quarta-feira, 25 de março de 2015

AINDA FALANDO DAS FAVORITAS

              Antes que eu cometa uma indelicadeza, aviso que foi no livro “Sex with Kings”, da jornalista Eleanor Herman, que obtive as informações sobre o assunto.  Desconfio que ela adora temas polêmicos, pois suas outras publicações são “Sex with the Queen” e “Mistress of the Vatican”. Questionada por não escrever ficção, respondeu que suas pesquisas mostraram tanta coisa interessante na História que pouco restaria para a imaginação.  Eu concordo.
              Não era fácil ser a favorita.  O primeiro e grande problema eram as tantas mulheres jovens e bonitas que faziam de tudo para defenestrar quem estivesse na berlinda.  Como em todos os espaços onde há riqueza, poder, fama e glória, as cortes eram verdadeiros ninhos de invejosos e traiçoeiros escorpiões.  Isso sem falar na raiva que as rainhas tinham das favoritas!  Algumas delas caíram em desgraça, sabemos, enquanto outras eram substituídas por alguém mais jovem, mas a maioria riu por último e aproveitou muito tudo o que conseguiu em seus tempos de “reinado”.
              Como já havia comentado, as favoritas dos reis da Espanha e de Portugal, quando perdiam a posição, eram enviadas a conventos.  Foi D. João V quem mais abusou dessa história ligada à religião, e acabou conhecido como “O Freirático”. Escolheu um convento, o de São Dinis, e trocava de freiras o tempo todo. Escolhia uma, levava e, depois de algum tempo, devolvia... escolhia uma outra, e tudo recomeçava. 
              A francesa Diane de Poitiers mereceria um capítulo exclusivo, mas acabou incluída aqui mesmo.  Suprimi inúmeros detalhes, o que é uma pena, mas foi a única saída. Mesmo assim, a crônica ficou um pouco longa.
              Henri II apaixonou-se por ela quando ainda era um menino de apenas sete anos!  No momento em que, fragilizado, foi entregue como refém, pelo próprio pai, ao rei de Espanha, o único consolo que recebeu foi de Diane, na época uma das damas da Corte.  E aquele afetuoso beijo na testa preencheu os sonhos do menino durante os anos em que permaneceu no cativeiro. Ela era dezenove anos mais velha!
              Linda e com muitas qualidades, tornou-se uma verdadeira “femme fatale” na corte francesa no século XVI.  Enquanto isso, o rei, com apenas quatorze anos, casou-se, por razões políticas e econômicas, com a italiana Catarina de Médicis, muito inteligente, porém pouco dotada na aparência. A jovem não conseguiu despertar o interesse do marido que aos dezessete anos, finalmente, conseguiu que Diane caísse em seus braços.  Aí mesmo que Catarina foi, de vez, para o espaço.  E para completar a tragédia romântica, como seu marido era um homem atraente, ela se apaixonou perdidamente por ele desde o primeiro dia.  Ficava a ver navios, e nos primeiros 10 anos não engravidou nem uma vez, um perigo para a sucessão.  A favorita precisou dar uma “ajudinha” para que o rei cumprisse suas obrigações e, finalmente, Catarina colocou no mundo os herdeiros do trono.
              A beleza de Diane era muito trabalhada.  Na falta de academias de ginástica, diariamente cavalgava por 3 horas, fazia outros tantos exercícios ao ar livre e seguia uma dieta espartana. E tinha mais dois segredos.  O primeiro, que acabou lhe tirando a vida aos 66 anos, era beber, todo dia, um copo de água misturada com ouro.  Um hábito caro... E aqui vai, para quem se interessar, a receita do outro segredo, o creme especial que usava para manter a pele aveludada: pepino, melão, nenúfar, flor-de-lis, fava, carne moída de pombo (???), açúcar, cânfora, manteiga, miolo de pão e vinho branco.  Pois é, acho mais fácil comprar um creme pronto, mas receio que o resultado não seja tão bom. 
              Muito inteligente, foi nomeada membro do Conselho da França, criou novas leis e vários impostos, e chegou mesmo a assinar decretos oficiais junto com o rei que, eternamente apaixonado, havia estabelecido para eles uma assinatura conjunta – HenriDiane.  Vejam o poder da madame!
              Porém, a Rainha Catarina, de certa forma, vingou-se.  Quando o marido foi mortalmente ferido em um dos inúmeros festejos da Corte, não permitiu que Diane se aproximasse dele em seus momentos finais.  E não parou por aí.  Além de pegar várias jóias que a favorita usava, expulsou-a do lindo castelo de Chenonceau, presente do amado.  Em compensação, Diane teve uma vida tranqüila até morrer, enquanto a “rainha bruxa”, como era conhecida a rancorosa italiana, comeu o pão que o diabo amassou, vivenciando um longo histórico de traições, batalhas, violência e conspirações.
              Outra favorita famosa foi Madame de Pompadour, que até hoje alimenta a imaginação de muita gente.  Louis XV a nomeou “maîtresse-en-titre” em 1745, e ela só perdeu a posição quando faleceu.  Mulher bonita, gentil e brilhante, exerceu enorme influência na França por quase vinte anos.  O mais interessante é que não eram favores sexuais que uniam Pompadour e o rei; por longos 14 anos, foram apenas grandes amigos.  Diziam que ela não era muito chegada ao esporte amoroso, e que chegou a tentar dietas afrodisíacas, com trufas e baunilha (???).  Porém, nada adiantou e ambos desistiram desse lado da relação, fortalecendo, entretanto, os outros laços que os uniam.
              Em um período em que o reino ia mal das pernas nas finanças, Pompadour entregou parte de seus bens para que a França pudesse se reerguer.  Investiu na indústria, estimulou as artes em geral e, acreditem, comandou o Exército durante a Guerra dos Sete Anos.  Foi dela o projeto da famosa Place de La Concorde.
