SÃO PETERSBURGO
Chamada pelos íntimos de
Peter, às margens do Rio Neva, a belíssima cidade conseguiu me conquistar no
primeiro minuto. Tem a honra de ter tido
dois grandes personagens da História da Rússia ligados a ela: Pedro, o Grande e
Catarina, a Grande. Guardadas todas as
ressalvas possíveis em relação a cada um deles, foram considerados grandes estadistas.
A Rússia, esse país
de dimensões espantosas, só não é maior do que minha vontade de conhecer o
mundo; seu povo, culturalmente diversificado, apresenta profundos contrastes, com
mais ou menos 200 culturas convivendo. Isso é fascinante, mas deve trazer muita
dificuldade para agradar tantos grupos diferentes. Um dos guias afirmou que o povo, como um
todo, gosta de governantes fortes, que sejam capazes de lidar com tanta
diversidade. Há controvérsias.
Fundada por
Pedro, o Grande, em 1703, no Mar Báltico, São Petersburgo só perde em tamanho
para Moscou. Pedro era muito
desequilibrado, sabemos, mas tinha profunda visão de administrador. Percebeu que a Rússia precisava de uma saída
para o mar como alternativa para o principal porto utilizado, junto ao Mar
Branco, sempre congelando nos invernos rigorosos. Tratou de tirar dos suecos a pequena cidade
que eles haviam fundado ali junto ao Mar Báltico, noventa anos antes. Construiu logo o Forte Pedro e Paulo e foi em
frente. Os operários eram camponeses de
todo o país e prisioneiros suecos. No final, foram cerca de cem mil servos
mortos. Na história do homem, não foi a
primeira, nem a última vez.
Em 10 anos, Pedro
transferiu a capital do império para lá.
Somente depois da Revolução Socialista, em 1918, São Petersburgo, que
passara a se chamar Petrogrado, perdeu de vez para Moscou o posto de capital. E, com
Lenin no auge, Petrogrado virou Leningrado logo em 1924. Só voltou a ser São Petersburgo em 1991, por
escolha da população mesmo. Mesmo sem
ser o centro administrativo do país, com seus cinco milhões de habitantes, é a
preferida de muitos turistas. Seu fantátisco
centro histórico e os inúmeros monumentos são considerados patrimônio mundial
da Unesco. E o Hermitage é deslumbrante, com mais de três milhões de peças em
seu acervo, embora só vinte por cento estejam expostos. Que museu! Vale uma visita atenta. Dos cinco maiores do mundo, ainda preciso
conhecer o de Atenas. Mas como a Grécia
está na minha agenda para o próximo ano, acho que logo resolvo essa lacuna
cultural.
O grande poder
militar russo, durante quase duzentos anos no período dos czares, não trouxe
uma vida mais digna para a população.
Como sempre, só os nobres aproveitavam.
Tudo começou a mudar no início do século XX, com a Primeira Guerra
Mundial, mas as brigas internas castigavam ainda mais a vida dos russos. Em 1918, os Romanov tiveram o destino que
conhecemos. Eu me lembro que, durante um
bom tempo, muitos acreditavam que a Princesa Anastácia havia se salvado e, por
causa disso, algumas “candidatas” ao
cargo apareceram... mas como se diz hoje – eram fake news. Em 2007, encontraram seus restos mortais e de
seu irmão Alexei, que estavam em lugar diferente do resto da família, que foram
descobertos em 1991. Bem, essa é a
história oficial.
A luta pelo
poder entre os diferentes grupos fez grandes estragos, e a fome de 1921 matou cinco
milhões de russos além dos que morreram na luta fraticida. Para termos uma ideia, a Croácia, na moda agora,
tem dois milhões e meio de habitantes.
No Brasil, seria o equivalente à população inteira de Sergipe somada à
do Mato Grosso do Sul, cada uma com cerca de dois milhões e meio também.
Na Segunda
Guerra, ainda com o nome de Leningrado, os quase novecentos dias do cerco
sofrido custaram um milhão de vidas, em razão do frio, da fome, de muitas doenças
e da guerra, mesmo. Recebeu, então, com
mais 3 cidades russas, o título de cidade heróica. Os livros e filmes a respeito desse longo
episódio mostram os horrores do mais longo e terrível cerco da história
moderna.
