sexta-feira, 29 de setembro de 2017

DE PENEDO A HELSINKI

             Em Penedo, na aconchegante colônia finlandesa no Rio de Janeiro, travei meus primeiros contatos com esse país nórdico, tão distante de nosso mundo tropical.  Suomi, o nome em finlandês para designar a terra dos mil lagos (na verdade, são cento e noventa mil ao todo), estava nas muitas camisetas vendidas nas lojinhas de artesanato que se espalhavam por ali, bem perto de Resende.
                    Mesmo com apenas pouco mais de cinco milhões de habitantes, são muitos os feitos desse povo, sendo os mais conhecidos o sistema Linux de computação, os celulares NOKIA. o monitor de frequência cardíaca, o coquetel molotov (argh!), o SMS, a sauna... pois é, alguns são reflexo do alto nível da formação do povo que se vê hoje lá.
              Até os anos cinqüenta do século passado, era um país pobre, atrasado em relação a outros países europeus.  A mudança começou no início dos anos 70, quando a educação virou prioridade.  Educação pública de qualidade até a universidade, para todas as crianças e jovens.    A formação dos professores passou a ser de excelência.  Com isso, mudaram o futuro dos cidadãos e do país.  
                   Gostaria de conhecer melhor o sistema deles.   Diminuíram o horário das aulas, o número de provas, ao mesmo tempo que estimularam o pensar independente, deixando de lado conceitos e fórmulas.  Confesso que escrevo isso cometendo um pecado – a inveja!!!
                Mudando de assunto - o clima.  Tenho certeza de que seria difícil me adaptar.  Somente no verão eu estaria bem, com os termômetros podendo marcar 30 graus.  No inverno, não poucas vezes chegam aos 20 negativos!   Bravo povo finlandês... eu congelaria!
                  Outro ponto interessante: parece-me justa a política de cobrança de multas por infrações de trânsito. Não são fixas, variando de acordo com a renda anual do infrator.  O guia da excursão me contou que um ricaço foi multado em 200 mil euros simplesmente por ter ultrapassado o limite de velocidade em uma estrada.  Acho que poderíamos nos inspirar nesse modelo, principalmente com relação aos jovens que praticam “racha” por esse Brasil afora.
                   É na Finlândia, na região da Lapônia, que vive o bom velhinho.  Adoro a época de Natal...  Provavelmente, por herança cultural de minha avó paterna.  As festas na casa dela eram inesquecíveis, com a presença obrigatória do Papai Noel. E até hoje mantenho a tradição de enfeitar a casa, desde novembro, deixando à flor da pele meu lado criança.
                    São Nicolau, que inspirou o mito de nosso Papai Noel de hoje, era arcebispo na Turquia no século IV.  Ajudava quem estivesse com problemas financeiros, colocando um saco com moedas de ouro na chaminés das casas.  Só foi transformado em símbolo natalino muito tempo depois, na Alemanha, e a roupa, pelo que soube, era verde.    A troca definitiva pelo vermelho se deu por influência da Coca-Cola, que colocou nosso velhinho com essa cor em um comercial, isso lá em 1931.  Daí para a frente, não teve volta.
                    A região da Lapônia, que também se estende por outros países, tem o nome de Terra do Sol da Meia Noite apenas na sua porção finlandesa,.  Em uma de suas cidades, um único dia de verão pode durar até dois meses.  O preço que se paga é não podermos ver o sol se pondo no horizonte por todo esse tempo.  Em contra partida, no escuro inverno, o sol fica “escondido” por uns 50 dias, fenômeno conhecido por noite polar.   Penso que gostaria de vivenciar, por uns poucos dias, o sol da meia noite, embora acredite que o organismo se ressinta tanto quanto nos invernos escuros que também temos por lá.  Imagino a confusão no cérebro.
                    A Finlândia também não tem uma história de independência há muito tempo.  Fazia parte do reino da Suécia e, em 1809, foi declarado um grão-ducado do império russo.  Somente em 1917 declarou-se uma república independente.   O drama é que logo teve início uma guerra contra a Rússia e, durante a Segunda Guerra Mundial, contra a Alemanha.  Enfim, livres antes tarde do que nunca. 
