terça-feira, 8 de agosto de 2017

TALLINN, UMA LINDA CIDADE


                    Antes de falar na Estônia e em Tallinn, peço desculpas à Rainha Silvia, da Suécia.  Havia comentado que ela não falava Português.  Não é verdade.   Fala bem, com um leve sotaque paulista e, de quebra, fala mais cinco línguas.  Imperdoável minha falha técnica.
                    Pouco sabia desse pequeno país báltico, além da ocupação soviética que sofreu por mais de cinqüenta anos no último século.   Como estava nos meus planos de viagem há tempos, cheguei à Estônia com a curiosidade à flor da pele. Seu território é de 45 mil quilômetros quadrados, só um pouco maior do que o Rio de Janeiro, e tem pouco menos de um milhão e quatrocentos mil habitantes.  Aqui, somos dezesseis milhões.
                    Os estonianos são intimamente ligados aos finlandeses e aos lapões, com uma cultura bastante influenciada por eles mas, também, pelos dinamarqueses, russos, alemães e suecos, em razão dos incontáveis anos em que estiveram sob dominação desses povos.  Na verdade, o sentimento de nação só se instalou no meio do século XIX.  Conseguiram se estabelecer como unidade autônoma há, apenas, cem anos, com a promulgação da constituição de 1917.   Mas o processo não foi rápido.
                    O drama é que nem mesmo haviam se acostumado com a liberdade quando, em 1940, a Estônia foi ocupada pela União Soviética; logo depois, em 1942, foi a vez dos alemães invadirem.  Quando estes perderam a guerra e saíram, a União Soviética voltou.  Bom saber que, durante os cinquenta e dois anos em que estiveram sob o domínio desses últimos, nada foi tranquilo, com muitos movimentos estonianos de insurreição e até mesmo de guerrilha. Eram poucos, mas lutaram bravamente.
                    Somente em 1992, conseguiram a liberdade, embora o exército invasor só tenha saído de lá dois anos depois.   Se analisarmos sua história, veremos que viveram mais tempo sob dominação do que estiveram livres. Em 2004, passaram a integrar a União Européia, e a moeda hoje é o euro. Para nós, turistas, fica super prático.   Fala-se o Inglês por todo lado, o que também é ótimo, pois a língua deles tem a influência de todos os povos que por lá passaram, línguas essas pouco conhecidas pelo resto do mundo.
                    Um fato interessante – durante os protestos contra a União Soviética, os estonianos cantavam as músicas nacionais e os hinos patrióticos que estavam proibidos – por isso, foi chamada de Revolução Cantada.  E o maior coro do mundo, formado por 25 mil cantores, apresenta-se a cada cinco anos no maior evento do país, o Festival da Canção.   De certa forma, a música traz uma unidade nacional.
                    São parlamentaristas e, em geral, o Primeiro-Ministro é o líder o partido majoritário. Lá também existe a figura da imunidade...   Ministro não pode ser demitido ou perder seus poderes políticos, o que significa que pode mandar e desmandar.  Infelizmente, não consegui descobrir até que ponto isso vale.   Por outro lado, os 101 membros do Parlamento não podem ser reeleitos, o que muitas vezes é bom, mas outras, não. Tudo tem dois lados.  Adorei saber que legislam de acordo com o próprio pensamento, sem precisar seguir cegamente o partido a que pertencem.  E poucos são economistas ou advogados... talvez por isso, as coisas estejam indo bem.
                    Um toque pitoresco – parece incrível, mas um dos esportes levados mais a sério é o “carregamento de esposa”, comum naqueles países desde 1997.  Trata-se de uma corrida de obstáculo, em que cada homem carrega uma mulher (não precisa ser a própria esposa).  Os estonianos aprimoraram a maneira de carregar a madame... de cabeça para baixo e com as pernas agarradas ao redor do pescoço do pescoço. Acho que, agora, todos fazem assim. Ano passado, foi um casal russo o vencedor.  Engraçado é que este esporte também é praticado em outros países, como nos Estados Unidos onde, em outubro passado, a 17ª versão deles da corrida realizou-se no Maine.  Só falta alguém por aqui se interessar... Sem comentários.
                    Mais uma história.  A Letônia afirmou, em 2010, que teria tido a primeira árvore de Natal, em 1510; só que a Estônia rebateu, avisando que, em 1441, teria montado uma em Tallinn.  Não se sabe ao certo... Uma discussão sem pé, nem cabeça, como tantas outras que vemos mundo afora. Mesmo eu, que adoro árvores natalinas, não estou nem aí para a resposta. 
                    Da Estônia, só conheci Tallinn, a pequena capital que me encantou com seus setecentos mil habitantes. Foi considerada, há alguns anos, a mais intacta e protegida cidade medieval da Europa.  Um detalhe - como na maioria dos países europeus, a taxa de natalidade no país (1,54 por casal) está muito baixa, com a população decrescendo.   No Brasil, estamos na mesma tendência, com a taxa em 1,78 (cálculo de 2015), sendo necessários 2,11 filhos por casal para que a população se mantenha.
                    O centro histórico é lindo, e lá em cima, além de vermos prédios antigos por todo lado, muito bem cuidados, podemos respirar um fantástico ar de passado. Preservam sua história com muito cuidado. Falando em ar, estava frio, mesmo no início do verão.  Como aquelas terras ficam mais perto do pólo Norte, até o verão me fez usar um casaquinho.  Enquanto no Brasil suamos com 40 nessa estação, a média por lá é de 16 graus! No inverno, provavelmente, eu nem sairia de casa: em 1940, a temperatura chegou a menos 43.   E a neve pode ficar por lá por mais de 130 dias!  No mínimo, por 75... ou seja, muito frio por muito tempo!
                    Adorei saber quem tinha construído o muro que separava a área onde moravam os nobres, na parte mais alta da cidade, do restante da população, cujas casas ficavam mais abaixo na colina. O incrível é que foi a própria população, cansada de ter sua vida organizada e tranqüila atrapalhada pelos que não tinham que lutar pelo pão de cada dia, sempre embriagados, provocando arruaças e perturbando o descanso dos trabalhadores, que resolveu estabelecer distância da elite. Não conheço caso semelhante.
                    Tenho um arrependimento.  Não entrei na mais antiga farmácia ainda em funcionamento no mundo, no mesmo lugar, inaugurada em 1422. Imperdoável.  Em compensação, visitei a Catedral Alexander Nevsky, ortodoxa, considerada patrimônio da humanidade em 1997.  É belíssima.
                    Há quem considere os estonianos o povo menos religioso do mundo.  Apenas cerca de 16% acreditam que a religiosidade é importante na sua vida, e a maioria desses segue a fé luterana.   Não sei, pois tinha lido, há tempos, que eram os chineses os menos interessados em assuntos divinos.

