domingo, 10 de fevereiro de 2019


CATARINA II, AINDA...

Acho que nem duas conversas sobre Catarina II serão suficientes; porém, decidi contar apenas o que descobri de mais interessante, terminando o assunto por aqui.  Impossível assegurar que foi o que realmente aconteceu. Posso apenas trazer a versão oficial mais aceita, recheada com fofocas que sobreviveram ao tempo.
O período de seu reinado foi classificado como a Era de Ouro do Império, com a marcante expansão das fronteiras russas, conseguida através de conquistas militares e do trabalho de seu habilidoso corpo diplomático.  Anexaram a Crimeia, boa parte do Cáucaso e da Ucrânia, Bielorrússia, Lituânia e Letônia. Com isso, o império aumentou substancialmente sua influência no mundo, naquela segunda metade do século XVIII.
A Grande, como era chamada, tinha muitas ideias, algumas bem polêmicas, convenhamos,  mas recebia sempre sugestões e orientações de seus favoritos, generais e almirantes que conseguiam exercer algum controle sobre ela. Trocava constantemente correspondência com importantes intelectuais pelo mundo.  Criar a Universidade de Moscou, permitir a liberdade de culto e dividir o enorme território em províncias foram algumas de suas muitas ações.  A Carta Régia da Nobreza que conferiu aos nobres garantiu a eles isenção de impostos, como também os liberou do serviço militar compulsório.  Conto isso para confirmar que o corporativismo vem de longe...
Inspirando-se em Pedro, o Grande, um louco dotado de grandes habilidades como governante, continuou a revitalizar o império, seguindo os modelos da Europa do Oeste.  A oposição não lhe dava sossego, mas conseguiu superar os adversários.  Quando subiu ao trono, havia outros pretendentes que se consideravam com direito a assumir. Na verdade, Catarina não correu grandes riscos, pois seus assessores trataram de resolver os problemas.  Havia um mais perigoso.   Ivan VI fora nomeado Czar por sua tia-avó Ana Romanov, em 1740, quando tinha seis meses de idade. Mas Elizabeth II (Isabel II), também uma Romanov, através de um golpe de estado em 1741, assumiu o poder, aprisionando o menino, de um ano e pouco apenas, com toda sua família, procurando evitar dificuldades.  Era filha de Pedro, o Grande, e se achava com mais direito ao trono do que o pequeno.  Bom lembrar que foi ela foi quem deixou o trono para Pedro, que assumiu como Pedro III quando ela faleceu, como também havia escolhido Sofia/Catarina II para se casar com ele.
  O pobrezinho do Ivan VI tentou resgatar o direito ao Império quando  Pedro III foi assassinado.  Doce ilusão - os aliados de Catarina não permitiram. As ordens dela foram claras -  perante qualquer tentativa de fuga, deveria ser fuzilado. E isso realmente aconteceu dois anos depois.  Foi eliminado, sob a desculpa de que enlouquecera ao ficar enclausurado por toda a vida, e de que não seria um bom governante.  Dizem que ele estava mesmo fora do juízo normal, o que não seria de se estranhar depois de ter passado praticamente os vinte e três anos de vida como prisioneiro do império.
 Catarina, como sabemos, adorava os homens; isso, no entanto, nunca a impediu de ser uma feminista.  A primeira instituição financiada por um estado europeu para educação superior de mulheres foi criada por ela.   Outro fato a ser comentado é que não descendia dos Romanov, e sim da dinastia que os antecedera.  Por isso, até hoje existe uma questão polêmica.  Qual seu verdadeiro status?  Regente ou usurpadora? Muitos entendem que seria tolerada apenas como regente durante a minoridade de seu filho Paulo.
Mas nem seu herdeiro, com seus seguidores, tiveram êxito nas tentativas de tirar-lhe a coroa.  Afirmava que o filho era um fraco, garantindo-se no trono enquanto viveu.  Se não deu espaço para o próprio filho, imagine como lidou com os estranhos.  Ele somente assumiu após a morte da mãe, como Paulo I, mas reinou apenas por quatro anos e quatro meses.  Ao recusar-se a abdicar, foi morto e sucedido por seu filho Alexandre I.  E ainda tem gente que gostaria de pertencer à nobreza.  Em compensação, com a numerosa família que constituiu com a segunda esposa, garantiu que quase todas as famílias reais da Europa sejam seus descendentes diretos.  Dentre eles, temos o Príncipe Charles, da Inglaterra, por parte de pai, o Rei da Suécia, casado com a brasileira Silvia, a Rainha Margarida II, da Dinamarca, Felipe IV, da Espanha, por parte da mãe, e muitos outros.  
Na verdade, nem tudo realizado por Catarina pode ser aplaudido.  Logo que subiu ao trono, fez uma grande reforma no Senado, tirando parte do poder do órgão, como também assumiu terras da Igreja e dos camponeses, sem a menor cerimônia.  Embora tenha até mesmo pensado em abolir a escravatura, não o fez, ao perceber que os nobres não iriam gostar: ou seja, aos nobres, tudo, ao povo, quase nada.  Para sermos justos, algumas medidas beneficiaram os servos, classe numerosa na Rússia, mas absurdos continuaram a ser cometidos.  Por todo o descontentamento que despertou, precisou enfrentar várias rebeliões também dessa classe de súditos, pois nunca aceitaram que houvesse destronado Pedro III, esse, sim, autor de decreto que libertava aqueles que eram ligados à Igreja Ortodoxa.  Venceu a todos.
