segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A SINGULARIDADE DOS POVOS
Fevereiro de 2017
                   É verdade – cada louco com sua mania... e cada povo com suas, vamos dizer, singularidades. Assim, não perderia eu a oportunidade de escrever sobre a principal igreja da cidade portuguesa de Amarante, dedicada a São Gonçalo, que difere bastante das demais igrejas católicas no que diz respeito aos ex-votos dos fiéis.
           São Gonçalo é chamado de Santo, mas é preciso esclarecer logo que o processo de canonização não foi concluído, tendo sido apenas beatificado.  Por isso, deveria ser chamado de Beato Gonçalo, mas já que o povo o consagrou santo, vamos respeitar esse “usucapião religioso”.  Considero merecido o título – os fiéis de Amarante, no finalzinho do século XII, estavam profundamente gratos por ter ele sido um verdadeiro parceiro nas lutas pelas conquistas sociais e pessoais, além do apoio e doutrinação espiritual que dava a todos.  Logo, logo foram atribuídos uns tantos milagres e, com o passar dos anos, a falta de santificação não significou mais nada.  É Santo e não se discute mais.
Adorei saber como ganhou a fama de “casamenteiro” das mulheres mais velhas.  Sem dar atenção às normas da Igreja Católica, Gonçalo ministrava os sacramentos do matrimônio a inúmeros casais que já viviam juntos, alguns jovens, mas outros tantos já bem mais velhos.  O “x” da questão, na verdade, é que a maioria deles morava na aldeia de Ovelha. Assim, era o casamenteiro dos de Ovelha... Fácil entender como se tornou o casamenteiro das velhas!  O tempo cuida de tudo... até de ajustar o sentido das coisas, das palavras, sempre de acordo com o gosto e a necessidade das pessoas...
Mas sua atuação não se resumiu a casar “os que viviam em pecado”.   Dizem que até hoje arranja novos maridos para as velhinhas viúvas!   Também os homens que estão com problemas de impotência rezam para que ele lhes dê uma ajudinha.  As solteiras de Amarante costumam roçar o corpo no túmulo do santo, na esperança de arranjarem marido... as que não engravidam fazem o mesmo para se tornarem férteis.   Pois é... quem sabe dá certo?   Atiram para todo lado.
Em Aveiro, a Veneza portuguesa em razão de seus canais e pontes, as solteiras aflitas por um marido costumam fazer promessa para o Beato-Santo... e quando são atendidas, pagam a “dívida” atirando cavacas do alto da torre da igreja no dia em que é celebrado, 10 de janeiro.
Já em Amarante, as festas só ocorrem no primeiro final de semana de junho.  Mas não só a data é diferente.  Lembrando um rito pagão, as cavacas em agradecimento tomam, naquela cidade, uma forma fálica, sem qualquer disfarce.  E é claro que ganharam o nome de Caralhinhos de São Gonçalo.  Durante o regime de Salazar, foram proibidos... mas o mercado negro deve ter dado conta, pois continuaram a divertir os turistas.  E os ex-votos que se encontram na capela onde se encontra seu sarcófago antropomórfico não deixam dúvidas quanto a tudo que é pedido a ele.  São seios, órgãos genitais masculinos e femininos, bonequinhas representando crianças... Enfim, alguns bem diferentes do que se vê em outras igrejas.
Li algures que, em 2011, foi confeccionado, durante a Mostra de Vinho Verde e Tradições, um desses doces fálicos com um tamanho especial.  Simplesmente com 20 metros!  Para tanto, teriam usado mais de mil ovos, 70 quilos de açúcar grosso, 20 de açúcar fino e 50 de farinha de trigo.  Se foi parar no Guiness, isso eu não sei.
Mesmo não sendo santo, chegou com força ao Brasil e, assim, temos muitas cidades, além das homônimas, das quais São Gonçalo é o santo padroeiro.  Isso prova o fascínio que ele exerceu e exerce sobre os católicos.  E deve estar mais ocupado hoje em dia, já que é casamenteiro e tem muita gente sozinha por aí. 
Comecei a ler A Tinta da Melancolia, de Jean Starobinski, um obra bastante interessante sobre a história cultural da tristeza, traduzida por Rosa Freire D'Aguiar.  Descobri que Galeno, médico e filósofo romano, considerado o Pai da Farmácia, acreditava, há dois mil anos, que o amor frustrado levaria a uma continência anormal; assim, a retenção do líquido seminal por um tempo maior do que o devido levaria ao cérebro substâncias tóxicas, com prejuízos substanciais para a saúde da pessoa... E incontáveis autores continuaram a falar do importante papel terapêutico do sexo no que tange ao bem estar do ser humano.  Outros, preocupados com a moral, lembravam que as doenças venéreas e a devassidão seriam, também, desencadeadoras da melancolia.  Ou seja, há controvérsias. 
           Para terminar o assunto, antes que a censura, preocupada com a moral e os bons costumes, venha cortar alguns parágrafos, vou ensinar a oração de casamento de São Gonçalo, em caso de encontrarmos eventuais interessadas
“São Gonçalo do Amarante, 
Casamenteiro que sois,
Primeiro casais a mim;
As outras casais depois.

São Gonçalo,ajudai-me,
De joelhos lhe imploro,
Fazei com que eu case logo,
Com aquele que adoro.”

13 comentários:

  1. Respostas
    1. Não o conhecia como casamenteiro... Santo Antonio é o mais procurado aqui no Brasil

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  2. Muito interessante a crônica, querida prima Ana.
    Acho que São Gonçalo vem aliviar um pouco o trabalho de Santo Antônio, o santo casamenteiro na tradição familiar, vinda de Portugal.
    Tanto que o dia dos namorados é celebrado em 12 de junho, véspera do dia de Santo Antônio. Já nos EUA, as solterinas foram buscar outro santo - São Valentim - e a data é celebrada no mês de fevereiro. Com tanto santo casamenteiro, as vitalinas devem estar desesperadas. Nos tempos modernos tá ficando difícil encontrar mercadoria de boa cepa. Caiu na rede, é peixe.

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  3. Pelo que percebi, é mais um para ajudar nesse alívio que tanta gente almeja...

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  4. Quem vai gostar disso é o povo de São Gonçalo que afinal é a terrinha logo ali, após Niterói, hahahaahahahahhahha, bgjoooosssss




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  5. Querida, com tantos solteiros,viúvos e afins, santo Antônio tinha mesmo que arranjar uns auxiliares, né não?
    Bj

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  6. Oi Ana, adorei sua croniqueta e saber disso tudo... Bjs

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    1. A gente se encanta com tanta coisa diferente por esse mundo afora.

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  7. Ana,
    Croniqueta muito bem-humorada e bem posta! Valeu!

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