sexta-feira, 29 de setembro de 2017

DE PENEDO A HELSINKI

             Em Penedo, na aconchegante colônia finlandesa no Rio de Janeiro, travei meus primeiros contatos com esse país nórdico, tão distante de nosso mundo tropical.  Suomi, o nome em finlandês para designar a terra dos mil lagos (na verdade, são cento e noventa mil ao todo), estava nas muitas camisetas vendidas nas lojinhas de artesanato que se espalhavam por ali, bem perto de Resende.
                    Mesmo com apenas pouco mais de cinco milhões de habitantes, são muitos os feitos desse povo, sendo os mais conhecidos o sistema Linux de computação, os celulares NOKIA. o monitor de frequência cardíaca, o coquetel molotov (argh!), o SMS, a sauna... pois é, alguns são reflexo do alto nível da formação do povo que se vê hoje lá.
              Até os anos cinqüenta do século passado, era um país pobre, atrasado em relação a outros países europeus.  A mudança começou no início dos anos 70, quando a educação virou prioridade.  Educação pública de qualidade até a universidade, para todas as crianças e jovens.    A formação dos professores passou a ser de excelência.  Com isso, mudaram o futuro dos cidadãos e do país.  
                   Gostaria de conhecer melhor o sistema deles.   Diminuíram o horário das aulas, o número de provas, ao mesmo tempo que estimularam o pensar independente, deixando de lado conceitos e fórmulas.  Confesso que escrevo isso cometendo um pecado – a inveja!!!
                Mudando de assunto - o clima.  Tenho certeza de que seria difícil me adaptar.  Somente no verão eu estaria bem, com os termômetros podendo marcar 30 graus.  No inverno, não poucas vezes chegam aos 20 negativos!   Bravo povo finlandês... eu congelaria!
                  Outro ponto interessante: parece-me justa a política de cobrança de multas por infrações de trânsito. Não são fixas, variando de acordo com a renda anual do infrator.  O guia da excursão me contou que um ricaço foi multado em 200 mil euros simplesmente por ter ultrapassado o limite de velocidade em uma estrada.  Acho que poderíamos nos inspirar nesse modelo, principalmente com relação aos jovens que praticam “racha” por esse Brasil afora.
                   É na Finlândia, na região da Lapônia, que vive o bom velhinho.  Adoro a época de Natal...  Provavelmente, por herança cultural de minha avó paterna.  As festas na casa dela eram inesquecíveis, com a presença obrigatória do Papai Noel. E até hoje mantenho a tradição de enfeitar a casa, desde novembro, deixando à flor da pele meu lado criança.
                    São Nicolau, que inspirou o mito de nosso Papai Noel de hoje, era arcebispo na Turquia no século IV.  Ajudava quem estivesse com problemas financeiros, colocando um saco com moedas de ouro na chaminés das casas.  Só foi transformado em símbolo natalino muito tempo depois, na Alemanha, e a roupa, pelo que soube, era verde.    A troca definitiva pelo vermelho se deu por influência da Coca-Cola, que colocou nosso velhinho com essa cor em um comercial, isso lá em 1931.  Daí para a frente, não teve volta.
                    A região da Lapônia, que também se estende por outros países, tem o nome de Terra do Sol da Meia Noite apenas na sua porção finlandesa,.  Em uma de suas cidades, um único dia de verão pode durar até dois meses.  O preço que se paga é não podermos ver o sol se pondo no horizonte por todo esse tempo.  Em contra partida, no escuro inverno, o sol fica “escondido” por uns 50 dias, fenômeno conhecido por noite polar.   Penso que gostaria de vivenciar, por uns poucos dias, o sol da meia noite, embora acredite que o organismo se ressinta tanto quanto nos invernos escuros que também temos por lá.  Imagino a confusão no cérebro.
                    A Finlândia também não tem uma história de independência há muito tempo.  Fazia parte do reino da Suécia e, em 1809, foi declarado um grão-ducado do império russo.  Somente em 1917 declarou-se uma república independente.   O drama é que logo teve início uma guerra contra a Rússia e, durante a Segunda Guerra Mundial, contra a Alemanha.  Enfim, livres antes tarde do que nunca. 
                  Como o mundo anda um pouco instável, até a Finlândia está, hoje, em sinal de alerta.  Apresentou uma contração na economia, com a primeira queda nos últimos anos.  Perdeu por causa da queda nos preços do papel, um de seus principais produtos de exportação e, acreditem, também em razão da desvalorização das ações da NOKIA.  Estão cuidando, para evitar que a situação se agrave.   Isso é ótimo, pois os primeiros sinais servem para a correção dos eventuais erros no trajeto.                
              O alto grau de desenvolvimento do país e de seus habitantes, o inverno rigorosíssimo, tudo isso sempre me deu a impressão de que não haveria muito espaço para o humor.   Mas ele sobrevive a tudo isso!  Além do carregamento de esposa, esporte que também é praticado na Estônia e alguns outros países, que tal assistirmos aos campeonatos de caça aos mosquitos, lançamento de celular (acho que só os da marca Nokia), lançamento de bota de borracha, futebol no pântano...
                Para divertir mais um pouco, tem a história da pizza finlandesa.  Berlusconi, o polêmico político italiano, em sua viagem à Finlândia em 2005, afirmou que não gostou nem um pouco da culinária local, e que o presunto de Parma era muito superior à carne de rena defumada deles.   É claro que a vingança veio, três anos depois, na Itália, em um concurso internacional de pizza.   Os louríssimos apareceram com a pizza Berlusconi, cujo ingrediente principal era a rena defumada.  Sucesso total!  Vingança maligna.
                 Na minha visita de apenas um dia, encontrei Aime Virkkilä Accorsi (brasileira descendente de finlandeses que vieram para Penedo), que mora lá há 10 anos, com a filha de 15 anos.  Sente falta de várias coisas, como abraços e beijos, mas a segurança, independência e o bem-estar social que o país proporciona compensam essa saudade.        
                Sugiro uma visita à Catedral de Pedra.  A religião predominante no país é a luterana, e a Temppeliaukio Kirkko é uma construção moderna, de 1969, que impressiona quem a visita.  Tem sua maior parte subterrânea, construída em uma grande rocha de granito, cujo interior foi retirado para abrir o espaço, circular,e formar as paredes. Fascinante a cúpula de cobre, que é praticamente a única parte que se vê de fora.  O contraste dos materiais naturais e os construídos pelo homem a tornam única.  E a perfeição de sua acústica possibilita a apresentação de inúmeros concertos.  Tive a sorte de chegar quando um pianista executava peças clássicas finlandesas.  
                    Outra dica – uma visita ao Parque Sibelius, onde se encontra o monumento em homenagem ao grande compositor finlandês.  Achei a obra muito interessante, forte... são mais de seiscentos tubos ocos, que lembram um órgão imenso.  Há uma versão menor que se encontra na sede da UNESCO em Paris.  Suas sete sinfonias continuam sendo executadas nas grandes salas de concerto pelo mundo afora.
                  A moeda é o euro, e sinto só ter conhecido Helsinki, sua capital desenvolvida e organizada.  É um país com três quartos do território de florestas, cento e noventa mil lagos e cento e oitenta mil ilhas... Acho que é em razão dessa geografia é o país europeu com menor densidade populacional. Gostaria de conhecer melhor, para explorar melhor esse país que se transformou em tão pouco tempo... inveja, de novo.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

