A Velhinha Encrenqueira, em forte tom de desabafo,
espalha aos quatros ventos que sonha em ser abduzida. Embora abduzir possa significar a pessoa ser
raptada e levada de um ponto a outro sem consentimento, tudo aqui mesmo na
Terra, o que ela realmente quer é mudar de planeta.
Fala
tanto nisso que se tornou uma chata daquelas.
Almeja uma abdução por não aguentar mais o que acontece por aqui. Leu
muitas revistas científicas, e assim tem
a pretensão de achar que sabe tudo sobre o assunto. Atreve-se a chamar de ignorantes
aqueles quw duvidam da existência de extraterrestres e discos voadores. E mais - acredita que seja verdadeiro o
primeiro caso de abdução registrado no Brasil, lá atrás em 1588. Soube que a experiência não foi muito boa, já
que o indígena acabou morrendo logo depois que voltou do “passeio”, sem tempo
para contar o que realmente aconteceu.
Uma pena, segundo ela.
Não vou dizer que a Velhinha está apenas
querendo ficar livre dessa política radicalizada, dos parlamentares que deixam
a desejar, de administradores públicos incompetentes ou gananciosos, desse ou
daquele partido. Ela também quer chamar atenção de todos nós, cidadãos comuns, para nosso próprio umbigo.
Irrita-se
facilmente com os que jogam lixo pela janela do carro ou do ônibus, os da
guimba de cigarro na calçada, os comerciantes dos 900 gramas pelo preço de um
quilo, os engraçadinhos que “dormem” no banho, os que pegam atestado médico
falso, os que furam filas... e, sem dúvida, os irresponsáveis que furam sinais
de trânsito! Enfim, ela quer mesmo é “matar”
todos nós! Diz que cometemos esses “pecadilhos”
desde que acordamos, iludidos de não estarmos prejudicando ninguém. O drama é que não são atos tão inocentes assim. Nem quer chamar atenção dos erros de maior
alcance, para que seja possível alguns se “salvarem”. A paciência da Velhinha está no volume morto
há tempos.
Outro dia, enquanto caminhava no calçadão, viu a vizinha deixar
cair uma sacola plástica no chão. Querendo
ser gentil, perguntou se era dela, mas a
resposta a chocou – era, era sim, mas havia jogado fora por não querer mais. Imagino o que a Velhinha gostaria de ter dito,
mas controlou-se, na certeza de que a encontrará, diariamente, no elevador. Embora não lhe falte vontade, não pode
declarar guerra a todos os que fazem coisas do tipo.
No último carnaval, em um resort badalado, passou por um
episódio interessante. Deparou-se com muitas
pessoas conversando em espanhol, uns poucos usando o francês, e outros tantos que
se aventuravam em uma mistura de português com espanhol. Dona de fértil imaginação, acreditou ter sido abduzida para algum universo
paralelo, onde as pessoas agiriam com toda a naturalidade, mas não naquela dimensão nossa velha conhecida. Pelo menos, não pareciam estar por aqui, pois
todos se divertiam muito, rindo, bebendo, cantando, como se a vida nesse
planeta fosse uma maravilha só. Muitas vezes,
felizmente, ainda é.
Enfim,
ela se sentiu em um paraíso, onde, em meio a uma natureza belíssima, havia pessoas
simpáticas, atenciosas, educadíssimas, com as caras mais felizes do mundo. O que teria acontecido? Será que, quando iam para Mangaratiba, o carro teria passado
para essa tal outra dimensão sem que pudessem notar? O problema é que, se não estava em outra
dimensão, onde estaria? Caso tivesse morrido e ido para o paraíso mesmo, por
que encontrava tão poucos brasileiros por ali?
São Pedro discrimina nosso povo ?
Ou é falta de dinheiro mesmo?
Embora tenha sonhado por alguns dias que tivesse sido abduzida
para um mundo paralelo, foi trazida de
volta e, com o choque de realidade, saiu em busca de mais informações. Leu que quase 3 milhões de americanos afirmaram,
em 2002, terem sido abduzidos pelo menos uma vez. Descobriu
também que Elba Ramalho já foi abduzida, e na ocasião, implantaram nela um chip.
A sorte é que o tal chip foi retirado posteriormente, por seres divinos, segundo
as próprias informações da cantora
Nossa velhinha, aprofundando-se ainda mais nas pesquisas, soube que os ETs costumam escolher suas vítimas após conhecer a rotina delas, entrando em ação quando a pessoa escolhida se encontra sozinha ou em lugar mais longe das cidades. Mandam um sinal elétrico que serve para controlar sua mente e, então, pegam e levam embora. Deduzo que os que moram em grandes cidades correm riscos menores.
