando ao seu marido uma última oportunidade.   Findo o prazo concedido, se não houver progressos importantes e convincentes, siga com o processo de divórcio.
Obs: Tipo – ou dá, ou desce!
- Sendo importante que seu marido se sinta bem em casa, permita que ele crie alguns ambientes personalizados.  Nesses “territórios particulares”, não se preocupe muito com excesso de organização, ordem e limpeza.  Mas, como regra geral, a mulher deve manter e inovar para assegurar boas condições domésticas....
Obs – nesse ponto, a lista das “tarefas” femininas aparece. Impublicáveis.   O autor mesmo se pergunta: ”Visão machista? Não foi minha intenção.”
- O desafio após o casamento é desenvolver todos os esforços para manter e aprimorar suas condições de competitividade no mercado de maridos certos, aprimorando suas condições de contratação originais.
- A paciência, a calma e a disposição de vencer todos os desafios serão atributos importantes, para os dois... Mantenha uma expectativa realista a respeito do casamento, abrindo mão ou minimizando a importância dos requisitos e condições de contratação.  
Obs – ele mesmo se pergunta: “Conclusão paradoxal, não? A felicidade do casal está relacionada à flexibilidade e à tolerância que ambos demostrarem. Não há como esperar que o marido certo seja exatamente como as condições de contratação estabeleceram”.  Ou seja, deve ser elaborada uma lista de requisitos e competências, mas não será levada ao pé da letra!
Depois disso tudo, será que as mulheres não vão preferir ficar mesmo com Santo Antonio?  Não será mais fácil contar com o santo casamenteiro do que aplicar todas essas técnicas?  O que seria mais eficaz - sobrecarregar o Santo ou envolver-se nessa loucura técnica?
Na dúvida, aqui vão simpatias para conseguir um marido.  Antes, uma curiosidade.  Reza a lenda que uma jovem que desejava se casar armou um altar para o santo em sua casa.  Rezava todos os dias... nada!  Depois de alguns meses, desesperada, pegou a santa imagem e atirou-a pela janela.  Não é que atingiu a cabeça de um jovem que passava por ali naquele momento?  Conversa vai, conversa vem, apaixonaram-se e, com isso, a fama cresceu.   Além disso, como naquele século XII, as famílias das moças eram responsáveis pelo dote a ser oferecido ao noivo, famílias pobres foram ajudadas por ele, protetor dos menos afortunados.  Sem dúvida, ajudava as moçoilas a casar.  Daí para a frente, não teve mais sossego.
Voltando às simpatias.  Pegue uma vela e escreva nela o nome de seu amado.  Espalhe mel por toda a vela (menos no pavio, claro).  Acenda em um recipiente branco.  Em alguns dias, essa pessoa dará notícias.  Espero que não seja para avisar que casou com outra.
Mais algumas. Amarre um fio de seu cabelo no do seu namorado e coloque aos pés da imagem dele. Do Santo.  Outra: Enterre a imagem do santo de cabeça para baixo em um poço.  Acho essa de um mau gosto incrível.   Uma bastante curiosa é a que se deve rezar o Pai Nosso pela metade, já que a tradição afirma que ele não gosta de orações incompletas; assim, o santo vai atender logo o pedido para que a parte final seja rezada. É possível também doar pães aos pobres no seu dia, 13 de junho.  O difícil é que tem que ser o seu peso em pães.  
Considero a última simpatia que trago igualmente reprovável.  Compra-se a imagem dele em madeira de guiné.  No dia dele, separa-se o Menino Jesus e roga-se: “Santo Antonio, Santo Antonio, faça o (....) casar comigo que devolvo seu menino.” Eu considero tratar-se de um sequestro com pedido de resgate.  No lugar do Santo, deixava ficar para titia.
Pois é. Alguém me disse que temos que beijar muitos sapos para conseguir encontrar um príncipe.  Falando sério: técnicas de Recursos Humanos?  Simpatias para o Santo?  Há uma terceira via - deixar o destino dar conta do recado.  Podem aparecer belas surpresas.