COMO SELECIONAR E SEGURAR UM MARIDO
Minha
paixão por livros faz das suas, vez por outra.
Sempre saio com um, são muitos momentos deliciosos mergulhada nas
palavras de excelentes escritores, seja na viagem de metrô, na fila do banco,
na sala de espera do médico...
Outro dia, apressada,
esqueci. Na viagem de ida ao Centro, resolvi assuntos pendentes por celular; na
volta, na estação Carioca, por sorte, há uma ”geladeira” com títulos para
muitos gostos e desgostos. Um deles, de
Anatole France, só tinha o segundo volume.
Os outros, na verdade, não me atraíam nem um pouco. Porém, tive um
“estalo de Vieira ao me deparar com TÉCNICAS DE RH PARA SELECIONAR E SEGURAR
MARIDO”. Não resisti. Quem sabe uma divertida crônica? Entrei no vagão superlotado, pensando em
Santo Antonio. Será que está perdendo
terreno para a técnica? Será que vai
ter, finalmente, um descanso?
Comecei a
ler na hora! Tratei de esconder a capa,
para que os ilustres passageiros não imaginassem estar diante de uma
desesperada velhinha à procura de um marido.
Seria um mico tamanho gorila, mas arrisquei e lá fui eu, rindo sozinha.
João José da Costa é carioca, advogado e administrador, com longa experiência
em RH de grandes empresas, segundo a orelha.
Escreveu também “Como enrolar seu chefe e progredir na empresa”, título
que já diz tudo, e “Afrodite S.A”, sobre as consequências de relacionamentos
amorosos nas empresas.
Fui direto
ao terceiro capítulo, interessada nas técnicas de recursos humanos para a
seleção de um marido, ou companheiro. Horas
tantas, o autor afirma:
“Essas técnicas são perfeitamente aplicáveis à seleção e retenção de um
marido, e você pode adotá-las na certeza de que estará imprimindo uma
racionalidade à decisão na hora do SIM. Avalie essa sugestão com o carinho que
ela merece. A seleção de um marido é talvez a ação mais importante de toda a
sua vida”.
Senti calafrios... era mesmo o que estava escrito: talvez
a ação mais importante de toda a sua vida. Fui em frente, apesar disso. O autor
estabelece passos a serem seguidos, indicando, primeiramente, o que as empresas
fazem para contratar um funcionário. Logo a seguir, traz questionamentos, sugere
atividades e atitudes com o foco marido, para a casadoira determinar o que
realmente quer. No prefácio, disse que aos homens o assunto igualmente
interessa, mas que são mais mulheres a fazer escolhas erradas. Será?
O passo seguinte é estabelecer requisitos e competências.
Encontro enumerados cerca de cinquenta para a escolha de um funcionário. Para marido, não consegui contar, mas sei que
nem mesmo um príncipe dos contos de fadas seria capaz de atender a tantas
exigências. As primeiras classificadas causaram
novos calafrios – bonito e rico.
Inteligente ficou em terceiro lugar.
E por aí vai. Vi coisas do
arco-da-velha.
Segundo o autor, os pré-requisitos estabelecidos
servem de base a um guia de entrevistas para selecionar eventuais
candidatos. A entrevista, nunca rígida e
formal, deverá vir encaixada em conversas aparentemente descompromissadas e em
diferentes oportunidades. Eu traduzo:
seja bem dissimulada, conversando como quem não quer nada, mas preparando a
armadilha para, se valer a pena, levá-lo ao altar.
Muito divertido foi ver as instruções para escolher as
fontes de recrutamento. Vai depender,
segundo ele, dos requisitos que a pessoa estabeleceu. Por exemplo, se estiver atrás de um médico,
vale frequentar congressos, seminários, pedir a algum amigo médico que a leve a
eventos onde possa encontrar “o marido certo”.
Se quiser um estrangeiro, o melhor é ir atrás de algum conhecido da área
de turismo... ou seja, uma verdadeira caçada, com planejamento e táticas de
guerra! Pobre “caça”.
Sugeriu, como alternativa, agências de casamento,
bares e boates de boa reputação, bem como sites de relacionamento. Chegou a comentar que nas atividades
religiosas também podem ser encontrados “bons partidos”. E termina o conselho – use o máximo de sua
criatividade! Enquanto leio, peço aos
céus forças para continuar analisando todas essas “instruções”.
Sobre as condições de contratação, levanta uma questão
importante. Tendo em vista que a mulher estabeleceu requisitos e competências
para o seu escolhido, ela deve perguntar a sim mesma: - Sou competitiva em um
mercado com tantas mulheres em busca de um marido? O que tenho realmente a oferecer? Em poucas
palavras: Você está mesmo com essa bola toda?