Fui no verão, é
claro, já que é uma das cidades mais frias do mundo. A média no verão, sempre curto, é de 23
graus, enquanto no inverno, longo, escuro e úmido, é de 5 graus. Mas pode chegar a menos 35 graus! Com neve
são, geralmente, cerca de 120 dias... Eu tive sorte de nascer no Rio de
Janeiro, nesse clima tão ameno. Quando
os termômetros marcam 20 graus, já estou procurando casaco.
Para sobreviver
a esse período gelado e, sem dúvida, menos alegre, a companhia mais procurada é
o álcool. Lembro que eu e Ana Miniati
andávamos pelas ruas de São Petersburgo em uma sexta à noite, com as ruas
cheias de jovens e velhos comemorando o verão, e sentíamos, no ar, o forte
cheiro característico de destilados fortes.
Impressionante! Se eu ainda
fumasse, provavelmente provocaria um incêndio se usasse o isqueiro, pois o ar
não tinha só nitrogênio e oxigênio.
Levava etanol em alto grau!!!
Parti para as
pesquisas. Qual o consumo anual de vodka
na Rússia? 80 litros por pessoa ao ano! São diagnosticados alcóolatras cerca de seis
milhões de pessoas. E vinte milhões bebem vodca todos os dias! Os czares se preocupavam com isso, os líderes
comunistas também... mesmo assim, atualmente, temos o mesmo nível de ressaca
nas estatísticas.
A cidade, considerada
a capital da cerveja da Rússia, produz trinta por cento do total nacional. A água por lá é abundante e de ótima
qualidade para a preparação da bebida.
E produzem vodca, também... mas disso, já sabemos.
Pelos filmes que
retratam a máfia russa, temos noção da violência que impera pelo país todo. E São
Petersburgo não escapa, com altos índices de suborno e crimes de rua. Nos anos
90, era conhecida como o quartel desses criminosos. E a intolerância racial tem
crescido consideravelmente, infelizmente, como no mundo todo. Uma gangue de supremacia branca tem
assassinado estudantes universitários estrangeiros com frequência. Como digo e repito - O homem é o lobo do
homem.
Trazendo temas
mais leves à tona, nossa capital gaúcha é uma das muitas cidades irmãs de São
Petersburgo, mas a da Rússia, pois existe uma com o mesmo nome na Flórida.
Sinto uma inveja
enorme. São 221 museus, duas mil
bibliotecas, mais de 80 cinemas, cem organizações de concerto, e outros tantos
centros de cultura. Pois é, se não fosse tão fria e não tivesse aquele presidente,
talvez eu quisesse ficar lá por um tempo.
A Veneza do Norte, com suas pontes, rios e canais, tem tanto para ser
visto que, realmente, acho que tenho que voltar.
Comi o famoso
estrogonofe. Uma delícia! Mas só cheguei até a porta do Palácio
Stroganov, com “a”, mesmo. O Barão que
o mandou construir, Sergei Stroganov, era um excêntrico, dono de minas de sal e
um gourmand daqueles, no sentido usado atualmente. Outros, o chamariam de gourmet. Bebia e comia com vontade, mas somente alta
gastronomia. Tive duas explicações sobre
o famoso prato. Uns me disseram que ele
tinha um problema de dentes, e seu cozinheiro passou a picar a carne do prato
que ganhou seu nome. Outros me disseram
que ele, uma vez, ao receber um hóspede ilustre, descobriu que este tinha um
problema nas mãos e não podia cortar o escalopinho. Mandou cortar em pedacinhos e misturar no
molho. Foi tão grande o sucesso que ficou
para a posteridade.
O palácio está
aberto à visitação, tendo um restaurante que serve, claro, o famoso prato no
original, sem ser cortado. Preciso
experimentar. No subsolo, tem um lugar
especial, tipo esconderijo, para os ilustres.
Com um quarto que pode servir de hotel!
Deve ser o máximo. Arranjei mais
um motivo para eu voltar.
Falar de
Catarina, a Grande, exige espaço e, por isso, vai ficar para outra
crônica. São muitas histórias, algumas
picantes, outras assustadoras... Mandou matar o marido! Enfim, só daqui a alguns dias. Até lá, espero
que a curiosidade fique bem aguçada.
Ana um brinde com Coca Cola pra vc. ADOREI SEU ESCRITO.
ResponderExcluirQue bom que gostou!!!! Obrigada pelo brinde, também!
ResponderExcluirAna , adorei a tua crônica e espero um dia poder conhecer esta cidade encantadora . Durante a Copa mostraram algumas reportagens sobre as cidades sede . Sem dúvida São Petersburgo me pareceu a mais fascinante !
ResponderExcluir