MÉXICO, UM PAÍS ENCANTADOR
Que
eu iria gostar muito, tinha certeza, mas foi muito além do que
imaginei. História, cultura, o povo... já estou pensando em
voltar, com muitos planos para ver o tanto que ficou no desejo.
É o quinto país em tamanho
nas Américas e, com sua consistente economia, consegue exportar mais produtos
manufaturados do que todos os países latinos juntos! Não imaginava isso! Quanto
à cachaça e a tequila, os dados da exportação são impressionantes – em 2015,
foram 7 milhões de litros de nossa caçhaca que foram para 61
países. E foram 180 milhões de tequila para 120
países. Nossa...
São mais de cento e vinte
milhões de habitantes e recebem, por ano, cerca de 30 milhões de turistas;
parece que é o nono país mais visitado no mundo. Nós, aqui,
recebemos em 2016 um pouco menos de sete milhões.
Foram
muitas as civilizações que viveram na região, dentre as mais conhecidas as dos
maias, dos astecas, dos olmecas e dos zapotecas. Algumas, que
duraram cerca de quatro mil anos, muito desenvolvidas, deixaram um grande
legado, como observatórios, pirâmides, aquedutos, cidades planejadas, grandes
avanços em astronomia, matemática... E o calendário com 365 dias! Só
que, quando Hernán Cortez apareceu, as coisas mudaram.
A
versão mais famosa sobre a chegada dos espanhóis diz que Montezuma, quando
soube que “torres andantes” se aproximavam da praia, acreditou que se cumpria a
lenda de que o deus Quetzalcatl voltaria, em forma de homem branco, com barba,
amante da paz e contra os sacrifícios humanos, inaugurando uma nova era para
seu povo... Ao ver Cortez, teve certeza disso, recebendo o espanhol
com todas as honras, presenteando-o e a seus homens com muitos objetos de ouro. Não
precisamos de muita imaginação para saber o que aconteceu depois,
independentemente das versões que temos sobre o contato inicial.
Entre
1519 e 1521, as grandes civilizações daquele pedaço do Novo Mundo foram
praticamente dizimadas, suas cidades destruídas, e sobre a cidade de Montezuma
foi iniciada a construção da Cidade do México. E a religião católica
foi ganhando espaço - até a filha do imperador asteca ganhou o nome cristão de
Isabel.
Mas não só os
confrontos com os espanhóis foram danosos para os povos
pré-hispânicos. As doenças trazidas pelos europeus, como
gripe, varíola e sarampo, fizeram uma grande parte do “trabalho”. Estudiosos afirmam que
morreram entre 7 e 8 milhões nesse período. Anos mais tarde, outra
epidemia matou 15 milhões de pessoas. Essas doenças surgiram após a
chegada dos europeus. Enfim, foram várias as causas, e essas duas pesaram
significativamente para o fim dessas civilizações. Uma pena.
Da chegada dos
espanhóis, transformando essa região no Vice-Reino da Espanha, até a declaração
da independência em 1810, os povos que ali habitavam foram dominados e
explorados pelos espanhóis, obrigados a seguir a lei da Espanha. O
povo nunca se conformou com as injustiças e exploração, mas somente com a inspiração
vinda dos iluministas e da Revolução Francesa, a luta se instalou. E seus
principais chefes foram dois padres católicos.
Como em
qualquer processo desse tipo, não foi fácil... Em 1821, já com os espanhóis
afastados do poder, o país ganhou o nome de México. Foi monarquia
independente, foi república, os franceses andaram por lá, voltou a ser
monarquia, e o último imperador foi fuzilado... Eu não me lembrava de que
Maximiliano era primo de nosso Pedro II.