Nossa velhinha, aprofundando-se ainda mais nas pesquisas, soube que os ETs costumam escolher suas vítimas após conhecer a rotina delas, entrando em ação quando a pessoa escolhida se encontra sozinha ou em lugar mais longe das cidades. Mandam um sinal elétrico que serve para controlar sua mente e, então, pegam e levam embora. Deduzo que os que moram em grandes cidades correm riscos menores.
Porém, o modo mais usado é com aquele cone de luz que desce da espaçonave,
do jeitinho que a gente vê nos filmes de ficção. A pessoa abduzida é levada
para dentro da espaçonave e submetida a uma série de exames de laboratório,
tipo um Sergio Franco Espacial. Coletam amostras de sangue, fezes, pele, fios
de cabelo, esperma e óvulos. Depois, a vítima é devolvida ao mesmo local onde
foi capturada. Quando acorda, às vezes acha
que foi somente um sonho. Alguns médicos
atribuem essa história toda a um distúrbio chamado narcolepsia, desencadeado por
situações de estresse e que pode causar alucinações auditivas e visuais.
Como não tenho o menor interesse em ser abduzida, perguntei à Encrenqueira se havia algum jeito de evitar ser levada. E não é que um professor americano que trabalha na NASA inventou um capacete (screen helmet) capaz de repelir as mensagens telepáticas que os Ets enviam para as vítimas? O pior é que ele tem certeza de que seremos invadidos na próxima década por alienigenas, e disso não haverá como escapar. Diante de tal ameaça, o melhor é dar um pulinho em Orlando, na Disney, e comprar um capacete desses. A velhinha quer ser abduzida, mas eu não quero!!! Prefiro ficar por aqui mesmo, apesar dos pesares.
Com o maior cuidado, perguntei-lhe se não tem medo, quando repreende alguém que esteja “fazendo bobagem”, de ser questionada se acha que é santa e que não erra nunca. Rebateu na hora! Claro que comete erros... mas se esforça para não prejudicar o outro, a comunidade, o meio ambiente. Quando imagino tudo o que pensam dela nas ruas, tenho certeza de que estão cometendo uma injustiça. Tem uma boa alma.
Resumo da ópera - pelo que vejo por aí, seriam necessárias muitas velhinhas encrenqueiras tentando organizar a bagunça. Mas ela, realmente, não quer fazer o papel de irmã Paula, nem de salvadora da pátria. Quer apenas andar na rua sem ver lixo espalhado, sem medo de ser atropelada, ter certeza de que sua cortina não vai pegar fogo com a guimba do cigarro alheio... E quer que cada um se esforce para estar atento aos cuidados compatíveis com uma vida em comunidade minimamente civilizada. Ou vai torcer para sermos nós os abduzidos na próxima vinda dos extraterrestres!
Como não tenho o menor interesse em ser abduzida, perguntei à Encrenqueira se havia algum jeito de evitar ser levada. E não é que um professor americano que trabalha na NASA inventou um capacete (screen helmet) capaz de repelir as mensagens telepáticas que os Ets enviam para as vítimas? O pior é que ele tem certeza de que seremos invadidos na próxima década por alienigenas, e disso não haverá como escapar. Diante de tal ameaça, o melhor é dar um pulinho em Orlando, na Disney, e comprar um capacete desses. A velhinha quer ser abduzida, mas eu não quero!!! Prefiro ficar por aqui mesmo, apesar dos pesares.
Com o maior cuidado, perguntei-lhe se não tem medo, quando repreende alguém que esteja “fazendo bobagem”, de ser questionada se acha que é santa e que não erra nunca. Rebateu na hora! Claro que comete erros... mas se esforça para não prejudicar o outro, a comunidade, o meio ambiente. Quando imagino tudo o que pensam dela nas ruas, tenho certeza de que estão cometendo uma injustiça. Tem uma boa alma.
Resumo da ópera - pelo que vejo por aí, seriam necessárias muitas velhinhas encrenqueiras tentando organizar a bagunça. Mas ela, realmente, não quer fazer o papel de irmã Paula, nem de salvadora da pátria. Quer apenas andar na rua sem ver lixo espalhado, sem medo de ser atropelada, ter certeza de que sua cortina não vai pegar fogo com a guimba do cigarro alheio... E quer que cada um se esforce para estar atento aos cuidados compatíveis com uma vida em comunidade minimamente civilizada. Ou vai torcer para sermos nós os abduzidos na próxima vinda dos extraterrestres!