TALLINN, UMA LINDA CIDADE


                    Antes de falar na Estônia e em Tallinn, peço desculpas à Rainha Silvia, da Suécia.  Havia comentado que ela não falava Português.  Não é verdade.   Fala bem, com um leve sotaque paulista e, de quebra, fala mais cinco línguas.  Imperdoável minha falha técnica.
                    Pouco sabia desse pequeno país báltico, além da ocupação soviética que sofreu por mais de cinqüenta anos no último século.   Como estava nos meus planos de viagem há tempos, cheguei à Estônia com a curiosidade à flor da pele. Seu território é de 45 mil quilômetros quadrados, só um pouco maior do que o Rio de Janeiro, e tem pouco menos de um milhão e quatrocentos mil habitantes.  Aqui, somos dezesseis milhões.
                    Os estonianos são intimamente ligados aos finlandeses e aos lapões, com uma cultura bastante influenciada por eles mas, também, pelos dinamarqueses, russos, alemães e suecos, em razão dos incontáveis anos em que estiveram sob dominação desses povos.  Na verdade, o sentimento de nação só se instalou no meio do século XIX.  Conseguiram se estabelecer como unidade autônoma há, apenas, cem anos, com a promulgação da constituição de 1917.   Mas o processo não foi rápido.
                    O drama é que nem mesmo haviam se acostumado com a liberdade quando, em 1940, a Estônia foi ocupada pela União Soviética; logo depois, em 1942, foi a vez dos alemães invadirem.  Quando estes perderam a guerra e saíram, a União Soviética voltou.  Bom saber que, durante os cinquenta e dois anos em que estiveram sob o domínio desses últimos, nada foi tranquilo, com muitos movimentos estonianos de insurreição e até mesmo de guerrilha. Eram poucos, mas lutaram bravamente.
                    Somente em 1992, conseguiram a liberdade, embora o exército invasor só tenha saído de lá dois anos depois.   Se analisarmos sua história, veremos que viveram mais tempo sob dominação do que estiveram livres. Em 2004, passaram a integrar a União Européia, e a moeda hoje é o euro. Para nós, turistas, fica super prático.   Fala-se o Inglês por todo lado, o que também é ótimo, pois a língua deles tem a influência de todos os povos que por lá passaram, línguas essas pouco conhecidas pelo resto do mundo.
                    Um fato interessante – durante os protestos contra a União Soviética, os estonianos cantavam as músicas nacionais e os hinos patrióticos que estavam proibidos – por isso, foi chamada de Revolução Cantada.  E o maior coro do mundo, formado por 25 mil cantores, apresenta-se a cada cinco anos no maior evento do país, o Festival da Canção.   De certa forma, a música traz uma unidade nacional.
                    São parlamentaristas e, em geral, o Primeiro-Ministro é o líder o partido majoritário. Lá também existe a figura da imunidade...   Ministro não pode ser demitido ou perder seus poderes políticos, o que significa que pode mandar e desmandar.  Infelizmente, não consegui descobrir até que ponto isso vale.   Por outro lado, os 101 membros do Parlamento não podem ser reeleitos, o que muitas vezes é bom, mas outras, não. Tudo tem dois lados.  Adorei saber que legislam de acordo com o próprio pensamento, sem precisar seguir cegamente o partido a que pertencem.  E poucos são economistas ou advogados... talvez por isso, as coisas estejam indo bem.
                    Um toque pitoresco – parece incrível, mas um dos esportes levados mais a sério é o “carregamento de esposa”, comum naqueles países desde 1997.  Trata-se de uma corrida de obstáculo, em que cada homem carrega uma mulher (não precisa ser a própria esposa).  Os estonianos aprimoraram a maneira de carregar a madame... de cabeça para baixo e com as pernas agarradas ao redor do pescoço do pescoço. Acho que, agora, todos fazem assim. Ano passado, foi um casal russo o vencedor.  Engraçado é que este esporte também é praticado em outros países, como nos Estados Unidos onde, em outubro passado, a 17ª versão deles da corrida realizou-se no Maine.  Só falta alguém por aqui se interessar... Sem comentários.
                    Mais uma história.  A Letônia afirmou, em 2010, que teria tido a primeira árvore de Natal, em 1510; só que a Estônia rebateu, avisando que, em 1441, teria montado uma em Tallinn.  Não se sabe ao certo... Uma discussão sem pé, nem cabeça, como tantas outras que vemos mundo afora. Mesmo eu, que adoro árvores natalinas, não estou nem aí para a resposta. 
                    Da Estônia, só conheci Tallinn, a pequena capital que me encantou com seus setecentos mil habitantes. Foi considerada, há alguns anos, a mais intacta e protegida cidade medieval da Europa.  Um detalhe - como na maioria dos países europeus, a taxa de natalidade no país (1,54 por casal) está muito baixa, com a população decrescendo.   No Brasil, estamos na mesma tendência, com a taxa em 1,78 (cálculo de 2015), sendo necessários 2,11 filhos por casal para que a população se mantenha.
                    O centro histórico é lindo, e lá em cima, além de vermos prédios antigos por todo lado, muito bem cuidados, podemos respirar um fantástico ar de passado. Preservam sua história com muito cuidado. Falando em ar, estava frio, mesmo no início do verão.  Como aquelas terras ficam mais perto do pólo Norte, até o verão me fez usar um casaquinho.  Enquanto no Brasil suamos com 40 nessa estação, a média por lá é de 16 graus! No inverno, provavelmente, eu nem sairia de casa: em 1940, a temperatura chegou a menos 43.   E a neve pode ficar por lá por mais de 130 dias!  No mínimo, por 75... ou seja, muito frio por muito tempo!
                    Adorei saber quem tinha construído o muro que separava a área onde moravam os nobres, na parte mais alta da cidade, do restante da população, cujas casas ficavam mais abaixo na colina. O incrível é que foi a própria população, cansada de ter sua vida organizada e tranqüila atrapalhada pelos que não tinham que lutar pelo pão de cada dia, sempre embriagados, provocando arruaças e perturbando o descanso dos trabalhadores, que resolveu estabelecer distância da elite. Não conheço caso semelhante.
                    Tenho um arrependimento.  Não entrei na mais antiga farmácia ainda em funcionamento no mundo, no mesmo lugar, inaugurada em 1422. Imperdoável.  Em compensação, visitei a Catedral Alexander Nevsky, ortodoxa, considerada patrimônio da humanidade em 1997.  É belíssima.
                    Há quem considere os estonianos o povo menos religioso do mundo.  Apenas cerca de 16% acreditam que a religiosidade é importante na sua vida, e a maioria desses segue a fé luterana.   Não sei, pois tinha lido, há tempos, que eram os chineses os menos interessados em assuntos divinos.

                    Teria mais assuntos ainda sobre esse pequeno país, mas fiquei pouco tempo.  Ainda há muita coisa interessante para ver por esse mundo afora, mas tenho que sacrificar o tempo dedicado a cada novo lugar. Por sorte, mesmo com uma visita curta, vi um pouco desse povo que almeja, há séculos, ser verdadeiramente independente.   Isso valeu a pena!