Tem algo de bom a oferecer em troca?
Perguntinha danada, essa. Deve
pegar algumas pelo pé.
O Passo 6 – triagem para determinar os três melhores
candidatos - provavelmente tem mais sentido no foco empresarial. Já no foco marido, se acontecer, tal moça deveria
ser objeto de programa Globo Repórter.
Os três melhores? Quantos eram? O
autor deve ter pensado na Gisele Bundchen.
Simples mortais teriam tantos assim? Vamos ao que interessa – as
mulheres, segundo o que li, estão em vantagem em relação às empresas, pois o
período de namoro oferece um número bem maior de oportunidades para que se
descubra o candidato “certo”. Na
empresa, são poucas horas de entrevistas.
No entanto, se nem assim for possível ter certeza de
que aquele é o homem para dividir o resto de sua vida, temos, no livro, a
solução, que transcrevo para que ninguém fique em dúvida se estou inventando:
“Leve-o para uma “entrevista” com seus pais e ouça, principalmente, sua mãe.
Coração de mãe nunca falha!” Com ponto de exclamação e tudo. Só cortando os pulsos.
Respiro fundo e prossigo. Próxima etapa – tomada de referências. Sobre
o foco profissional, já sabemos o que
deve ser feito. Foco marido: pegue
referências, descubra seus hábitos e comportamentos, ética, eventuais vícios, que
conceito desfruta no trabalho, como se relacionou com as namoradas anteriores,
o que faz na vida quando não está com você. Ter certeza do que faz ou onde está
quando você não está de olho é difícil. Não vi escrito, mas acho que talvez
seja necessário contratar um detetive particular.
Essa próxima etapa é interessante – negociação final
para efetivação da contratação. Direto
ao que interessa – foco marido!
Recomenda, nessa altura, exames médicos, embora admita não ser uma
questão simples. Inclui, nessa conversa
séria, assuntos como regime de bens a ser estabelecido, tipo de moradia, bairro
escolhido, divisão de despesas, organização do ambiente doméstico,
responsabilidades de cada um na administração da casa, estilo de educação da
prole que virá, filosofia de relacionamento com sogros e cunhados... lembro-me
de ter lido algures que cunhado não é parente, mas acidente.
Relutante, consigo avançar e chego ao Passo 9 –
Formalização legal da contratação. Pulo
a parte empresarial. Marido - diz apenas
que se formaliza através da certidão de casamento. E afirma que a fase de contratação do marido
“certo” se encerra nesse ponto e que há que se tratar agora de COMO SEGURAR SEU
MARIDO.
Para não perdermos mais tempo, trago um resumo do tema
através das pérolas encontradas no texto.
É bom respirar fundo antes de começar.
- O seu trabalho não deve parar por aí. Novos esforços de sua parte são necessários
para mantê-lo motivado, retê-lo em casa na condição de marido, melhorar sua
atuação e desempenho e assegurar um ambiente doméstico agradável para que ele
se sinta bem.
- É igualmente importante manter e aprimorar suas
condições de competitividade como esposa em um mercado em que a disputa por
homens de valor estende-se também aos homens bem casados!
- Você pode programar um evento depois de seis meses
do casamento, para uma conversa franca e aberta sobre a realidade constatada
por você versus os requisitos e competências estabelecidas. E repetir isso
anualmente, no aniversário de casamento.
Obs – Seria o que chamamos de uma oportunidade para
discutir a relação – DR. O autor inclui uma lista de questões que podem/devem
ser abordadas. Desisti de contar, mas
cabe trazer essas que parecem de 1940 – “que você está sentindo falta de
receber aconchego e proteção, sentir-se bem amparada, que gostaria que ele
passasse mais segurança...” Em tempo, alerta que o marido também pode vir com a
lista dele! Claro que vai haver um toma
lá, dá cá. Confesso - um livro de 2011 apresentando
isso causa em mim profunda aflição.
- Em algum momento, se o desempenho e o comportamento
dele sofrerem desvios graves e sérios que, caso continuem, podem levar você a
pedir divórcio, aplique uma “probation evaluation”. Seja enfática e firme, dando ao seu marido
uma última oportunidade. Findo o prazo
concedido, se não houver progressos importantes e convincentes, siga com o
processo de divórcio.
Obs: Tipo – ou dá, ou desce!
