AS FAVORITAS DOS REIS
Esperar
várias horas para embarcar não me estressa nem um pouco. Com um livro na mão, acho o aeroporto um
lugar super agradável. Na última viagem,
diverti-me horrores com um livro que fala de séculos de adultério, poder,
rivalidade e vingança dos soberanos, como também de casos de grandes amores.
Quando
se pensa nas famosas favoritas, imaginamos cenas “calientes” de filmes censurados.
Os reis, em geral, eram obrigados a casar pensando nos interesses do Estado, e
dificilmente ficavam satisfeitos com o que lhes era impingido. Uma observação maldosa - muitas vezes esses
mesmos reis tampouco eram o sonho de consumo das rainhas. Resumo da ópera: a
única chance de escolha era quanto às favoritas, ou favoritos.
Essa
prática das cortes européias ganhou força e publicidade somente na Idade
Média. Antes disso, tudo ficava entre
quatro paredes e tratado como pecado pela Igreja Católica, que sempre encobria
os fatos. Como ainda não tínhamos nenhum
paparazzi circulando, pouco ficou para ser contado, e só os mais próximos sabiam
algo das alcovas reais.
Alice
Perrers foi a primeira a deixar o nome para a posteridade. A ganância foi seu calcanhar de Aquiles, e a fortuna
que tirou de Eduardo III, no século XIV, acabou sendo confiscada pelo
Parlamento inglês. Quem tudo quer tudo perde, avisa o velho ditado. Porém, não podemos generalizar e achar que
todas eram aproveitadoras ou meros objetos à disposição, dia e noite, das
fantasias sexuais deles. Algumas foram
muito mais do que isso e ficaram famosas.
Com
a Renascença, o controle sobre a moral e os bons costumes exercido pelo
Vaticano enfraqueceu, e tudo passou a ocorrer às claras. Além disso, com a imprensa escrita e a
nobreza sendo alfabetizada, o hábito de escrever cartas se tornou um
passatempo. É bom lembrar que, como não precisavam trabalhar para garantir o
pão nosso de cada dia, havia tempo de sobra para a troca de
correspondência. Foi quando a fofoca
tomou conta das cortes européias, com todo mundo sabendo de tudo. Há registros de que Madame de Maintenon, que se
casou secretamente com Louis XIV quando este enviuvou, escreveu nada mais nada
menos do que noventa mil cartas, narrando, com detalhes, o que se passava no
reino francês. Nenhum romancista seria
capaz de imaginar tantas histórias!
Também
serviram de fonte para os historiadores as memórias publicadas, outra moda naquele
período da História. Entretanto, essas memórias precisaram ser comparadas com
outros documentos, pois muitas eram escritas com a exclusiva finalidade de
vingança e delação. Como não eram delações premiadas, não retratavam, necessariamente,
a verdade. E ainda foram encontrados diários e mais diários que não eram
confiáveis, pois alguns se mostravam fantasiosos demais. Quem conta um conto aumenta um ponto, eu
tenho certeza.
Foi
na França do século XVI que se começou a perceber que as mulheres eram tão
inteligentes e capazes quanto os homens.
Tivemos que esperar séculos e séculos se passarem para que, finalmente,
o óbvio fosse reconhecido. E Francisco I
foi o primeiro rei a dar o título de maîtresse-en-titre à favorita, o que
significou dar-lhe um reconhecimento oficial.
Foi esse mesmo Francisco I que levou Leonardo da Vinci para sua corte, no
Castelo de Amboise, no vale do Loire.
Assim,
entre os séculos XVI e XVIII, a posição de amante real passou a apresentar um
caráter quase tão oficial quanto o de primeiro ministro, mesmo que a atividade que
ela exercesse fosse muito mais trabalhosa!
Para fazer jus aos títulos, jóias, pensão e um lugar influente na Corte,
além das obrigações sexuais ela deveria se interessar e estimular a produção
artística, jogar charme para os embaixadores estrangeiros e descobrir, assim, segredos
de Estado, sem falar que precisavam acalmar o rei quando estivesse furioso,
animá-lo nos momentos de depressão, dar palpites políticos...
Uma
curiosidade – os reis de Espanha e Portugal, depois que se cansavam de suas
favoritas, costumavam enviá-las para conventos.
Como eram considerados pouco menos do que divindades, nenhum outro
mortal poderia, depois deles, tocá-las, somente restando às pobres coitadas a
vida religiosa.
Mas
a vida “boa” das favoritas acabou lá pelo século XIX. A Revolução Francesa havia mudado os
costumes, mesmo que o apetite sexual dos reis não tivesse diminuído. Mais
discretos, disfarçavam as aventuras, deixando tudo na penumbra. Suas amantes, então, deixaram de receber as
mesmas benesses de suas antecessoras - não eram premiadas com títulos nobres, não
recebiam castelos majestosos, e nem mesmo ocupavam um lugar de honra no
conselho do reino. Acabavam satisfeitas quando conseguiam uma casinha
confortável, algumas jóias e uma linha de crédito na melhor costureira. Uma espécie de “downgrade” bem marcante.
As
fofocas objetivas virão na próxima crônica, pois esta aqui tem por finalidade
despertar a curiosidade. Podem acreditar que tem muita história interessante,
inclusive sobre aquele caso bem próximo de todos nós, o do Príncipe Charles e
da Camilla Parker-Bowles.
É
óbvio que essas histórias vão apenas nos divertir, sem que apresentem qualquer
outro valor que não o de aumentar nossa cultura inútil. Porém, já que o mundo não oferece boas
notícias nesses últimos tempos, vale a pena rir um pouco, relaxar e somente enfrentar
o duro cotidiano depois de uns quinze minutos de futilidades. Mas é importante lembrar que, desde o início
dos tempos, o poder é um poderosíssimo afrodisíaco. É só olharmos as esposas de muitos políticos
famosos.
A autora manteve o nome do livro das indiscrições palacianas em segredo. Será que entrou no clima da nobreza?
ResponderExcluirAbs
Muito boa, Anahertz. Estou ansioso pelas próximas..:-)
ResponderExcluirA propósito, embora as delações não fossem premiadas oficialmente, sempre havia alguma agenda oculta para revelar verdades ou invenções...