sábado, 22 de julho de 2017

COMO HAVIA IMAGINADO
Julho 2017
                        Estocolmo é, realmente, do jeitinho que eu sempre imaginei.  Uma cidade limpa, com prédios imponentes, e o finalzinho da primavera deixa o céu deslumbrante, com uma temperatura parecida com a do inverno no Rio de Janeiro.  As pessoas se mostram simpáticas e risonhas.  Acredito que seja assim no país todo.  Só não reparei nas lindas louras suecas, com pele bronzeada, cabelos maravilhosos... Por isso, nem me perguntem o que achei.
                        Confesso que a Escandinávia nunca fez parte de minha agenda de viagens, e somente me lembrava da Suécia quando falavam no premio Nobel. Só descobri agora que o Nobel da Paz, sempre tão badalado, é entregue em Oslo, e os outros todos é que são em Estocolmo!  A primeira premiação foi em 1901, ano em que a Suécia e a Noruega ainda formavam uma união.  Quando se separaram com razoável tranquilidade em 1905, ficou decidido que o da Paz seria atribuição da Noruega.  Os outros, da Fisiologia ou Medicina, Literatura, Física, Química e, depois, o de Economia, somente atribuído a partir de 1968, ficaram sob a responsabilidade da Suécia.   Em tempo, dentre os que receberam o da Paz, há nomes que não são unanimidade.  Por isso, não vou entrar no assunto. Gosto é gosto, não se discute.  Apenas, lamenta-se.
                        Em tempo – fiquei surpresa em saber que foi Alfred Nobel quem inventou a dinamite!  Anos depois, desolado com o uso de explosivos para fins nada nobres, decidiu criar o famoso premio para os que realmente atuam em prol da humanidade.  Há quem diga que Santos Dumont teria dado cabo da própria vida pelo fato de o avião estar sendo usado como arma de guerra.  Fácil imaginar a frustração e arrependimento desses inventores.
                        O que mais me interessa é o de Literatura, e já li vários dos laureados. O último a receber, o americano Bob Dylan, despertou muitas discussões, e fiquei um pouco desconfortável com a escolha.    Dos mais recentes, sou leitora assídua de dois – Saramago e Coetzee. .óbvio que nem sempre caio de amores, mas sempre vale a pena ler o que eles escrevem  E os nossos latinos Gabriel Garcia Marques, Neruda e Mario Vargas Llosa também ocupam lugar especial na alma desta leitora inveterada.   Embora tenhamos vários escritores brasileiros com excelentes obras, nenhum foi agraciado.  Enfim, nada a fazer.
                        Voltando à Suécia, devo reconhecer que a viagem me ajudou a descobrir um pouco mais desse país, sobre o qual nós pouco sabemos além do fato de ser o rei casado com a filha de uma brasileira.  Cá entre nós, ouvi dizer que ela nem mesmo fala nossa língua. E o rei só tem poderes e funções meramente oficiais e cerimoniais.  Portanto...
                        Até o século XVII, a Suécia não tinha qualquer expressão politica.  A partir de então, alguns monarcas visionários e capazes trouxeram grande desenvolvimento ao pequeno país, com ênfase no poderio militar.  Saíram conquistando os territórios vizinhos, com razoável sucesso. Com o tempo, tiveram que devolver grande parte deles, e hoje essa monarquia constitucional apresenta excelentes índices de desenvolvimento humano e de democracia, sendo uma sociedade que se caracteriza por invejável justiça social.  Tem menos de 10 milhões de habitantes, com um milhão e quatrocentos mil morando em Estocolmo.  Para se ter uma ideia, o Estado do Rio de Janeiro, em 2014, tinha um pouco mais de 16 milhões de cidadãos.  
                        O governo é parlamentarista, e o interessante é que os ministros, somente através de decisões políticas, podem influenciar as agências governamentais, que são os órgãos executores de cada ministério.  Não podem se meter muito.  Talvez seja uma boa ideia.
                        O prédio da Prefeitura de Estocolmo é muito interessante, e um de seus destaques é o Salão Azul que, na verdade, tem as paredes de tijolinhos vermelhos. Só que, junto ao teto, as paredes são substituídas por vidros, e o azul do céu fica sempre à vista... na verdade, nem sempre.