Em razão de sua ligação intelectual com Voltaire, Diderot e outros iluministas franceses, foi considerada uma déspota esclarecida.  Escreveu comédias, novelas moralizantes, imaginem, e até mesmo uma autobiografia.  Adorava arte, e sua coleção particular deu origem ao monumental Museu Hermitage, que agora ocupa todo o Palácio de Inverno de São Petersburgo.  Fiquei impressionada com a grandeza.  Catarina trouxe para a corte russa um sem número de intelectuais e procurou aplicar princípios do Iluminismo em suas ações.  Na verdade, precisou imprimir um ritmo mais lento à adoção de tais princípios, ao perceber que seus conselheiros mais moderados e experientes não concordavam com muitos deles.  Acreditava na Educação como modo de modernizar o espírito e as ideias russas, o que me faz olhar para sua história com um pouco mais de simpatia. Entretanto, seus esforços na área não renderam tantos frutos quando imaginou, e o universo das crianças atendidas por seus projetos foi pequeno quando se leva em conta a população russa.  Justiça seja feita – tentou!
Voltando ao tema amoroso - um de seus inúmeros amantes foi Grigory Potemkin. Fácil de lembrar, pois o encouraçado de mesmo nome ficou para sempre na História e na nossa memória.  A revolta de seus marinheiros foi o prenúncio da revolução russa de 1917 e o filme de Eisenstein é um dos grandes clássicos de todos os tempos.  Tive a sorte de assistir, em Paris, o ballet de Kiev encenando a história do navio e da revolta em uma coreografia moderna.  Inesquecível.  Voltando ao amante.  Esse oficial, um exímio marechal de campo, pelo que se sabe, foi das pessoas mais ligadas a ela. Muitos historiadores os consideram dois dos maiores estadistas da Rússia.  Recordando as fofocas da época, vale dizer que ambos eram conhecidos pela insaciável disposição para o sexo.  Com isso, teriam formado fantástica parceria na política, no campo militar e na cama. Adoraria ler as picantes cartas trocadas entre eles, que foram muitas.
Catarina teve outro Grigory como amante, este da família Orlov. Eu já havia falado nele na outra crônica, quando contei que seu irmão caçula foi um dos suspeitos do assassinato de Pedro III.  Marcou muito a vida dela, e chegaram a ter um filho, Alexei Bobrinskoy, que ela criou bem longe da corte.  Na verdade, filhos não foram prioridade.
Embora eu não vá perder tempo listando os muitos amantes de Catarina, já que não interessa mesmo, vale comentar que, ao final de seus romances, costumava oferecer uma boa vida para os que mandava ir adiante.  Não sei se para todos, mas não foram poucos os que receberam títulos e postos importantes e, junto, bons rendimentos.  Um deles chegou a receber o trono da Polônia como recompensa. 
Dizem que ela chegou a ter vinte e três amantes.  O último teria vinte anos, enquanto ela acabara de completar sessenta. Também contam que vários deles realmente se apaixonaram por ela.  Imagino como era sedutora! A fama de amante incontrolável e sedenta por experiências tórridas não perdeu força com a passagem dos séculos.  Há fofocas até mesmo de que fazia sexo com animais.  Encontrei uma história de que não teria morrido em consequência de um AVC, e sim quando o cavalo com quem estava pintando e bordando teria caído em cima dela.  Prefiro achar que foram os inimigos, com ódio dela, que inventaram isso; entretanto, não há como saber.  Vamos valorizar a versão oficial de que morreu mesmo de um derrame cerebral.
Antes de encerrar a conversa sobre a vida amorosa de Catarina II, devo repassar a história contada pelo guia que me acompanhou na Rússia.  Era, como sabemos, uma observadora da “paisagem”.  Olhava, encontrava o alvo perfeito e prontamente recomendava a uma determinada condessa, de sua total confiança, que fizesse uma entrevista com o tal objeto do desejo.  Essa entrevista, na verdade, não se resumia a uma conversa franca, onde eram repassadas ao rapaz as preferências da madame.  Era também realizada uma prova prática.  Caso a entrevistadora o aprovasse nesse vestibular amoroso, poderia, então, frequentar os aposentos imperiais.   Pois é, e há quem diga que a atual liberdade sexual ultrapassa todos os limites. Em tempo, Catarina II jamais admitiu ser traída por esses amantes. Por outro lado, o marido podia fazer o que quisesse, e ela até adorava saber que ele estava entretido com as amantes.  Queria distância!
Um detalhe interessante – embora fã dos Iluministas, depois da Revolução Francesa, Catarina rejeitou muitos daqueles princípios.  Claro que os movimentos democráticos que se espalhavam pelo mundo iam contra seus interesses, e ela, esperta, ficou preocupada.   
Outra coisa que impressiona até hoje é como ela, de baixa estatura, conseguia exercer um domínio sobre praticamente todos que dela se aproximavam.  A pintora Vigée Le Brun, que havia sido a pintora da corte de Maria Antonieta, descreveu com precisão um de seus encontros com ela: “As duas portas se abriram e a Imperatriz apareceu. Como havia dito, ela era bem pequena, mas quando ela fazia aparições públicas, mantinha a cabeça erguida, apurava seu olhar aquilino e mostrava um semblante acostumado ao comando; tudo isso lhe dava tal ar de majestade que ela poderia ser a Rainha do Mundo”.  Essa era Catarina.
Esclarecida, mas era uma déspota e, podemos enumerar outros tantos “atributos”, por assim dizer. Nunca saberemos como era realmente.  Refletindo sobre isso, tento imaginar se ela seria quem foi se tivesse ficado na Prússia e se casado, por exemplo, com um príncipe alemão prepotente?  Ou entrado em um convento?  Pois é, concordo com Ortega y Gasset.  Nós somos nós e as nossas circunstâncias... circunstâncias essas que são nosso dilema, sempre novo, e diante do qual temos que decidir.  E o que ao final decide é o nosso caráter.

Nenhum comentário:

Postar um comentário