                  Como o mundo anda um pouco instável, até a Finlândia está, hoje, em sinal de alerta.  Apresentou uma contração na economia, com a primeira queda nos últimos anos.  Perdeu por causa da queda nos preços do papel, um de seus principais produtos de exportação e, acreditem, também em razão da desvalorização das ações da NOKIA.  Estão cuidando, para evitar que a situação se agrave.   Isso é ótimo, pois os primeiros sinais servem para a correção dos eventuais erros no trajeto.                
              O alto grau de desenvolvimento do país e de seus habitantes, o inverno rigorosíssimo, tudo isso sempre me deu a impressão de que não haveria muito espaço para o humor.   Mas ele sobrevive a tudo isso!  Além do carregamento de esposa, esporte que também é praticado na Estônia e alguns outros países, que tal assistirmos aos campeonatos de caça aos mosquitos, lançamento de celular (acho que só os da marca Nokia), lançamento de bota de borracha, futebol no pântano...
                Para divertir mais um pouco, tem a história da pizza finlandesa.  Berlusconi, o polêmico político italiano, em sua viagem à Finlândia em 2005, afirmou que não gostou nem um pouco da culinária local, e que o presunto de Parma era muito superior à carne de rena defumada deles.   É claro que a vingança veio, três anos depois, na Itália, em um concurso internacional de pizza.   Os louríssimos apareceram com a pizza Berlusconi, cujo ingrediente principal era a rena defumada.  Sucesso total!  Vingança maligna.
                 Na minha visita de apenas um dia, encontrei Aime Virkkilä Accorsi (brasileira descendente de finlandeses que vieram para Penedo), que mora lá há 10 anos, com a filha de 15 anos.  Sente falta de várias coisas, como abraços e beijos, mas a segurança, independência e o bem-estar social que o país proporciona compensam essa saudade.        
                Sugiro uma visita à Catedral de Pedra.  A religião predominante no país é a luterana, e a Temppeliaukio Kirkko é uma construção moderna, de 1969, que impressiona quem a visita.  Tem sua maior parte subterrânea, construída em uma grande rocha de granito, cujo interior foi retirado para abrir o espaço, circular,e formar as paredes. Fascinante a cúpula de cobre, que é praticamente a única parte que se vê de fora.  O contraste dos materiais naturais e os construídos pelo homem a tornam única.  E a perfeição de sua acústica possibilita a apresentação de inúmeros concertos.  Tive a sorte de chegar quando um pianista executava peças clássicas finlandesas.  
                    Outra dica – uma visita ao Parque Sibelius, onde se encontra o monumento em homenagem ao grande compositor finlandês.  Achei a obra muito interessante, forte... são mais de seiscentos tubos ocos, que lembram um órgão imenso.  Há uma versão menor que se encontra na sede da UNESCO em Paris.  Suas sete sinfonias continuam sendo executadas nas grandes salas de concerto pelo mundo afora.
                  A moeda é o euro, e sinto só ter conhecido Helsinki, sua capital desenvolvida e organizada.  É um país com três quartos do território de florestas, cento e noventa mil lagos e cento e oitenta mil ilhas... Acho que é em razão dessa geografia é o país europeu com menor densidade populacional. Gostaria de conhecer melhor, para explorar melhor esse país que se transformou em tão pouco tempo... inveja, de novo.


4 comentários:

  1. Bela crónica, todos os dias nos surpreendemos com os povos... e as pessoas. Bjs do Raul

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  2. Acho fascinante descobrir as pessoas, as culturas, enfim, o mundo... beijos

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  3. Oi Ana, legal, como sempre o texto. Eu vi um documentário sobre a Finlândia, uma cena mostrava uma piscina pública frequentada pelo povão e ministros, todos juntos e misturado. Consegue imaginar isso aqui? Agora encarar dois meses sem noite e uma noite de 50 dias, melhor morar em Penedo. Bjs

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  4. Oi Ana, legal, como sempre, o texto. Eu vi um documentário sobre a Finlândia, uma cena mostrava uma piscina pública frequentada pelo povão e ministros, todos juntos e misturado. Consegue imaginar isso aqui? Agora, encarar dois meses sem noite e uma noite de 50 dias, acho melhor morar em Penedo. Bjs

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