              Sagaz, percebeu que as coisas não iam bem e que a tormenta se aproximava.  Sua famosa frase “Après nous le déluge” foi adaptada por Louis XV para advertir o filho, o futuro Louis XVI – “Après moi, le déluge”.  Alguns anos depois, tivemos a Revolução Francesa, com a guilhotina cuidando das cabeças reais.
              Mas também houve casos, e não foram poucos, em que não havia favoritas, e sim favoritos.  Ficou famoso o caso do irmão de Louis XIV, cujo favorito, enciumado, envenenou a primeira mulher do Duque, que era belíssima.  Como era necessário manter as aparências, casaram-no novamente, só que escolheram uma noiva bem feia, com maiores chances de sobrevivência.
              Com os novos tempos, as favoritas foram perdendo o poder.  Tudo ficou bem mais discreto, embora algumas exceções confirmem a regra.  Edward VII, na Inglaterra, visitava suas “prediletas” no chá das 5, enquanto os maridos delas trabalhavam ou visitam suas próprias amantes.  Nenhum deles se atrevia a voltar para casa em horário inconveniente.  E Edward VIII, apaixonadíssimo pela amante, a não menos famosa Wallis Simpson, preferiu abdicar do trono a perder seu grande amor.  Seria demais para a família real e para o povo inglês ter um rei casado com uma plebéia americana, duas vezes divorciada.  Na verdade, ele era solteiro, e não traiu nenhuma rainha, mas incluí por ser uma história interessante.
              Para fechar o assunto, bom mesmo é falar no famoso triângulo Charles – Diana – Camilla.  Na verdade, desde o início de namoro dele com a jovem plebéia, era fácil ver que o príncipe não nutria por ela maiores sentimentos.  Há quem diga que foi a própria Camilla quem sugeriu que ele se casasse com aquela boa moça.
              Os fofoqueiros dizem que Camilla, quando era jovem, adorava ouvir sua bisavó repetir que o trabalho dela havia sido seduzir e depois “jump into bed”.  Essa bisavó era ninguém menos do que a última amante de Edward VII.  Embora nenhuma das duas apresentasse sinais de beleza, a personalidade e a inteligência de ambas atraíam as pessoas.  Parece que estava no sangue da família essa habilidade de se tornar favorita.
              Charles e Camilla namoraram quando jovens, mas ela não se mostrou interessada em viver prisioneira do Palácio de Buckingham; para desespero do príncipe, casou com outro. Contam os fofoqueiros que ele chorou muito quando, voltando de um exercício naval, soube de tudo. E quando o casamento dele deteriorou, voltaram a ser amantes.  Um segurança real contou que, perto do casamento, ele teria afirmado que iria cometer um enorme erro ao se casar com Lady Di.
              Apesar de seus dezenove anos, a noiva não era nada boba.  Logo percebeu que havia algo no ar entre Camilla e Charles.   Decidiu cortar o nome dela da lista de algumas festas comemorativas do enlace, e quase desmarcou o casamento quando descobriu, uns poucos dias antes, que seu noivo havia comprado uma linda pulseira para dar à outra.  Se tivesse sabido que, na noite anterior à cerimônia do século, ele deitou e rolou com a rival, numa espécie de despedida, certamente teria cancelado tudo.
              As dificuldades começaram na lua de mel.  Fotos de Camilla na agenda do marido foram o estopim para o primeiro dos inúmeros e violentos ataques de raiva de Diana. Em pouco tempo, ela percebeu que o que ligava seu marido à amante era algo que a outra tinha e ela não, sem qualquer relação com a beleza física. Uma luta inglória... e mesmo tendo tido inúmeros casos extraconjugais, a ferida emocional que carregava jamais se fechou.
              Charles também pagou caro por seu “affair”.  Quando o mundo inteiro ouviu a gravação da conversa telefônica dos amantes com aquela história do Tampax, chegou a pensar em renunciar à sucessão e deixar o país.   E se afastou de Camilla, cuja posição tampouco era das mais agradáveis.  As favoritas dos reis não estavam mais na moda, e tudo era mais complicado ainda por ser Diana admirada pelo mundo afora e adorada pelos súditos ingleses. 
              Durou pouco o afastamento.  Ele não podia viver sem ela, e continuaram com o “affair”. Quando ficou viúvo, mesmo contra a vontade de muitos, casou-se com Camilla. E verdade seja dita – maquiadores e cabeleireiros deram um jeito na aparência desajeitada dela, e com as sugestões de bons costureiros, tornou-se uma mulher elegante.  Bonita, nunca. 
              Em 2014, correu o boato de que Camilla teria dado início ao processo de divórcio, pedindo uma indenização bem alta para que mantivesse silêncio sobre tudo o que sempre soube.   Como nada foi confirmado até agora, devem ter sido apenas fofocas da oposição.

              A crônica ficou longa, mas fazer uma terceira sobre as favoritas dos reis seria demais.   Para variar um pouquinho, qualquer hora dessas, vou trazer algumas histórias com OS FAVORITOS das rainhas.

4 comentários:

  1. Very interesting life and dangerous. I am quite glad not to have lived in those times and not being part of the aristocracy. Of course there was no media like today. Enjoy reading it.

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  2. Nunca li tanto babado forte de uma só vez. Perto destas fofocas, os casos e traições do nosso society e dos famosos sonrisal da TV (em pouco tempo desaparece) são muito mixurucas. E a França continua honrando a tradição dos sucessivos Luizes......Vive Hollande, Mitterand.....

    Muito legal o que escreveu, pelos "causos" e estilo.

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    1. Realmente, as pessoas públicas dão motivos de sobra para fofocas...

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