                        Nesse salão, realiza-se o banquete anual do Premio Nobel, e há um fato interessante a se comentar sobre a escada que dá acesso aos outros salões.   Os degraus foram milimetricamente construídos, após estudo feito pelo arquiteto responsável. Cá entre nós, foi um estudo prático - pediu à esposa que subisse e descesse diversas escadas, com degraus de diferentes dimensões, usando um vestido longo e saltos bem altos.  A cobaia deu conta do recado, e a escada e degraus por ela escolhidos me pareceram apropriados para nós, mulheres, em nossos trajes de gala. 
                        Fiquei encantada com o belíssimo trabalho no teto do Salão do Conselho, onde se reúnem uma vez por mês os 101 vereadores de Estocolmo, atualmente com as mulheres em maioria.  Lá, as sessões começam às 4 da tarde, pois os vereadores são cidadãos comuns que trabalham como todos os outros.  Não recebem salário! Recebem uma ajuda de custo de cerca de 250 dólares por mês.  Se for muito longa, e saírem depois das 10 da noite, o gasto com o taxi é reembolsado.  Estabelecem a pauta da sessão, com os assuntos que realmente interessam, e não ficam de conchavos e fofoquinhas políticas, fingindo que trabalham. 
                        O deslumbramento visual veio quando entrei no Salão Dourado, revestido de mosaicos belíssimos, preparados com mais de 18 milhões de pastilhas.  Vi uma representação da Torre Eiffel com o 14Bis voando em volta.  De novo, penso no Santos Dumont.  Realmente, vale a visita.
                        O clima.   Chove pouco, mas o frio, sobretudo na Lapônia, é para ninguém botar defeito.  Um amigo que morou lá, dos 18 aos 25, disse que é muito difícil.  Em Estocolmo, a temperatura máxima no verão, em média, é de 22 graus... No inverno, a média é de menos 5!  Assim, o melhor período para ir é no final da primavera e no verão. 
                        Mas nem tudo é sempre tão perfeitinho... o VASA, um dos pontos de maior interesse turístico daquele país, traz de volta um vexame do século XVII.   Em sua viagem inaugural, em 1628, aquele que seria o mais possante navio de guerra sueco afundou a menos de 2 quilômetros do ponto de partida!   Com as técnicas da época, nem mesmo foi possível retirar do fundo do golfo os poderosos canhões que o guarneciam.  E ficou esquecido no tempo.
                        Mais de 300 anos depois, a tecnologia avançadíssima possibilitou a recuperação dos destroços, e em 1961 trouxeram o VASA de volta à superfície.   O casco estava quase intacto, o que foi uma enorme surpresa.  O guia disse que a água do Golfo da Finlândia, naquele local, apresenta um grau bem leve de salinidade, e a madeira não foi muito afetada.  Visitei o museu onde está exposto, e vi que é realmente impressionante a imponência do tal vaso de guerra.  Dois fatos contribuíram para o insucesso: primeiro, foi o grave erro de projeto, que previu um lastro incompatível com a altura do navio e, depois, a pressa em colocá-lo em uso - o Rei Gustavo Adolfo voltava de uma viagem e não admitia adiamento. Um inquérito aberto para descobrir os responsáveis acabou em pizza... pois é, até lá, às vezes, pode acontecer.
                        Deixando de lado esse fato desastroso, a Suécia é mesmo do jeitinho que tinha imaginado, onde nada está fora do lugar, bem arrumado e limpo.  Papel no chão?  Não vi.  Assaltos?  Raríssimos, com uns poucos batedores de carteira, e o que eventualmente pode acontecer não tem a menor possibilidade de violência.   A vida parece mais fácil, e a cidade fica mais bonita.  Além disso, é um país socialmente igualitário, sem luxo e privilégios para os políticos, que não são bajulados nem considerados superiores a qualquer outro cidadão.  Salários vitalícios?  Nunca!  Imunidade?  Nem pensar.   Carros oficiais?  Claro que não!

