quinta-feira, 2 de agosto de 2018


SÃO PETERSBURGO

             Chamada pelos íntimos de Peter, às margens do Rio Neva, a belíssima cidade conseguiu me conquistar no primeiro minuto.  Tem a honra de ter tido dois grandes personagens da História da Rússia ligados a ela: Pedro, o Grande e Catarina, a Grande.   Guardadas todas as ressalvas possíveis em relação a cada um deles, foram considerados grandes estadistas.
                   A Rússia, esse país de dimensões espantosas, só não é maior do que minha vontade de conhecer o mundo; seu povo, culturalmente diversificado, apresenta profundos contrastes, com mais ou menos 200 culturas convivendo. Isso é fascinante, mas deve trazer muita dificuldade para agradar tantos grupos diferentes.  Um dos guias afirmou que o povo, como um todo, gosta de governantes fortes, que sejam capazes de lidar com tanta diversidade.  Há controvérsias.
                   Fundada por Pedro, o Grande, em 1703, no Mar Báltico, São Petersburgo só perde em tamanho para Moscou.  Pedro era muito desequilibrado, sabemos, mas tinha profunda visão de administrador.  Percebeu que a Rússia precisava de uma saída para o mar como alternativa para o principal porto utilizado, junto ao Mar Branco, sempre congelando nos invernos rigorosos.  Tratou de tirar dos suecos a pequena cidade que eles haviam fundado ali junto ao Mar Báltico, noventa anos antes.  Construiu logo o Forte Pedro e Paulo e foi em frente.  Os operários eram camponeses de todo o país e prisioneiros suecos.   No final, foram cerca de cem mil servos mortos.  Na história do homem, não foi a primeira, nem a última vez.
                   Em 10 anos, Pedro transferiu a capital do império para lá.  Somente depois da Revolução Socialista, em 1918, São Petersburgo, que passara a se chamar Petrogrado, perdeu de vez para Moscou o posto de capital.   E, com Lenin no auge, Petrogrado virou Leningrado logo em 1924.  Só voltou a ser São Petersburgo em 1991, por escolha da população mesmo.  Mesmo sem ser o centro administrativo do país, com seus cinco milhões de habitantes, é a preferida de muitos turistas.  Seu fantátisco centro histórico e os inúmeros monumentos são considerados patrimônio mundial da Unesco. E o Hermitage é deslumbrante, com mais de três milhões de peças em seu acervo, embora só vinte por cento estejam expostos.  Que museu! Vale uma visita atenta.  Dos cinco maiores do mundo, ainda preciso conhecer o de Atenas.  Mas como a Grécia está na minha agenda para o próximo ano, acho que logo resolvo essa lacuna cultural.
                   O grande poder militar russo, durante quase duzentos anos no período dos czares, não trouxe uma vida mais digna para a população.  Como sempre, só os nobres aproveitavam.  Tudo começou a mudar no início do século XX, com a Primeira Guerra Mundial, mas as brigas internas castigavam ainda mais a vida dos russos.  Em 1918, os Romanov tiveram o destino que conhecemos.  Eu me lembro que, durante um bom tempo, muitos acreditavam que a Princesa Anastácia havia se salvado e, por causa disso, algumas “candidatas”  ao cargo apareceram... mas como se diz hoje – eram fake news.  Em 2007, encontraram seus restos mortais e de seu irmão Alexei, que estavam em lugar diferente do resto da família, que foram descobertos em 1991.  Bem, essa é a história oficial.
                   A luta pelo poder entre os diferentes grupos fez grandes estragos, e a fome de 1921 matou cinco milhões de russos além dos que morreram na luta fraticida.  Para termos uma ideia, a Croácia, na moda agora, tem dois milhões e meio de habitantes.  No Brasil, seria o equivalente à população inteira de Sergipe somada à do Mato Grosso do Sul, cada uma com cerca de dois milhões e meio também.
                   Na Segunda Guerra, ainda com o nome de Leningrado, os quase novecentos dias do cerco sofrido custaram um milhão de vidas, em razão do frio, da fome, de muitas doenças e da guerra, mesmo.  Recebeu, então, com mais 3 cidades russas, o título de cidade heróica.  Os livros e filmes a respeito desse longo episódio mostram os horrores do mais longo e terrível cerco da história moderna.
                   Fui no verão, é claro, já que é uma das cidades mais frias do mundo.  A média no verão, sempre curto, é de 23 graus, enquanto no inverno, longo, escuro e úmido, é de 5 graus.  Mas pode chegar a menos 35 graus! Com neve são, geralmente, cerca de 120 dias... Eu tive sorte de nascer no Rio de Janeiro, nesse clima tão ameno.  Quando os termômetros marcam 20 graus, já estou procurando casaco. 
