segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019


CATARINA II, A GRANDE
        Realmente, uma figura marcante. Se por obra do acaso eu tivesse vivido naquela corte russa, ia dar um jeito de ser amiga dela.  Inimiga, nunca !  Dos seus sessenta e sete anos, foi imperatriz por trinta e quatro. A metade de sua vida! Nenhuma outra mulher reinou por tanto tempo naquele país.
            Nasceu em 1729 na Pomerânia, região ao norte da Polônia e da Alemanha que pertencia ao império da Prússia e que foi dividida entre esses dois países depois da Segunda Grande Guerra. A princesa Sofia Frederica Augusta era de família nobre, mas sem grandes recursos, e foram os parentes ricos de sua mãe que lhe proporcionaram a chance de chegar ao poder. Como sempre, através de relações com as pessoas “certas”.  Justiça seja feita – era muito inteligente, fora educada por uma governanta francesa e por ótimos tutores; essa combinação lhe rendeu competência para um futuro marcante. 
            Foram tortuosos os caminhos que a levaram ao poder. Cá entre nós, muitos nada ortodoxos.  Sua escolha para casar-se com o Grão-Duque Pedro, aspirante ao trono russo e seu primo em segundo grau, deu-se em razão de interesses de estado, como sempre. Para enfraquecer a Áustria, os nobre russos planejaram a aproximação da Prússia com eles.  O desespero de Sofia foi, ainda muito jovem, perceber que o príncipe, um pouco mais velho, era um bobo que ainda brincava com soldadinhos de chumbo, fraco em muitos aspectos e já viciado em álcool.
            Chegou à Rússia aos quinze anos e, sem dúvida, já uma estrategista; esforçou-se ao máximo para conquistar a tia, Imperatriz Elizabeth, o povo russo e mesmo o futuro marido.  Aprendeu a falar a língua com perfeição e decidiu abandonar a fé luterana, tornando-se ortodoxa.  Foi com essa conversão que recebeu o nome de Ekaterina Alexeienva. Devemos reconhecer que fez de tudo para honrar o título que ganharia.  O sacrifício foi grande, e chegou a ficar à beira da morte em razão de problemas pulmonares.  Com dezesseis, em 1745, casou-se.  O pai, furioso por ela ter renegado a religião da família, nem apareceu.
            Importante esclarecer como Pedro chegou a imperador da Rússia.  Sua tia, a imperatriz Elizabeth, filha de Pedro, o Grande, não teve filhos, e por isso o indicou, como seu herdeiro presuntivo, quando estava com quatorze anos. Era o único filho de sua irmã Ana. Interessante é que estava sendo indicado, na mesma época, a Rei da Finlândia e, também da Suécia.  Em razão da possibilidade russa, alguém em seu nome renunciou a esses outros reinos. Como era menor, precisava ser representado. O problema é que, por ser apenas presuntivo em relação à Rússia, correu o risco de aparecer um herdeiro com mais direitos, ou sua tia indicar outra pessoa... No final das contas, considero que ter chegado ao trono não foi um bom negócio para ele.
            Sobre o casamento.  Pedro, pelo que Catarina entendia, era um bobo; ela, sabemos, já se mostrava uma “águia”. Não tinha futuro aquele casal. O herdeiro do trono logo arranjou uma amante, ao passo que ela não se contentou com poucos... longa lista de homens frequentando seus lençóis.  Mas o interessante é que ela realmente se apaixonava por cada um deles, mesmo que fosse por pouco tempo.  Era uma serial lover.  Em tempo – alguns desses favoritos foram apresentados pela própria irmã da amante do marido, e eram justamente homens que não eram gostavam de Pedro. Uma rede de intrigas de fazer inveja a Hollywood. 
O guia turístico confidenciou que Pedro tinha um probleminha no seu “instrumento”, e que a própria czarina havia aconselhado Catarina a trair o futuro czar para garantir filhos.   E Paulo nasceu.  A sorte do menino foi ser parecido com o pai, mesmo que alguns nobres continuassem a dizer que era filho de um oficial, Saltykov. Muita gente suspeita também da paternidade do Príncipe Harry, da Inglaterra, embora essa história já tenha sido desmentida com veemência por Ken Wharfe, guarda-costas e confidente de Diana.  Voltando à Rússia – a própria Catarina alegava que Pedro não seria o pai, mas isso não foi levado em conta.  Muitos acreditavam que ela tinha como objetivo fazer com que o filho não fosse considerado herdeiro legítimo, para que não atrapalhasse seus planos de permanecer no poder. 
Pedro III, quando assumiu o trono, conseguiu aumentar o número de desafetos, não só em razão de suas políticas interna e externa, mas também por causa de suas excentricidades.  Desagradava à maioria, e muitos desses importantes personagens estavam ao lado de Catarina há tempos.  Na verdade, essa é uma das versões sobre o czar.   Há historiadores que o classificam como um governante com visões modernas, atribuindo a ele decisões e realizações que são, em outros livros, atribuídos a ela. Se os próprios estudiosos não se entendem, vou apresentar apenas a versão mais aceita. E como a história oficial é contada pelos vencedores, neste caso pela vencedora, ficaremos sem saber ao certo. Pois é, danem-se os fatos, o que vale é a versão!