                        Não penso em voltar por aqueles lados, apesar de todos os aspectos positivos... isso sem falar na pele dourada das belíssimas louras.  E eu, branca amarelada, vendo aquilo tudo.  A inveja é considerada um tremendo pecado capital, embora eu saiba que a inveja branca seja menos reprovável.  Mesmo com um atenuado, não quero sentir isso de novo. Suécia, nunca mais!

terça-feira, 4 de julho de 2017

ALGUNS BICHOS, EU DISPENSO
Julho de 2017

                        Sempre detestei acampar, não vou mais à praia, nunca me convide para ir ao Pantanal ou à Floresta Amazônica... Por outro lado, declaro meu infinito amor pela Natureza e procuro ter uma vida sustentável, como manda o figurino.  Para compensar a distância do verde, escolho documentários que mostram tanto a beleza desse planeta, como também os que nos advertem que estamos destruindo tudo em volta.   O “Extermínio do Marfim” traz notícia dos elefantes.   Como não os temos por aqui, confesso que não sabia que o comércio ilegal de suas presas está levando a espécie à extinção.  Dizem que, dentro de poucos anos, não teremos mais nenhum vivo.  As projeções vão de quinze a cinquenta anos.  De 2011 a 2016, foram mortos cerca de cento e cinqüenta mil elefantes.  Hoje, restam apenas quinhentos mil na África inteira; no início do século XX, eram dez milhões.  Como não há predadores naturais, seremos os únicos responsáveis.

                        A pobreza nos países africanos contribui para essa matança.   Cada presa pesa, em média, quinze quilos, e um nativo consegue vender o quilo a sete dólares para os atravessadores.   Se considerarmos trinta quilos por cada animal abatido, esse caçador consegue algo em torno de duzentos e dez dólares.  Em países miseráveis, é uma atividade muito rentável e, falando francamente, a salvação para muitas famílias.  Fica difícil coibir e controlar.   Logo depois, o atravessador leva esse marfim para a China, onde o comércio ainda é legalizado, e consegue obter, por quilo, cerca de dois mil e quinhentos dólares.  Assustador.  

                        Embora a legislação chinesa estabeleça a cota anual em cinco toneladas para serem distribuídas às oficinas registradas que produzem objetos de marfim, o comércio ilegal movimenta centenas de toneladas.  Políticos de alto escalão, agentes da alfândega e da polícia estão envolvidos.  O governo começou a tratar do problema, certo de que não fica bem para a imagem do país a responsabilidade por tudo isso. Só nos resta torcer.

                        Impressionantes os preços dos tais objetos.  Uma espada feita com uma presa de 15 quilos chega a ser vendida a 200 mil dólares.  Outra, pintada com motivos chineses, pode valer 330 mil dólares!  É um comércio tão lucrativo e sangrento quanto o do tráfico de drogas.  Além dos elefantes, morrem muitos agentes fiscalizadores e policiais, como também vários traficantes eliminados pela concorrência; enfim, o homem é o lobo do homem e das demais espécies.

                        Falando de coisas bonitas - os elefantes são muito sensíveis.   Quando encontram a carcaça de outro elefante, procuram juntar os pedaços, em sinal de respeito;  ficam juntos,  passando a tromba carinhosamente...  E se um do próprio grupo morre, fazem a mesma coisa; o parente mais próximo desse morto caminha solitário durante alguns dias, um pouco mais atrás dos outros, em sinal de luto.  Cuidam de cada membro que esteja frágil, respeitam os filhotes, e o melhor - os grupos, com trinta indivíduos em média, são geralmente comandados pela fêmea mais velha!  É a chefe da manada!  Assim, comprovam a inteligência que os especialistas atribuem a esses animais. 