                    Teria mais assuntos ainda sobre esse pequeno país, mas fiquei pouco tempo.  Ainda há muita coisa interessante para ver por esse mundo afora, mas tenho que sacrificar o tempo dedicado a cada novo lugar. Por sorte, mesmo com uma visita curta, vi um pouco desse povo que almeja, há séculos, ser verdadeiramente independente.   Isso valeu a pena!

8 comentários:

  1. Uma aula de Estônia, ainda mais pq não conheço nada do país. Muito legal o que relatou, a riqueza das informações, replicada na minha imaginação, me deu a sensação de estar conectado ao Globo Repórter, só que oral, bjs

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    1. Você deveria ir lá. Fiquei encantada. Beijos e obrigada pelo carinho de fiel leitor.

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  2. Eu realmente adorei Tallinn. Gostaria de ter tido mais tempo. Obrigada pelas palavras! Bjs

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  3. Ana , crônica excelente como sempre !
    Bjs.
    Beth

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  4. Se a Rosa estivesse presente vc não ia escapar da farmácia, e ela ia perguntar se por lá eles tinham crioulina...Nunca lá fui, mas deu vontade de ir. estamos fartos de calor, mesmo me Lisboa.


    Pedro

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  5. Muito bom! Sabemos pouco da trinca Estônia,Lituania e Letonia. Parabéns!

    Beijos!

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  6. Excelente, prima, como de hábito, mas ao término da leitura fica um sentimento de cadê as imagens?
    Claudio

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