DE
PENEDO A HELSINKI
Em
Penedo, na aconchegante colônia finlandesa no Rio de Janeiro, travei meus
primeiros contatos com esse país nórdico, tão distante de nosso mundo
tropical. Suomi, o nome em finlandês
para designar a terra dos mil lagos (na verdade, são cento e noventa mil ao
todo), estava nas muitas camisetas vendidas nas lojinhas de artesanato que se
espalhavam por ali, bem perto de Resende.
Mesmo
com apenas pouco mais de cinco milhões de habitantes, são muitos os feitos
desse povo, sendo os mais conhecidos o sistema Linux de computação, os
celulares NOKIA. o monitor de frequência cardíaca, o coquetel molotov (argh!),
o SMS, a sauna... pois é, alguns são reflexo do alto nível da formação do povo
que se vê hoje lá.
Até
os anos cinqüenta do século passado, era um país pobre, atrasado em relação a
outros países europeus. A mudança
começou no início dos anos 70, quando a educação virou prioridade. Educação pública de qualidade até a
universidade, para todas as crianças e jovens. A formação dos professores passou a ser de
excelência. Com isso, mudaram o futuro
dos cidadãos e do país.
Gostaria
de conhecer melhor o sistema deles.
Diminuíram o horário das aulas, o número de provas, ao mesmo tempo que
estimularam o pensar independente, deixando de lado conceitos e fórmulas. Confesso que escrevo isso cometendo um pecado
– a inveja!!!
Mudando
de assunto - o clima. Tenho certeza de
que seria difícil me adaptar. Somente no
verão eu estaria bem, com os termômetros podendo marcar 30 graus. No inverno, não poucas vezes chegam aos 20
negativos! Bravo povo finlandês... eu
congelaria!
Outro
ponto interessante: parece-me justa a política de cobrança de multas por
infrações de trânsito. Não são fixas, variando de acordo com a renda anual do
infrator. O guia da excursão me contou que
um ricaço foi multado em 200 mil euros simplesmente por ter ultrapassado o
limite de velocidade em uma estrada.
Acho que poderíamos nos inspirar nesse modelo, principalmente com
relação aos jovens que praticam “racha” por esse Brasil afora.
É
na Finlândia, na região da Lapônia, que vive o bom velhinho. Adoro a época de Natal... Provavelmente, por herança cultural de minha
avó paterna. As festas na casa dela eram
inesquecíveis, com a presença obrigatória do Papai Noel. E até hoje mantenho a
tradição de enfeitar a casa, desde novembro, deixando à flor da pele meu lado
criança.
São
Nicolau, que inspirou o mito de nosso Papai Noel de hoje, era arcebispo na
Turquia no século IV. Ajudava quem
estivesse com problemas financeiros, colocando um saco com moedas de ouro na
chaminés das casas. Só foi transformado
em símbolo natalino muito tempo depois, na Alemanha, e a roupa, pelo que soube,
era verde. A troca definitiva pelo
vermelho se deu por influência da Coca-Cola, que colocou nosso velhinho com essa
cor em um comercial, isso lá em 1931.
Daí para a frente, não teve volta.
A
região da Lapônia, que também se estende por outros países, tem o nome de Terra
do Sol da Meia Noite apenas na sua porção finlandesa,. Em uma de suas cidades, um único dia de verão
pode durar até dois meses. O preço que
se paga é não podermos ver o sol se pondo no horizonte por todo esse
tempo. Em contra partida, no escuro
inverno, o sol fica “escondido” por uns 50 dias, fenômeno conhecido por noite
polar. Penso que gostaria de vivenciar,
por uns poucos dias, o sol da meia noite, embora acredite que o organismo se ressinta
tanto quanto nos invernos escuros que também temos por lá. Imagino a confusão no cérebro.
A
Finlândia também não tem uma história de independência há muito tempo. Fazia parte do reino da Suécia e, em 1809,
foi declarado um grão-ducado do império russo.
Somente em 1917 declarou-se uma república independente. O drama é que logo teve início uma guerra
contra a Rússia e, durante a Segunda Guerra Mundial, contra a Alemanha. Enfim, livres antes tarde do que nunca.
Como
o mundo anda um pouco instável, até a Finlândia está, hoje, em sinal de
alerta. Apresentou uma contração na
economia, com a primeira queda nos últimos anos. Perdeu por causa da queda nos preços do
papel, um de seus principais produtos de exportação e, acreditem, também em
razão da desvalorização das ações da NOKIA.
Estão cuidando, para evitar que a situação se agrave. Isso é ótimo, pois os primeiros sinais
servem para a correção dos eventuais erros no trajeto.
O
alto grau de desenvolvimento do país e de seus habitantes, o inverno
rigorosíssimo, tudo isso sempre me deu a impressão de que não haveria muito
espaço para o humor. Mas ele sobrevive
a tudo isso! Além do carregamento de
esposa, esporte que também é praticado na Estônia e alguns outros países, que
tal assistirmos aos campeonatos de caça aos mosquitos, lançamento de celular
(acho que só os da marca Nokia), lançamento de bota de borracha, futebol no
pântano...
Para
divertir mais um pouco, tem a história da pizza finlandesa. Berlusconi, o polêmico político italiano, em
sua viagem à Finlândia em 2005, afirmou que não gostou nem um pouco da
culinária local, e que o presunto de Parma era muito superior à carne de rena
defumada deles. É claro que a vingança
veio, três anos depois, na Itália, em um concurso internacional de pizza. Os louríssimos apareceram com a pizza
Berlusconi, cujo ingrediente principal era a rena defumada. Sucesso total! Vingança maligna.
Na
minha visita de apenas um dia, encontrei Aime Virkkilä Accorsi (brasileira descendente
de finlandeses que vieram para Penedo), que mora lá há 10 anos, com a filha de
15 anos. Sente falta de várias coisas,
como abraços e beijos, mas a segurança, independência e o bem-estar social que
o país proporciona compensam essa saudade.
Sugiro uma visita à Catedral
de Pedra. A religião predominante no país é a luterana, e a
Temppeliaukio Kirkko é uma construção moderna, de 1969, que impressiona quem a
visita. Tem sua maior parte subterrânea,
construída em uma grande rocha de granito, cujo interior foi retirado para
abrir o espaço, circular,e formar as paredes. Fascinante a cúpula de cobre, que
é praticamente a única parte que se vê de fora.
O contraste dos materiais naturais e os construídos pelo homem a tornam
única. E a perfeição de sua acústica
possibilita a apresentação de inúmeros concertos. Tive a sorte de chegar quando um pianista
executava peças clássicas finlandesas.
Outra dica – uma visita ao Parque
Sibelius, onde se encontra o monumento em homenagem ao grande compositor
finlandês. Achei a obra muito
interessante, forte... são mais de seiscentos tubos ocos, que lembram um órgão
imenso. Há uma versão menor que se
encontra na sede da UNESCO em Paris.
Suas sete sinfonias continuam sendo executadas nas grandes salas de
concerto pelo mundo afora.
A
moeda é o euro, e sinto só ter conhecido Helsinki, sua capital desenvolvida e
organizada. É um país com três quartos
do território de florestas, cento e noventa mil lagos e cento e oitenta mil
ilhas... Acho que é em razão dessa geografia é o país europeu com menor
densidade populacional. Gostaria de conhecer melhor, para explorar melhor esse
país que se transformou em tão pouco tempo... inveja, de novo.