                        Não me lembrava de que apenas os machos dos elefantes indianos possuem presas.  Não sei se podemos acreditar, mas ouvi relatos de que alguns deles reconheceram caçadores que tentaram matá-los muitos anos antes.   Os entendidos afirmam que, enquanto os africanos são perigosos, os indianos são dóceis, obedientes e bem mais inteligentes.   São essas qualidades que os tornam “apropriados” para exibição pública, nos circos.  Atualmente, no continente asiático, vivem entre vinte e oito mil e quarenta e dois mil exemplares.  Triste saber que, desde o início do século XX, a população encolheu noventa e sete por cento!  Seus únicos predadores são os tigres, que raramente atacam elefantes adultos.  Ou seja... somos nós os monstros.

                        Enfim, vários países africanos se esforçam para coibir essa matança.  Mas ainda há muito trabalho a fazer.  Esperamos que ainda haja esperança, pois não gostaria que os netos dos meus netos só os vissem em livros.    Se pensarmos como é possível que o ser humano seja tão insensível a ponto de matar por dinheiro, acabamos vendo que, desde sempre, homens são capazes das coisas mais sublimes, enquanto outros fazem coisas abomináveis.   E achei menos difícil falar sobre o homem como matador de animais do que como assassino de outros seres humanos.   Menos difícil, mas nunca é fácil. 

                        Uma amiga ficou sem entender a razão de meu interesse repentino por elefantes.  Duas são as razões.  A primeira, por ter sido o animal cuja extinção era o tema do documentário que escolhi, dentre tantos outros sobre a Natureza.  Decidi, então, que esse animal representaria todos os outros que estão sofrendo com nossas ações! 

                        A segunda razão - um santuário de elefantes que estão preparando na Chapada dos Guimarães.  A iniciativa é de uma instituição que se preocupa em oferecer um refúgio que possa restaurar e/ou manter a saúde e o bem estar dos elefantes cativos da América do Sul.  Os especialistas procuram reconhecer, entender e explicar plenamente a história “pessoal” de cada um dos elefantes e suas necessidades individuais.  Assim, os animais poderão ser ajudados a alcançar seu potencial total para levar uma vida natural, preservando as interações sociais positivas entre os de sua espécie. Em tempo – não será aberto à visitação pública. 

                        Vamos falar um pouco sobre os cães  Contato direto com eles, apenas quando já tinha meus filhos.  Foi quando comecei a me encantar com eles, e agora confesso que poderia escrever várias crônicas para dizer o quanto gosto deles agora.   Assim, vou terminar essa dos elefantes com a história de uma cadelinha especial.  Confesso que me surpreendi ao saber que há mais animais de estimação do que crianças até 14 anos nos lares brasileiros.  E mais - encontraram registros de cães convivendo com nossos índios há mais ou menos 1.700 anos.   Na verdade, há registros dos humanos em outras partes do mundo começando a domesticar cães há mais ou menos 32 mil anos, inclusive com o cruzamento de raças para criação de novos cães! Ou seja, eles estão conosco desde sempre!  E nós nos metendo na evolução das espécies desde sempre.

                        Cléo, de três anos, digna representante dos “vira-latas”, foi adotada por Jade, minha neta, quando já tinha mais de um ano.    Logo se viu que trazia lembranças bem difíceis; era arredia, assustada, com medo de sair de casa, pavor das pessoas desconhecidas, e tremia muito quando se deparava com essas situações.  Por sorte, uma veterinária, após o diagnóstico de síndrome do pânico, receitou PROZAC!  É outra “pessoa” agora, muito mais sociável, alegre.  Sofrem como nós!  E tomam os mesmos remédios!

                        Outra descoberta interessante: os macacos apresentam o DNA apenas com 1% de diferença do nosso.  Quase a mesma coisa...  Estou certa que eles, como nós, são felizes em seus amores, sofrem com suas dores, dentro de outras medidas, é claro, mas com muito sentimento. Gosto deles.  Agora, em se tratando de baratas e cupins... esses, eu dispenso! Não me preocupo com o sentimento deles. E afirmo, mesmo sob o risco de ser apedrejada, que não vou levantar bandeiras para salvá-los. Um dos meus maiores pecados é ser parcial! Politicamente incorreta, sem dúvida...     

                        Como nos últimos tempos as conversas envolvem sempre algo relacionado aos maus políticos, aproveito para confirmar que igualmente dispenso uns tantos exemplares dessa espécie animal.  Precisaríamos interferir no DNA deles, pois estão corrompidos, e a diferença entre o DNA do cidadão honesto e o de um político “defeituoso” já passa de 90%.  Por isso, sinto-me mais próxima dos chimpanzés!  Provavelmente, vocês também se sentem assim.
                        