Para as coisas
ficarem ainda mais difíceis, enquanto se estabeleciam como independentes,
envolveram-se em uma guerra contra os Estados Unidos, na tentativa de manter o
território ocupado pela recém proclamada República do Texas. Na
verdade, um pouco antes de 1850, os mexicanos perderam, além do Texas,
praticamente a metade de seu território,
Os
protagonistas da história mexicana do complicado período pós-independência
foram Benito Juárez, General Porfirio Dias, Emiliano Zapata, que lutou contra a
ditadura de três décadas do General, mas foi traído e morto antes de conseguir
libertar o país, e Pancho Villa. Este, por muitos considerado um
perigoso guerrilheiro, é aclamado pela maioria dos mexicanos como um defensor
dos pobres, um verdadeiro herói popular. Como sempre, cada um vê e
analisa do jeito que melhor lhe interessa. E a História é contada
pelo vencedor. Nessa luta do início do século XX, dez por cento da
população foi morta.
Mesmo encantada
com o México, devo confessar que sua culinária, com sabores fortes e picantes,
não me cai nada bem. Por isso, seus burritos, as enchiladas,
os tacos, as tortillas não fizeram parte de meu cardápio. O
guacamole, dependendo dos temperos acrescentados, pode até me
agradar. A UNESCO declarou a gastronomia mexicana Patrimônio
Imaterial da Humanidade. Lamento não ter bom gosto.
Depois de
assistir “Coco”, no Brasil intitulada A Vida É Uma Festa, animação premiada com
o Oscar de 2018, fiquei fascinada com a festa do Dia dos Mortos que, no México,
é uma das mais populares comemorações. Pesquisei um pouco e adorei o
que descobri. Trouxe alguns enfeites para, esse ano, em dois de
novembro, fazer aqui em casa uma versão brasileira desse
evento. Para eles, a morte representa a libertação, e nessa festa os
mortos devem ser recebidos com alegria, para que tenham a vida eterna e feliz
no reino deles. A eles, são oferecidas as comidas, bebidas e músicas
preferidas,
Adorei conhecer
melhor a Virgem de Guadalupe que, em 1910, foi proclamada Padroeira da América
Latina. Poucos brasileiros sabem disso... eu não tinha
ideia! Fui visitar sua basílica na Cidade do México, com
seu impressionante movimento de devotos e visitantes. Lembrei-me de
nossa padroeira, em Aparecida, com sua basílica que me parece um pouco
maior.
O que é dito é
que, em 1531, o
indígena Juan Diego teria tido a visão da Virgem, que se identificou como mãe
de Deus, pedindo-lhe que instruísse o bispo a construir uma igreja em sua honra
ali mesmo, ao pé do Monte Tepeyac, no norte da cidade. O Bispo do
México, é óbvio, não acreditou na história do jovem. Juan Diego
teria recebido dela, então, a instrução de recolher algumas flores cortadas
daquele monte e as levasse ao bispo. Assim o fez.
E, naquele
doze de dezembro, na frente do representante do Vaticano, ao desdobrar a tilma,
todos viram estampada a imagem de N. Sa. de Guadalupe, morena, com traços
mestiços! A respeito da tilma, que era o manto que os homens da
região usavam naquele período, afirmam os especialistas que o tecido com que
era feita tinha pouca qualidade, com duração de apenas 20 anos; essa, com a
santa imagem, tem quase 500 e continua perfeita! Não vi, confesso,
pois o guia não nos levou para ver. Só me dei conta depois.
Voltando ao
fato - impressionado, o Bispo mandou construir, naquele mesmo ano, a primeira
igreja em honra da Virgem, inaugurada apenas em 1709! O dia 12 de
dezembro é a ela consagrado, e cerca de três milhões de devotos visitam o
santuário nesse dia. Não pretendo estar lá nesse dia.
Atualmente,
no México, o culto à Virgem é muito amplo, e sua força se fez muito presente em
toda a sua história. O interessante é que, dentre seus milhões de
fiéis, muitos que professam o guadalupanismo não se consideram necessariamente
católicos.
Com o tempo,
alguns milagres foram atribuídos a ela, e o manto de Juan Diego tornou-se o
símbolo religioso e cultural mais popular do país. Entretanto,
alguns estudiosos duvidaram publicamente da existência desse
indígena. Mesmo assim, ele foi canonizado em 2002, sob o nome de São
Juan Diego Cuauhtlatoatzin. Foi o primeiro indígena americano a ser tornar um
santo católico.