                   Para sobreviver a esse período gelado e, sem dúvida, menos alegre, a companhia mais procurada é o álcool.  Lembro que eu e Ana Miniati andávamos pelas ruas de São Petersburgo em uma sexta à noite, com as ruas cheias de jovens e velhos comemorando o verão, e sentíamos, no ar, o forte cheiro característico de destilados fortes.  Impressionante!  Se eu ainda fumasse, provavelmente provocaria um incêndio se usasse o isqueiro, pois o ar não tinha só nitrogênio e oxigênio.  Levava etanol em alto grau!!! 
                   Parti para as pesquisas.  Qual o consumo anual de vodka na Rússia?  80 litros por pessoa ao ano!  São diagnosticados alcóolatras cerca de seis milhões de pessoas. E vinte milhões bebem vodca todos os dias!  Os czares se preocupavam com isso, os líderes comunistas também... mesmo assim, atualmente, temos o mesmo nível de ressaca nas estatísticas.
                   A cidade, considerada a capital da cerveja da Rússia, produz trinta por cento do total nacional.  A água por lá é abundante e de ótima qualidade para a preparação da bebida.    E produzem vodca, também... mas disso, já sabemos.
                   Pelos filmes que retratam a máfia russa, temos noção da violência que impera pelo país todo. E São Petersburgo não escapa, com altos índices de suborno e crimes de rua. Nos anos 90, era conhecida como o quartel desses criminosos. E a intolerância racial tem crescido consideravelmente, infelizmente, como no mundo todo.  Uma gangue de supremacia branca tem assassinado estudantes universitários estrangeiros com frequência.  Como digo e repito - O homem é o lobo do homem.  
                   Trazendo temas mais leves à tona, nossa capital gaúcha é uma das muitas cidades irmãs de São Petersburgo, mas a da Rússia, pois existe uma com o mesmo nome na Flórida.   
                   Sinto uma inveja enorme.  São 221 museus, duas mil bibliotecas, mais de 80 cinemas, cem organizações de concerto, e outros tantos centros de cultura. Pois é, se não fosse tão fria e não tivesse aquele presidente, talvez eu quisesse ficar lá por um tempo.  A Veneza do Norte, com suas pontes, rios e canais, tem tanto para ser visto que, realmente, acho que tenho que voltar.
                   Comi o famoso estrogonofe.  Uma delícia!  Mas só cheguei até a porta do Palácio Stroganov, com “a”, mesmo.   O Barão que o mandou construir, Sergei Stroganov, era um excêntrico, dono de minas de sal e um gourmand daqueles, no sentido usado atualmente.  Outros, o chamariam de gourmet.  Bebia e comia com vontade, mas somente alta gastronomia.  Tive duas explicações sobre o famoso prato.  Uns me disseram que ele tinha um problema de dentes, e seu cozinheiro passou a picar a carne do prato que ganhou seu nome.   Outros me disseram que ele, uma vez, ao receber um hóspede ilustre, descobriu que este tinha um problema nas mãos e não podia cortar o escalopinho.  Mandou cortar em pedacinhos e misturar no molho.   Foi tão grande o sucesso que ficou para a posteridade.
                   O palácio está aberto à visitação, tendo um restaurante que serve, claro, o famoso prato no original, sem ser cortado.  Preciso experimentar.  No subsolo, tem um lugar especial, tipo esconderijo, para os ilustres.  Com um quarto que pode servir de hotel!  Deve ser o máximo.  Arranjei mais um motivo para eu voltar.
                   Falar de Catarina, a Grande, exige espaço e, por isso, vai ficar para outra crônica.   São muitas histórias, algumas picantes, outras assustadoras... Mandou matar o marido!  Enfim, só daqui a alguns dias. Até lá, espero que a curiosidade fique bem aguçada.

3 comentários:

  1. Ana um brinde com Coca Cola pra vc. ADOREI SEU ESCRITO.

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  2. Que bom que gostou!!!! Obrigada pelo brinde, também!

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  3. Ana , adorei a tua crônica e espero um dia poder conhecer esta cidade encantadora . Durante a Copa mostraram algumas reportagens sobre as cidades sede . Sem dúvida São Petersburgo me pareceu a mais fascinante !

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