sexta-feira, 3 de março de 2017

POR ISSO, NÃO PROVOQUE... É COR DE ROSA-CHOQUE

Março de 2017
Rita Lee já cantava: “nas duas faces de Eva, a bela e a fera, um certo sorriso de quem nada quer... sexo frágil, não foge à luta, e nem só de cama vive a mulher”.  Somos, realmente, um bicho esquisito.   A gente é assim... e é assado, reagindo de acordo com as circunstâncias, claro.  Camaleoas, como diria Caetano: “Rapte-me, camaleoa!” Mas é bom esclarecer - quando a gente gosta, gosta - nossos pequenos grandes amores!  Uma contradição? Pequenos grandes?  Pois é... mesmos os pequenos são, pra nós, grandes.  E Ivan Lins chega e canta: “até a lua se arrisca num palpite, que o nosso amor existe, forte ou fraco, alegre ou triste”.
 Somos “cantadas” em todas as línguas, e somos “mostradas” com todos os nossos jeitinhos.  Será que as dos outros países são muito diferentes de nós? A Roberta do Pepino di Capri é uma incógnita.  Depois que fez a besteira, ele me sai com essa: “Roberta, perdonami, ritorna ancor, ti prego”. Será que eles são todos iguais?  Até hoje, não sei se ela voltou ou não.  Já a Michelle parece que está entendendo o que os Beatles querem dizer: “I Love, I love you,I love you, that’s all I want to say.” Também, quem não gosta de ouvir isso?   
 Muitos homens brasileiros adoram o nosso lado brejeiro, como Max Nunes e Laércio Alves, que avisam logo que “A rua se enche de gente,quando ela chega à janela, com seu cheirinho de cravo, com seu sabor de canela.” Fácil de adivinhar – é Gabriela, aquela da história de Jorge Amado, cantada em prosa e verso, em novelas, em filmes...
 Agora, mudando de assunto, o que pode acontecer é que algumas vezes, a gente não percebe logo o que está rolando.  Por isso, não é novidade quando Chico Buarque nos diz que: “lá fora, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu, e eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela, só Carolina não viu.”  Por outro lado, Carolina pode estar só disfarçando... quer ganhar tempo para dar o pulo do gato.   Somos difíceis de traduzir, não?
O que percebi é que tem homenagem a mulheres de A a Z.  Roberto Carlos até se lembrou das inúmeras xarás que tenho pelo mundo.  E saiu com essa: ”Ana, eu me lembro com saudade do nosso tempo, nosso amor, nossa alegria.  Agora só te vejo nos meus sonhos, e minha vida é tão vazia. Oh, Ana, que saudades de você.”  Ele agora parece triste, mas  pode ser que  também essa Ana tenha partido por culpa dele mesmo... o     que se passa entre quatro paredes, a gente não pode supor.
Dorival Caymmi era mais um que sabia cantar a mulher. E Dora resplandeceu naquele dia que ele a viu no Carnaval do Recife, fazendo-o esquecer, por um momento, o que é que a baiana tem: Ô Dora, rainha do frevo e do Maracatú, ninguém requebra, nem dança melhor do que tu! Pois é, sair requebrando é uma das nossas melhores armas.  Desculpe-me, Caymmi... a Dora pode dançar melhor do que todo mundo, mas ninguém requebra - quando desfila - melhor do que a Gisele Bündchen.
Nós, mulheres, não gostávamos muito da provocação do Ataulfo Alves, cúmplice do Mário Lago, nos enfiando pela goela abaixo a tal mulher devotada: ”Ai,meu Deus, que saudades da Amélia,aquilo sim é que era mulher. Às vezes passava fome ao meu lado, e achava bonito não ter o que comer. E quando me via contrariado, dizia: Meu filho, o que se há de fazer?  Amélia não tinha a menor vaidade, Amélia é que era mulher de verdade“  Queriam provocar mesmo, pois os homens bem que adoram quando exercemos nossa vaidade, andando por aí cheias de charme.     
Para compensar, temos Helena, Helena, Helena. As que ganharam esse nome não são somente lembradas nas novelas de Manoel Carlos.  Alberto Land com Taiguara, que tinha uma voz maravilhosa, cantaram que algumas podem ser bem diferentes da Amélia: “Dar seu corpo custa nada, e com ar de apaixonada, em suas rodas elevadas, seu destino assegurou... talvez um dia, por desejo de poesia, Helena, Helena, Helena, talvez queira dar a mão, talvez tão tarde, até em vão”.  Mais dúvidas.
Maria Chiquinha era outra que não gostava muito da Amélia do Ataulfo e do Mário.  Guilherme Figueiredo e Geysa Boscoli contaram o que aconteceu.  O Genaro acabou fazendo bobagem quando viu que não agüentava a “dor” na cabeça. Ele queria apenas uma resposta razoável, mas ela não conseguiu enganar: “Quê que ocê foi fazê lá no mato, Maria Chiquinha? Quê que ocê foi fazê lá no mato? – Eu precisava cortá lenha, Genaro, meu bem...”.  Na música, fica engraçado, mas na vida real, a violência contra a mulher parece não ter fim e é uma vergonha.
Quando pensei em escrever essa crônica, lembrei-me de que o filme La La Land está agradando muito, trazendo detalhes de alguns dos melhores musicais de Hollywood.  No meu caso, o difícil foi escolher quais as letras que deveria trazer, encantada com as mais belas construções poéticas.  Senti muito não poder colocar todas. 
Depois de tanta poesia, chega-se à conclusão - nós somos mesmo bicho estranho, com Rita Lee alertando: "Mulher é bicho esquisito, todo o mês sangra...Um sexto sentido maior que a razão (...) POR ISSO NÃO PROVOQUE, é cor de rosa choque!" 
Provocando um pouquinho os homens, dou meus parabéns somente para o lado rosa choque do mundo - Viva o Dia Internacional da Mulher!  E finalizo com uma das belas canções sobre as Marias, dos geniais Milton Nascimento e Fernando Brant:

Mas é preciso ter força, é preciso ter raça,

É preciso ter gana sempre,

Quem traz no corpo uma marca,

Maria, Maria mistura dor e alegria,

Mas, é preciso ter manha,

É preciso ter graça,

É preciso ter sonho sempre,

Quem traz na pele essa marca,

Possui a estranha mania de ter fé na vida!