- Sendo importante que seu marido se sinta bem em
casa, permita que ele crie alguns ambientes personalizados. Nesses “territórios particulares”, não se
preocupe muito com excesso de organização, ordem e limpeza. Mas, como regra geral, a mulher deve manter e
inovar para assegurar boas condições domésticas....
Obs – nesse ponto, a lista das “tarefas” femininas
aparece. Impublicáveis. O autor mesmo se pergunta: ”Visão machista?
Não foi minha intenção.”
- O desafio após o casamento é desenvolver todos os
esforços para manter e aprimorar suas condições de competitividade no mercado
de maridos certos, aprimorando suas condições de contratação originais.
- A paciência, a calma e a disposição de vencer todos
os desafios serão atributos importantes, para os dois... Mantenha uma
expectativa realista a respeito do casamento, abrindo mão ou minimizando a
importância dos requisitos e condições de contratação.
Obs – ele mesmo se pergunta: “Conclusão paradoxal,
não? A felicidade do casal está relacionada à flexibilidade e à tolerância que
ambos demostrarem. Não há como esperar que o marido certo seja exatamente como
as condições de contratação estabeleceram”.
Ou seja, deve ser elaborada uma lista de requisitos e competências, mas
não será levada ao pé da letra!
Depois disso tudo, será que as mulheres não vão
preferir ficar mesmo com Santo Antonio?
Não será mais fácil contar com o santo casamenteiro do que aplicar todas
essas técnicas? O que seria mais eficaz
- sobrecarregar o Santo ou envolver-se nessa loucura técnica?
Na dúvida, aqui vão simpatias para conseguir um
marido. Antes, uma curiosidade. Reza a lenda que uma jovem que desejava se
casar armou um altar para o santo em sua casa.
Rezava todos os dias... nada!
Depois de alguns meses, desesperada, pegou a santa imagem e atirou-a
pela janela. Não é que atingiu a cabeça
de um jovem que passava por ali naquele momento? Conversa vai, conversa vem, apaixonaram-se e,
com isso, a fama cresceu. Além disso,
como naquele século XII, as famílias das moças eram responsáveis pelo dote a
ser oferecido ao noivo, famílias pobres foram ajudadas por ele, protetor dos
menos afortunados. Sem dúvida, ajudava
as moçoilas a casar. Daí para a frente,
não teve mais sossego.
Voltando às simpatias.
Pegue uma vela e escreva nela o nome de seu amado. Espalhe mel por toda a vela (menos no pavio,
claro). Acenda em um recipiente
branco. Em alguns dias, essa pessoa dará
notícias. Espero que não seja para
avisar que casou com outra.
Mais algumas. Amarre um fio de seu cabelo no do seu
namorado e coloque aos pés da imagem dele. Do Santo. Outra: Enterre a imagem do santo de cabeça
para baixo em um poço. Acho essa de um
mau gosto incrível. Uma bastante curiosa é a que se deve rezar o
Pai Nosso pela metade, já que a tradição afirma que ele não gosta de orações
incompletas; assim, o santo vai atender logo o pedido para que a parte final
seja rezada. É possível também doar pães aos pobres no seu dia, 13 de
junho. O difícil é que tem que ser o seu
peso em pães.
Considero a última simpatia que trago igualmente
reprovável. Compra-se a imagem dele em
madeira de guiné. No dia dele, separa-se
o Menino Jesus e roga-se: “Santo Antonio, Santo Antonio, faça o (....) casar
comigo que devolvo seu menino.” Eu considero tratar-se de um sequestro com pedido
de resgate. No lugar do Santo, deixava
ficar para titia.
Pois é. Alguém me disse que temos que beijar muitos
sapos para conseguir encontrar um príncipe.
Falando sério: técnicas de Recursos Humanos? Simpatias para o Santo? Há uma terceira via - deixar o destino dar
conta do recado. Podem aparecer belas
surpresas.
Muito bom, querida!
ResponderExcluirBj Ecila
Que bom que gostou.. Já coloquei outra...
ExcluirKKKKKK ! Adorei!!!! Viva Santo Antonio !!!
ResponderExcluirO coitado tem tanto trabalho...
ExcluirAna querida , desculpa a demora do comentário .
ResponderExcluirSó tenho uma coisa para dizer : " Quanta mão de obra ! " No nosso tempo era bem mais fácil !
Adorei a sua croniqueta , inteligente e divertida como sempre .
Pois é... uma trabalheira... Já tem outra no blog. Novinha...
ExcluirPara variar, achei ótima
ResponderExcluirSó hoje, dia 26, e que vi que tinha mensagem. Continue a mandar essas pero las. bjs