São duas
basílicas no complexo de Guadalupe, a primeira do século XVI e a nova,
concluída em 1976. Como a Cidade do México foi construída em cima de
um lago aterrado, essa nova basílica foi necessária em razão do afundamento
daquela original. Foi recuperada, entretanto, e desde 2000 missas são rezadas
todos os dias. Achei muito bonita.
Na nova, bem
moderna, cabem 10 mil pessoas, mas nas grandes celebrações, temos 40 mil
lugares. A de Aparecida comporta 43 mil fiéis, embora tenha menos
visitantes por ano, com 13 milhões em 2017. A de Guadalupe recebe,
em média, 20 milhões anualmente. Algumas vezes, supera as visitas à
de São Pedro do Vaticano.
Encantada com
a Virgem de Guadalupe, trouxe sua imagem para proteger minha casa, junto com
N.Sa. de Aparecida. As duas poderão revezar-se na
tarefa. Terão tempo para atender a outros devotos, pois eu não darei
muito trabalho. Prometo esforçar-me... Se terei êxito ou não nessa
tarefa hercúlea, isso já é uma outra história.
Como não
poderia deixar de ser, tem uma história de rainha, que não sei se podemos
acreditar. Carlota, esposa de Maximiliano do México, era belga, e
parente de um sem número de reis e rainhas do mundo. Teve vários
pretendentes, inclusive Pedro V, de Portugal, mas estava apaixonada pelo
austríaco. E com ele se casou. Foram para o México quando
a França andou por lá, e Napoleão III quis um aliado para manter seu domínio no
Novo Mundo. Visitei o bonito palácio de Chapultepec, onde viveram
durante o curto período de reinado. Diz a história que, em 1867,
quando os franceses tiraram o apoio ao imperador mexicano, ela partiu para a
Europa, procurando apoio para o marido. Ao perceber que não
tivera sucesso, teve um colapso nervoso, acabando por enlouquecer de vez quando
o marido foi executado pelos revoltosos mexicanos. Essa a história oficial.
Na verdade,
ouvi uma história bem apimentada. Ligando o palácio onde o casal
vivia a outro ponto do bosque de mesmo nome, foi construído, a pedido dela, um
“paseo”, que ganhou o nome de Paseo de la Emperatriz. Contam as más
línguas que ela saía em carruagem fechada e, no meio do caminho, entrava um
capitão mexicano que, depois de um tempo, saía ao final do caminho. Dizem,
inclusive, que ela estaria grávida desse capitão e que por isso teria partido
para a Europa. Estou contando o que o guia mexicano relatou para
nós, turistas curiosos. Enfim, tem sempre uma história a ser
contada, mas que acaba virando folclore.
Acaba de ser
eleito o novo Presidente do México. Falou-se na violência que existe
por lá. Fui verificar – foram 21.5 mortes por 100 mil habitantes em
2016. Nós, aqui no Brasil, temos uma taxa pior... Foram 25.2 em
2017. Infelizmente, ambas as taxas são muito altas, mas não temos
como dizer que estamos em melhores condições. Porém, no futebol,
estamos na frente. Conseguimos ultrapassar o ataque do
primeiro tempo, para fechar o jogo com uma vantagem bem confortável. Aquela
pisada no Neymar foi desprezível, ato indigno de um atleta. Vamos em frente,
jogando o melhor possível. Prefiro lembrar-me de como os mexicanos nos
acolheram em 1970, torcendo por nós depois que o time do país foi eliminado...
Éramos a segunda opção deles.
México,
aguarde-me! Voltarei para poder conhecer mais de sua capital, com mais
de 20 milhões de habitantes... e que, apesar de tanta gente, é uma cidade muito
limpa! Quero curtir seus maravilhosos museus e monumentos, e
conhecer melhor esse povo hospitaleiro, alegre, colorido, e, sem dúvida, com
uma bela história de luta, de amor à arte, à tradição e à liberdade.
Que bela aula, Ana. Grato!
ResponderExcluirSuas crônicas, Ana, sempre me fascinam pela leveza e pelos conhecimentos que transmitem!
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