   

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A SINGULARIDADE DOS POVOS
Fevereiro de 2017
                   É verdade – cada louco com sua mania... e cada povo com suas, vamos dizer, singularidades. Assim, não perderia eu a oportunidade de escrever sobre a principal igreja da cidade portuguesa de Amarante, dedicada a São Gonçalo, que difere bastante das demais igrejas católicas no que diz respeito aos ex-votos dos fiéis.
           São Gonçalo é chamado de Santo, mas é preciso esclarecer logo que o processo de canonização não foi concluído, tendo sido apenas beatificado.  Por isso, deveria ser chamado de Beato Gonçalo, mas já que o povo o consagrou santo, vamos respeitar esse “usucapião religioso”.  Considero merecido o título – os fiéis de Amarante, no finalzinho do século XII, estavam profundamente gratos por ter ele sido um verdadeiro parceiro nas lutas pelas conquistas sociais e pessoais, além do apoio e doutrinação espiritual que dava a todos.  Logo, logo foram atribuídos uns tantos milagres e, com o passar dos anos, a falta de santificação não significou mais nada.  É Santo e não se discute mais.
Adorei saber como ganhou a fama de “casamenteiro” das mulheres mais velhas.  Sem dar atenção às normas da Igreja Católica, Gonçalo ministrava os sacramentos do matrimônio a inúmeros casais que já viviam juntos, alguns jovens, mas outros tantos já bem mais velhos.  O “x” da questão, na verdade, é que a maioria deles morava na aldeia de Ovelha. Assim, era o casamenteiro dos de Ovelha... Fácil entender como se tornou o casamenteiro das velhas!  O tempo cuida de tudo... até de ajustar o sentido das coisas, das palavras, sempre de acordo com o gosto e a necessidade das pessoas...
Mas sua atuação não se resumiu a casar “os que viviam em pecado”.   Dizem que até hoje arranja novos maridos para as velhinhas viúvas!   Também os homens que estão com problemas de impotência rezam para que ele lhes dê uma ajudinha.  As solteiras de Amarante costumam roçar o corpo no túmulo do santo, na esperança de arranjarem marido... as que não engravidam fazem o mesmo para se tornarem férteis.   Pois é... quem sabe dá certo?   Atiram para todo lado.
Em Aveiro, a Veneza portuguesa em razão de seus canais e pontes, as solteiras aflitas por um marido costumam fazer promessa para o Beato-Santo... e quando são atendidas, pagam a “dívida” atirando cavacas do alto da torre da igreja no dia em que é celebrado, 10 de janeiro.
Já em Amarante, as festas só ocorrem no primeiro final de semana de junho.  Mas não só a data é diferente.  Lembrando um rito pagão, as cavacas em agradecimento tomam, naquela cidade, uma forma fálica, sem qualquer disfarce.  E é claro que ganharam o nome de Caralhinhos de São Gonçalo.  Durante o regime de Salazar, foram proibidos... mas o mercado negro deve ter dado conta, pois continuaram a divertir os turistas.  E os ex-votos que se encontram na capela onde se encontra seu sarcófago antropomórfico não deixam dúvidas quanto a tudo que é pedido a ele.  São seios, órgãos genitais masculinos e femininos, bonequinhas representando crianças... Enfim, alguns bem diferentes do que se vê em outras igrejas.
Li algures que, em 2011, foi confeccionado, durante a Mostra de Vinho Verde e Tradições, um desses doces fálicos com um tamanho especial.  Simplesmente com 20 metros!  Para tanto, teriam usado mais de mil ovos, 70 quilos de açúcar grosso, 20 de açúcar fino e 50 de farinha de trigo.  Se foi parar no Guiness, isso eu não sei.
Mesmo não sendo santo, chegou com força ao Brasil e, assim, temos muitas cidades, além das homônimas, das quais São Gonçalo é o santo padroeiro.  Isso prova o fascínio que ele exerceu e exerce sobre os católicos.  E deve estar mais ocupado hoje em dia, já que é casamenteiro e tem muita gente sozinha por aí. 
Comecei a ler A Tinta da Melancolia, de Jean Starobinski, um obra bastante interessante sobre a história cultural da tristeza, traduzida por Rosa Freire D'Aguiar.  Descobri que Galeno, médico e filósofo romano, considerado o Pai da Farmácia, acreditava, há dois mil anos, que o amor frustrado levaria a uma continência anormal; assim, a retenção do líquido seminal por um tempo maior do que o devido levaria ao cérebro substâncias tóxicas, com prejuízos substanciais para a saúde da pessoa... E incontáveis autores continuaram a falar do importante papel terapêutico do sexo no que tange ao bem estar do ser humano.  Outros, preocupados com a moral, lembravam que as doenças venéreas e a devassidão seriam, também, desencadeadoras da melancolia.  Ou seja, há controvérsias. 
           Para terminar o assunto, antes que a censura, preocupada com a moral e os bons costumes, venha cortar alguns parágrafos, vou ensinar a oração de casamento de São Gonçalo, em caso de encontrarmos eventuais interessadas
“São Gonçalo do Amarante, 
Casamenteiro que sois,
Primeiro casais a mim;
As outras casais depois.

São Gonçalo,ajudai-me,
De joelhos lhe imploro,
Fazei com que eu case logo,
Com aquele que adoro.”