Na verdade, o pobrezinho nem esquentou o lugar.  Antes de completar seis meses no poder, teve a má ideia de viajar com alguns amigos, deixando Catarina no palácio.  Poucos dias depois, enquanto jantava, ela recebeu a notícia de que um de seus aliados fora preso pelo czar.  Não perdeu tempo e colocou em prática seus planos, contando com a ajuda de seus fiéis seguidores.  Na manhã seguinte, seguiu para o principal regimento do império para conseguir ajuda dos militares, pedindo proteção contra o marido.  Como poucos gostavam dele, não foi difícil.  De lá, partiu para onde o clero aguardava para ordená-la única ocupante do trono russo.  Tinha trinta e três anos, era estrangeira... Não se pode negar que foi uma mulher muito hábil, inteligente e corajosa.  Na verdade, não dava ponto sem nó.
Seis dias depois desse acontecimento, segundo uma das versões que temos sobre o fato, Pedro III foi morto pelas mãos do irmão caçula de um dos favoritos de Catarina, Orlov. Outra suspeita é de que, bêbado, o czar teria se desentendido com seu guarda-costas, sendo por ele assassinado.  Nem a KGB da época conseguiu atribuir à Catarina qualquer participação no crime. Mas, indiscutivelmente, sua morte caiu como uma luva para seus planos de czarina!
Voltando um pouco na História da Rússia, temos Pedro, o Grande, avô de Pedro III, casando-se secretamente com a amante de ascendência sueca que, quando se converteu à Igreja Ortodoxa Russa, recebeu o nome de Catarina.   Eram muito ligados, tiveram 12 filhos e acabaram se casando oficialmente anos depois, o que a transformou em Imperatriz Consorte.  Pedro não parou por aí e, um ano antes de morrer, coroou-a co-governante do Império Russo. E quando ele morreu, tornou-se a primeira mulher na história a governar a Rússia. Morreu dois anos depois, aos 43 anos, de tuberculose.
Essa foi a deixa para Catarina II considerar-se legítima sucessora.   A avó de seu recém falecido marido havia assumido o império quando o marido se foi... Por que não poderia ela fazer o mesmo?  Essas Catarinas eram muito espertas!
Nunca se sabe se o que contam tem fundamento.  Hoje em dia, há mais facilidade em apurar-se qualquer coisa que aconteça, mesmo que, muitas vezes, continuemos sem saber a verdade por inteiro.  Naquele tempo, então, poderia se dizer o que quisesse que não haveria muita chance de se chegar à realidade.  De qualquer modo, aqui vai uma história muito louca que se encontra em um respeitado livro escrito sobre o reinado de Catarina.  Se verdadeira, confirmaria o desequilíbrio e a mente infantilizada de Pedro.
 Certa vez, ao entrar no quarto do marido, deparou-se com um rato morto pregado na parede.  Assustou-se mais ainda ao ouvi-lo explicar que o bicho, por haver cometido um crime, merecera a pena de morte, em conformidade com as leis de guerra vigentes. 
É fato que Pedro mantinha, embaixo da cama, uma grande coleção de brinquedos, a maioria deles soldadinhos e apetrechos militares.  Aproveitava a ausência da esposa, provavelmente enquanto ela estava com os amantes, e montava cenas de batalhas.  Acontece que o tal rato, inadvertidamente, invadiu o cenário de guerra e rapidamente devorou dois soldadinhos.  O desespero de Pedro, segundo Catarina, foi como se ele tivesse perdido um membro da família.  Assim, o pobre bichinho foi sumariamente condenado à forca, sem direito à defesa. E a sentença foi executada em um pequeno patíbulo, especialmente construído para esse enforcamento.  Talvez seja prudente dar um desconto, pois esse relato pode ser um pouco exagerado. Embora onde haja fumaça, pode haver fogo, nunca saberemos.
Outra coisa interessante sobre esse czar que reinou por apenas seis meses – apareceram, depois, pelo menos cinco homens afirmando ser ele, alegando que não teria sido morto e, sim, sido feito prisioneiro em segredo por Catarina.  Mas nenhum desses logrou êxito com suas mentiras, pois a czarina acabou com as pretensões de todos eles.
Há algumas histórias envolvendo o “fantasma” dele. Uma das mais famosas é que seu espírito que teria parado o exército de Hitler perto de Leningrado, em 1944.  Não se pode comprovar, claro, mas ficou no imaginário popular. O que é verdade - ele não recebeu grandes honras ao morrer, já que a esposa estava mesmo era aliviada e feliz. Seu filho Paulo I, que sucedeu a mãe e de quem não gostava nem um pouco, finalmente mandou exumar os restos mortais de Pedro III e o sepultou, com todas as honras, junto aos outros czares. 
Seria uma injustiça não falar mais sobre Catarina, a Grande. E seria cansativo para quem lê ficar tudo em uma só crônica.  Em breve, mais indiscrições e fatos sobre a déspota esclarecida que marcou, profundamente, a história da Rússia.


5 comentários:

  1. Como sempre adorei! Historia entremeada de fofoca ou seria o inverso, fofoca entremeada de historia?

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  2. Elke iria adorar seu texto. Ela sempre contava as histórias da nobreza russa. Adorei. Bjs

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